🔊 (Parte 23) Serie: O Sermão da Montanha. Estudo Nº 23: O Nosso Irmão: Matando com o Coração e a Boca [Com Áudio]

Paisagem de planícies com rio e bufalos pastando, na frente texto ilustrando o estudo: O Sermão da Montanha. Estudo Nº 23: O Nosso Irmão: Matando com o Coração e a Boca

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Por Markus DaSilva, Th.D.

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ontinuando a série sobre o Sermão da Montanha, após deixar claro para os seus discípulos que o tipo de retidão que presenciavam dia após dia nos escribas e fariseus não era aquilo que o Pai espera dos seus seguidores para que a graça da salvação seja alcançada, Jesus então inicia uma lista de exemplos bem específicos da correta obediência à lei de Deus. Estas palavras de Cristo certamente eram inéditas e incríveis para os seus ouvintes, pois todos eles, desde criancinhas, sempre tiveram os seus líderes religiosos como o perfeito modelo de santidade a ser seguido para assim agradar a Deus e entrar no Reino dos Céus. Algo que obviamente soou ainda mais incrível aos seus ouvidos é que, ao invés de Jesus dizer que os requerimentos do Pai para alguém entrar no Reino eram mais leves do que eles haviam até então aprendido dos líderes, o Senhor lhes disse que na realidade Deus exige muito mais disciplina do que se via nos religiosos: “Pois eu vos digo que, se a vossa retidão não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus” (Mat 5:20).

“Frequentemente esquecemos que toda a vida cristã é uma vida de fé, e fé transforma o impossível em possível, o conceito em realidade e o desejo em bênção.”

Certamente assustados com as palavras de Jesus, a pergunta que então surgia na mente era: exceder em que? Como exceder os escribas e fariseus se eles eram os profissionais em tudo o que se conhecia a respeito de Deus? Eles ganhavam o seu salário estudando e pregando sobre as Escrituras. Como pode Jesus esperar que simples e iletrados camponeses, pastores de ovelhas e pescadores obtenha uma retidão superior à daqueles que frequentaram os melhores seminários, possuíam acesso aos livros sagrados e aprenderam dos mais respeitados professores de religião? (Mat 11:25). Foi para dissipar estas dúvidas que Jesus esclareceu a sua frase utilizando de seis exemplos que demonstra como a retidão ensinada e praticada pelos escribas e fariseus, apesar de possuir uma aparência de santidade, deixava muito a desejar quanto à retidão que o Pai espera dos seus seguidores. Após cada exemplo, Jesus explicou qual é a correta observância para cada um destes mandamentos.

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A lei de Deus era a base que sustentava todo o sistema político-religioso do judaísmo nos dias de Jesus. Os escribas e fariseus, no entanto, utilizavam dos mandamentos de Deus não com o objetivo de estabelecer um ambiente de amor e justiça entre os seus irmãos e preparar a nação para o estabelecimento do Reino dos Céus, mas sim para o ganho próprio (Mat 23:18). Eles se limitavam à letra da lei, pregando uma versão de Deus distorcida: sem amor, sem perdão, sem misericórdia, sem a graça, e focada na lei cerimonial: “Ide, porém, e aprendei o que significa: Misericórdia quero e não sacrifícios” (Mat 9:13). [Acessar estudo sobre a Letra da Lei e o Espírito da Lei]

