🔊 (Parte 22) Serie: O Sermão da Montanha. Estudo Nº 22: A Letra da Lei e o Espírito da Lei [Com Áudio]

Paisagem de planícies com vários bandos de trigo ao fundo. Na frente o texto para o estudo bíblico de Markus DaSilva.

Baixar Áudio Baixar Áudio | Baixar PDF Baixar PDF

Por Markus DaSilva, Th.D.

Apartir de agora nesta longa série sobre o Sermão da Montanha, indo do versículo 20 ao 48 do capítulo 5 de Mateus, Jesus sai do teórico para o prático. O Senhor nos dá vários exemplos bem específicos de como os antigos — Moisés e os profetas do Velho Testamento — ensinaram a obediência aos mandamentos de Deus e de como Ele, o Messias enviado dos céus, espera que os obedeçamos. Todas as vezes que Jesus menciona um dos mandamentos, ele inicia a frase nos lembrando a forma original que ele nos foi transmitido através do instrumento humano: “Ouvistes que foi dito…” [ἐκούσατε ὅτι ἐρρέθη (ekúsate oti errethe)] e logo a seguir ele assume a sua autoridade divina e introduz a correta interpretação da lei com as palavras: “Eu, porém, voz digo…” [ἐγὼ δὲ λέγω ὑμῖν (egô dé lego imin)]. Este, a propósito, é um exemplo bem claro das muitas maneiras que Jesus nos indicou nas Escrituras Sagradas que Ele é de fato Deus. Ou seja, apenas o Criador da terra e dos seres que aqui habitam possui autoridade para retificar a santa lei de Deus: “Eu, porém vos digo…”. Uma outra conhecida situação onde Jesus assumiu claramente a sua identidade divina foi quando perdoou os pecados das pessoas: “Por quê fala assim este homem? Ele blasfema. Quem pode perdoar pecados senão um só, que é Deus?” (Mar 2:7).

“Se o homem considera a lei de Deus apenas como uma série de regulamentos a serem observados com o objetivo de ser aprovado, então ele caiu no mesmo erro dos escribas e fariseus.”

Além do fato de que Jesus, sendo um com o Pai, é o único com autoridade para nos atualizar quanto à maneira como os mandamentos de Deus devem ser obedecidos, devemos também observar outras verdades importantes em relação à lei de Deus. Uma destas verdades é que o fato de Jesus nos corrigir não quer dizer de forma alguma que houve uma mudança de opinião por parte de Deus, pois Deus, sendo onisciente, nunca muda de opinião. A maneira que os antigos ensinavam a guarda dos mandamentos era a maneira que Deus permitiu que fosse até a chegada do Messias, e a razão da permissão nos foi dada pelo próprio Jesus: “Disse-lhes ele: Por causa da dureza de vossos corações…” (Mat 19:8). Ou seja, o Senhor na sua bondade para com a raça humana, tolerou uma obediência superficial da sua lei, pois sabia que enquanto o Espírito Santo não nos fosse enviado na sua totalidade e assim recebêssemos a capacidade de caminhar em santidade, não teríamos como observar a sua lei, a não ser na sua forma mais simples. Esta forma mais simples, é o que chamamos de “a letra da lei” [το γράμμα του νόμου (to gramma tu nomu)], a qual explicaremos em detalhes mais abaixo.

A lei de Deus sempre é transmitida aos seres humanos em um nível proporcional à sua capacidade de obedecê-la. Quanto mais simples e inocentes forem os recipientes, mais simples também são os mandamentos de Deus. Um dos mais claros exemplos deste princípio divino foi com Adão e Eva, os quais devido à sua completa inocência, receberam a forma da lei mais fácil possível: “Ordenou o Senhor Deus ao homem, dizendo: De toda árvore do jardim podes comer livremente; mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dessa não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gen 2:16-17). Mais simples que isso é impossível. Simples em quantidade (apenas um) e simples no conteúdo (não comer de uma determinada fruta). Infelizmente sabemos muito bem que apesar da extrema simplicidade da lei dada aos nossos pais, ainda assim foram desobedientes e optaram por ignorar as palavras do Criador e fazer aquilo que lhes parecia mais interessante.

