O Cristão e o Equilíbrio

O Cristão e o Equilíbrio - Por Markus DaSilva

Por Markus DaSilva, Th.D.

Estamos em guerra. Todos nós, sem exceção, participamos de uma batalha que teve início há muitos anos, ironicamente, em um paraíso, onde apenas a paz reinava. Adão e Eva iniciaram a maior batalha do universo por dois motivos: confiaram em Satanás e confiaram em si mesmos. Afinal, que mal pode haver em comer uma simples fruta? Milhares de anos depois, muitos nas igrejas continuam preferindo a voz da serpente à de Deus. Creem que podem sim ceder aos desejos do coração, desde que o façam com equilíbrio.

“O servo que verdadeiramente segue a Cristo é de fato um radical, assim como Jesus o era, e é de se esperar que receba o mesmo tipo de tratamento.”

Nossos textos são frequentemente considerados radicais. Quando exortamos os cristãos a obedecerem a Cristo, amar somente a ele, e abandonar o mundo para que não morram em seus pecados, sempre ouvimos o argumento de que o abandono por completo é um exagero, um extremismo, e que basta o autocontrole. O pai da mentira sempre recicla a velha e batida frase: “Certamente não morrereis!” (Gn 3:4).

Mas para mim, ser chamado de radical, provocar a ira do cristão carnal, é uma honra. O servo que verdadeiramente segue a Cristo é de fato um radical, assim como Jesus o era, e é de se esperar que receba o mesmo tipo de tratamento: “Se vocês fossem do mundo, ele os amaria como se pertencessem a ele. Porém, vocês não são do mundo, mas eu escolhi a vocês, tirando-os do mundo; por isso o mundo os odeia” (Jo 15:19).

Querido, quando as pessoas queriam saber de Jesus sobre o que deveriam fazer para segui-lo e ganhar o reino de Deus, Cristo não lhes disse que precisavam de equilíbrio; não lhes disse que participassem dos prazeres do mundo com cautela. Não! Suas palavras foram repletas de radicalismo: vim trazer divisão (Lc 12:51); abandone pai e mãe (Lc 14:26); venda tudo o que tem (Mt 19:21); arranque o braço e o olho (Mt 5:29-30); perca a própria vida (Lc 17:33). Termos fortes; usados para que entendamos sem equívocos a situação desesperadora em que nos encontramos.

Amado, a guerra por sua alma continua sendo travada (1Pe 5:8). O diabo continua tendo grande sucesso com o argumento de que tudo o que o cristão precisa é de equilíbrio. Continua levando milhares ao fogo eterno com a ideia de que um pouquinho do mundo não faz mal a ninguém. Imploro que não ouça a nenhuma outra voz senão a de Cristo. No juízo final, o chamado para entrar no Reino não será para os que aproveitaram o mundo com equilíbrio, mas sim para aqueles que morreram para ele, aqueles que se lavaram no sangue do Cordeiro (Ap 7:14) e que não contaminaram as suas vestes (Ap 3:4). Espero te ver no céu.

NOTA: A palavra grega, “enkrateia” (ἐγκράτεια), traduzida em algumas versões como equilíbrio, temperança e autocontrole, é usada apenas 4 vezes no original (Atos, Gálatas e duas vezes em 2ª Pedro). Jesus não usou essa palavra. Ela tem como significado ter força (“kratos”- κράτος) para resistir às fraquezas. Já a palavra “sofronismos” (σωφρονισμός), usada apenas uma vez (2Tm 1:7), vem de “sofron”, que literalmente significa “salvar a mente”. Ambas as palavras denotam o dom do Espírito Santo que habilita o cristão a resistir às tentações; de manter a mente livre do pecado. De forma alguma significa, como alguns gostariam que fosse, uma permissão para experimentar do mundo, desde que com moderação.