Os escribas e fariseus ensinavam uma observância da lei superficial; restrita somente àquilo que foi escrito no Sinai e todas as adições posteriores que lhes convinham, conhecidas como: “as tradições dos anciãos” [τὴν παράδοσιν τῶν πρεσβυτέρων (ten paradosin ton presbitéron)] (Mar 7:3). Eles consideravam a lei de Deus da mesma forma que alguém considera um contrato entre homens; assinado e lavrado em cartório e que, quando necessário, pode ser revista, alterada e promulgada. Eles mesmos criavam cláusulas e as associavam aos santos mandamentos do Senhor, de acordo com as suas conveniências, e as apresentavam ao povo como se viesse do próprio Deus. Um bom exemplo desta tática foi o que fizeram com o quinto mandamento: “Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá” (Exo 20:12). Para aumentar a entrada nos seus cofres, inventaram o “corbã”, uma cláusula adicionada ao mandamento que isentava os filhos de ajudar financeiramente aos seus pais idosos, desde que o dinheiro fosse doado ao templo (Mat 15:3-6). A vantagem desta manobra era que o doador adquiria prestígio na comunidade religiosa, sem que fosse necessário um custo adicional. Os seus pais, obviamente, eram negligenciados no processo. Absurdos como esse sempre ocorrerão quando o homem se acha na liberdade de manipular os mandamentos de Deus segundo a sua conveniência, e esta liberdade apenas ocorre quando a pessoa não vê a lei de Deus como um prazer, mas sim como uma árdua obrigação a ser cumprida: “Porque este é o amor de Deus, que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são penosos” (1Jo 5:3).

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O primeiro dos exemplos de Jesus é quanto ao sexto mandamento da lei de Deus (quinto na Bíblia Católica): “Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; e, quem matar estará sujeito a julgamento. Eu, porém, vos digo que todo aquele que se irar contra seu irmão, estará sujeito a julgamento; e quem disser a seu irmão: “Raca!”, será levado ao tribunal; e quem lhe disser: “Tolo!”, corre o risco de ir para o fogo do inferno” (Mat 5:21-22. Ver também: Exo 20:13; Deut 5:17).

Os antigos a quem Jesus se refere são todos os escolhidos do Senhor desde a queda do homem até a sua vinda. Muito embora os mandamentos de Deus foram colocados de uma forma mais clara e organizada durante os 40 anos que a nação de Israel passou no deserto após a sua saída do Egito, a realidade é que o povo de Deus sempre teve conhecimento dos preceitos do Criador. Em relação ao pecado de assassinato, por exemplo, em Gênesis o Senhor já se pronunciava quanto a esse mandamento: “Quem derramar sangue de homem, pelo homem terá o seu sangue derramado; porque Deus fez o homem à sua imagem” (Gen 9:6). Podemos observar o mesmo em relação ao quarto mandamento que lida com o dia de descanso: “Abençoou Deus o sétimo dia, e o santificou; porque nele descansou de toda a sua obra que criara e fizera” (Gen 2:3). E ainda sobre o sétimo mandamento, se referindo ao pecado de adultério: “Deus, porém, veio a Abimeleque, em sonhos, de noite, e disse-lhe: Eis que estás para morrer por causa da mulher que tomaste; porque ela tem marido” (Gen 20:3). E finalmente, podemos ver Deus se referindo a todos os seus mandamentos e estatutos no seu diálogo com Isaque: “…porquanto Abraão obedeceu à minha voz, e guardou os meus mandamentos, os meus preceitos, os meus estatutos e as minhas leis” (Gen 26:5). Todos esses exemplos nas Sagradas Escrituras ocorreram séculos antes do nascimento de Moisés.

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Mas voltando ao sexto mandamento. Até então: “não matarás”, era ensinado pelos líderes religiosos como sendo um estatuto ligado apenas à parte física do ser humano, ou seja, a única forma de quebrar o sexto mandamento seria retirando intencionalmente a vida de uma pessoa. Qualquer outra ofensa ao irmão, desde que a sua vida fosse preservada, não seria considerada pecado de morte. Este entendimento limitado da lei de Deus era devido ao coração rebelde que o povo judeu sempre possuiu (Mat 19:8; Mar 3:5). Não deveria ter sido assim, pois nas Sagradas Escrituras encontramos inúmeras passagens inspiradas por Deus que indicavam o caráter espiritual dos seus mandamentos: “Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me, e conhece os meus pensamentos; vê se há em mim algum caminho perverso, e guia-me pelo caminho eterno” (Sal 139:23-24. Ver também: Sal 26:2; Prov 24:17-18). A atitude dos líderes em ensinar apenas o aspecto superficial, ou a letra da lei de Deus não tinha razão de ser, eles não tinham desculpas, pois nunca lhes foi oculto que é do coração, da parte mais íntima e espiritual do homem, que procede toda a ofensa a Deus: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o poderá conhecer? Eu, o Senhor, esquadrinho a mente, eu provo o coração; e isso para dar a cada um segundo os seus caminhos e segundo o fruto das suas ações” (Jer 17:9-10. Ver também: Mar 7:21-23).