Depois da queda no Jardim do Éden e da invasão de Satanás e suas hostes no nosso planeta (Jó 1:7), o homem passou a maquinar todos os tipos de afrontas à perfeição do seu Criador, tornando-se necessário a introdução de novos mandamentos. O ser humano, que havia sido formado à imagem de Deus se distancia cada vez mais da perfeição que um dia possuiu. À medida que os anos vão passando e vamos nos distanciando da simplicidade de Adão e Eva, mais o homem elabora novas maneiras de ofender a santidade do seu Criador e manchar a sua imagem. Esta é uma verdade facilmente comprovada ao observarmos as várias formas de pecados sexuais que têm surgido nestes últimos dias, incluindo algo que até algumas décadas atrás ninguém cogitaria ser possível, como o acesso a materiais sexuais altamente explícitos através de um pequeno aparelhinho que todos nós carregamos no bolso: o celular. Esta, a propósito, é uma arma satânica que segue arruinando vidas e afastando milhares de homens, mulheres, idosos e crianças do caminho da salvação. O homem não para de inventar novas maneiras de pecar contra Deus. Definitivamente estamos revivendo os dias de Noé: “Viu o Senhor que era grande a iniquidade do homem na terra, e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era má continuamente” (Gen 6:5). E Jesus nos alertou que este seria um dos sinais de que se aproxima o seu retorno: “Pois como foi nos dias de Noé, assim será também na vinda do Filho do homem” (Mat 24:37).

O homem não é mais inocente em relação ao pecado. Até a morte do Filho de Deus na cruz, os seres humanos ainda podiam argumentar uma certa ignorância quanto ao mundo espiritual. De fato, o próprio Jesus testificou desta verdade ao pedir a Deus que não considerasse as barbáries cometidas contra Ele: “Pai, perdoa-lhes; porque não sabem o que fazem” (Luc 23:34). Até o retorno de Jesus para o seu Pai, a terceira pessoa da Trindade, o Espírito Santo, ainda não atuava na terra com todo o poder que atualmente Ele o faz, sobretudo o poder de convicção do erro (João 16:8). Ou seja, o homem nunca esteve tão a par da sua pecaminosidade como nos dias atuais. Ele pode pecar como nunca antes, mas também nunca se sentiu tão culpado como no presente.

Foi devido à sua própria presença entre nós, e a presença do Santo Espírito que seria enviado assim que retornasse para o Pai (João 14:26), que o Senhor declarou que a partir de então a obediência aos mandamentos de Deus se tornaria mais rigorosa: “Pois eu vos digo que, se a vossa retidão não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus” (Mat 5:20). Colocando em outras palavras, esta exigência de uma retidão superior para sermos salvos ocorreu porque ao aceitar Jesus como o nosso Salvador pessoal somos capacitados pelo Espírito Santo a obedecer toda a lei de Deus em um nível muito mais profundo, que é o espírito da lei. Sem o Espírito do Senhor, teríamos que contar com uma força que não possuímos, devido aos milhares de anos de pecados que carregamos nas nossas costas. Ao entender esta verdade, vemos então que o cumprimento superior da lei de Deus é impossível, mas, ao mesmo tempo, possível. O que determina a possibilidade de obediência é a presença ou não do Espírito de Deus na vida da pessoa: “Vós, porém, não sois controlados pela carne, mas pelo Espírito, se, de fato, o Espírito de Deus habita em vós” (Rom 8:9).

A lei de Deus não é, e nunca foi, baseada em meras obrigações, mas sim no amor. Todos os mandamentos de Deus têm como objetivo o bem das suas criaturas, este é o espírito da lei [το πνεύμα του νόμου (to pneuma tu nomu)]. Se o homem considera a lei de Deus apenas como uma série de regulamentos a serem observados com o objetivo de ser aprovado, então ele caiu no mesmo erro dos escribas e fariseus. Ele está se limitando à letra da lei e não ao seu espírito. A letra da lei é apenas a sua expressão, mas o espírito da lei é a sua essência. Observar apenas a letra levará o homem a todos os tipos de enganos e eventualmente à morte eterna, mas quando ele foca no seu espírito, ele passa a experimentar a vida inerente aos santos desejos de Deus, que são os seus mandamentos. A letra é apenas carne que um dia morre, mas o espírito é vida: “o qual nos habilitou para sermos ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata, mas o espírito vivifica” (2Cor 3:6). “O espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos tenho dito são espírito e são vida” (João 6:63. Ver também: Gal 5:25).

Nesta fase no Sermão da Montanha, Jesus começa então a mostrar os dois aspectos da lei de Deus, o primeiro se limita à letra, ou de que forma ela foi transmitida e observada pelo povo de Deus no passado, até que o seu amado Filho fosse enviado para derramar a sua luz e abrir o entendimento dos escolhidos para o espírito da lei: “Replicou-lhe a mulher: Eu sei que vem o Messias (que se chama o Cristo); quando ele vier há de nos explicar todas as coisas. Disse-lhe Jesus: Eu sou ele, eu que falo contigo” (João 4:25-26; ver também: Luc 4:18; Isa 61:1).