Jesus primeiro esclarece que para Deus começamos a matar o nosso irmão assim que nos iramos contra ele. Ou seja, enquanto a letra da lei se limita ao ato final do assassinato, o espírito da lei foca no primeiro passo, que se não for eliminado, levará à sua evolução natural que é a morte de quem nos ofende. A letra, que é inferior, lida com a consumação do pecado, enquanto o espírito, que é superior, foca na sua raiz: “Pois é do interior, do coração dos homens, que procedem os maus pensamentos, as prostituições, os furtos, os homicídios, os adultérios…” (Mar 7:21). Caso a contrariedade que temos com o nosso irmão não seja interrompida na sua raiz, ou quando começamos a sentir raiva da pessoa, o próximo passo é começarmos a desejar todo o tipo de mal contra ela. Começamos também a observar todos os defeitos que a pessoa possui, tanto defeitos reais como imaginários, e cada vez mais aumenta o nosso desprazer com a pessoa. Jesus explicou esta evolução do mal, indo da ira para um insulto simples até uma expressão de ódio com os termos: ira, raca e tolo [ὀργίζω, ῥακά, μωρός (orgizo, raca, morós)]. A punição que recebemos por nossa atitude é proporcional a esta evolução que ocorre em nós: tribunal local, tribunal superior (Sinédrio) e no final o inferno [κρίσις, συνέδριον, γέεννα (krisis, sinédrion, geêna)]. Todo este linguajar envolvendo sentimentos, termos ofensivos e cortes comuns na época dos discípulos, foi a maneira que Jesus quis utilizar para nos dizer que o pecado de assassinato e a sua punição, que é o fogo do inferno, tem um início que ocorre não quando se pega a arma para tirar a vida da pessoa, mas sim quando surge os primeiros indícios de ira no coração. Foi isso o que o apóstolo João quis dizer quando nos escreveu: “Todo aquele que odeia a seu irmão é assassino; ora, vós sabeis que nenhum assassino tem a vida eterna dentro de si” (1Jo 3:15).

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Irmãos, eu sei que não se irar com as pessoas que convivemos no cotidiano parece algo impossível de ser feito, principalmente nos dias atuais onde nos relacionamos constantemente com dezenas de indivíduos: em casa, na escola, no trabalho, na rua, na igreja… e em vários outros locais. Nos próximos estudos desta série sobre o Sermão da Montanha, seguiremos falando a respeito dos demais mandamentos que Jesus usou como exemplo. De fato, todos eles, a princípio, parece que Jesus está nos pedindo por algo que não temos como lhe dar. Essa aparente dificuldade, porém, se dá ao fato de que frequentemente esquecemos que toda a vida cristã é uma vida de fé (Hab 2:4; Rom 1:17; Heb 10:38), e fé transforma o impossível em possível, o conceito em realidade e o desejo em bênção.

Pela fé — digo por experiência própria — podemos obedecer a todos os mandamentos do nosso querido Deus: Pai e Filho. Pela fé, aceitamos que, se o nosso Criador nos pede por algo, é porque Ele mesmo nos dará a capacidade de lhe dar aquilo que Ele pede. Pela fé então, saímos do teórico para o prático. Começamos a obedecer independentemente de sentimentos, pois a fé que funciona não se baseia em sentimentos, mas sim nas promessas Daquele que sempre se manteve fiel naquilo que promete: “Fiel é Deus, pelo qual fostes chamados para a comunhão de seu Filho Jesus Cristo nosso Senhor” (1Cor 1:9). Espero te ver no céu.
 
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