Eu sei que estas expressões: “letra da lei” e “espírito da lei”, pode parecer algo confuso para alguns, mas não precisa ser. Eis um exemplo bem simples da diferença um do outro. Quando o departamento de transporte coloca placas de velocidade máxima nas estradas, digamos 80 Km/h, a letra da lei é que se os motoristas dirigirem acima desta velocidade serão punidos com uma multa. O espírito da lei, no entanto, é que se os motoristas dirigirem abaixo da velocidade indicada, acidentes serão evitados e vidas serão poupadas. Observamos então que enquanto a letra da lei é direcionada mais para a punição que ocorrerá se for ignorada, o seu espírito foca nos benefícios que resultará se for obedecida. O espírito da lei é, portanto, superior à letra da lei.

Outro ponto importante é que quando o espírito da lei é obedecido, a letra da lei deixa de ser necessária. Se todos os motoristas reconhecessem o perigo inerente de um automóvel, deixassem de ser egoístas, e saíssem de casa com o firme propósito de não causar nenhum sofrimento aos outros, certamente que as placas de velocidade máxima se tornariam cada vez mais desnecessárias, pois ao pegar as estradas as pessoas estariam o tempo todo preocupadas, não em chegar aos seus destinos o mais rápido possível, mas sim em dirigir de tal forma a não causar nenhum tipo de sofrimento aos seus irmãos (João 13:34; 1Jo 4:21). Jesus, ao nos ensinar a forma correta de guardar os mandamentos de Deus, tornou a lei, tal qual ela era até então observada, desnecessária ou obsoleta. O apóstolo Paulo explicou esta verdade da seguinte forma: “Com efeito: Não adulterarás; não matarás; não furtarás; não cobiçarás; e se há algum outro mandamento, tudo nesta palavra se resume: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. O amor não faz mal ao próximo. De modo que o amor é a totalidade da lei” (Rom 13:9-10).

Queridos, a ilustração das placas de velocidade acima também se aplica muito bem às palavras de Jesus no Sermão da Montanha quando analisamos a consequência da antiga obediência pela letra e da atual obediência pelo espírito. O resultado final de uma obediência que se apega à letra é que vidas são perdidas. Ou seja, da mesma forma que, apesar das placas de velocidade máxima nós humanos seguimos tendo acidentes fatais nas nossas estradas, assim também, apesar da existência dos mandamentos escritos seguimos tendo pessoas desobedientes que caminham rumo à morte eterna. Obviamente, se não tivéssemos as placas ou os mandamentos, a situação seria pior. Ou seja, se ocorrem mortes não podemos culpar a lei — nem a dos governos e nem a de Deus — mas sim os homens, que mesmo sabendo o que deve ser feito, ainda assim não o faz. Foi isto o que o apóstolo Paulo quis dizer com as palavras: “Sabemos, porém, que a lei é boa, se alguém corretamente a utiliza. Também sabemos que não se cria lei para quem é obediente, mas para transgressores” (1Tim 1:8–9).

Irmãos, o que Jesus nos deu no Sermão da Montanha foi algo que até então ninguém sabia que existia. Cristo nos ensinou uma nova maneira de viver muitas vezes superior àquela que até então as pessoas viviam; um estilo de vida que naturalmente leva o homem a se tornar íntimo com o seu Criador. Uma filosofia de vida que aos poucos transforma simples pecadores em verdadeiros filhos de Deus (João 10:34; Gal 3:26) e que, se seguido, nos restaurará à perfeição que os nossos pais tinham no Éden: “Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste” (Mat 5:48). A pergunta que surge naturalmente então é se algo assim é de fato possível. Sim, amados, é possível. Sem Jesus, não, mas com Jesus, sim. Jesus não só tornou possível uma reconciliação com o Pai através do seu sacrifício expiatório — que é o ato de satisfazer a justiça divina frente ao pecado (1Tess 1:10) — como também tornou possível um viver em completa obediência ao espírito da lei, que é a obediência baseada no amor. Ao nascer, sofrer, morrer, ressuscitar, subir aos céus, e nos enviar o Espírito Santo, Jesus executou com precisão tudo o que era necessário para redimir (tomar de volta para Deus) aqueles que o Pai lhes deu: “Revelei o teu nome aos homens que do mundo me deste. Eram teus, e tu os deste a mim; e obedeceram à tua palavra” (João 17:6-7). O que nos resta fazer então é nos incluir no grupo que pertence a Jesus, através da obediência a tudo aquilo que ouvimos de Deus, Pai e Filho: “Aquele que tem os meus mandamentos e os obedece, esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele” (João 14:21). Espero te ver no céu.

Nesta Série de Estudos Bíblicos:
(Acesse o esboço completo)

(Os estudos sem links ainda estão sendo preparados)

  • Estudo Nº 22 – A Letra da Lei e o Espírito da Lei. (Mateus 5:20-48)
  • Estudo Nº 23 – O Nosso Irmão: Matando com o Coração e a Boca. (Mateus 5:22)
  • Estudo Nº 24 – O Nosso Irmão: Reconciliação. (Mateus 5:23-26)

(Acesse o esboço completo)