🔊 (Parte 3) Série: A Graça, a Obediência e a Salvação: Paulo e a Graça. Os Apóstolos e a Graça [Com Áudio e PDF]

Foto de frente para um bar muito cheio com Estudo Bíblico - A Graça, a Obediência e a Salvação (Parte 3) - Paulo e a Graça. Os apóstolos e a Graça. A salvação é pela graça. Markus DaSilva

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Por Markus DaSilva, Th.D.

Conforme expliquei na semana passada, embora Jesus não tenha usado o termo “graça” como “favor imerecido” quando nos ensinou o caminho da salvação, a realidade é que o evangelho de Cristo é o evangelho da graça, pois a maior demonstração da graça de Deus foi o sacrifício do seu único Filho por todo aquele que Nele crer (João 3:16; Rom 5:8). Graça, como falamos na primeira parte da série, se trata da maravilhosa dádiva da salvação que nos foi concedida simplesmente porque o Pai se agradou de nós, tal qual Jesus nos disse: “Não temas, ó pequeno rebanho, porque a vosso Pai agradou dar-vos o Reino” (Luc 12:32). A salvação pela graça difere em muito da salvação pela lei cerimonial porque enquanto a graça possui como foco o amor e a bondade de Deus (João 3:16), a lei se concentrava na observância dos rituais simbólicos que apontavam para o Messias. Lei esta que se tornou obsoleta (Mat 5:17) com o nascimento, vida e morte de Jesus, o Cristo (Messias) [Gr. Χριστός (Cristós) Trd. Cristo. Orígem: χρίω (crio) Trd. ungir, ungindo].

“Muitos têm crido nestes últimos dias que ser salvo pela graça significa que o que fazemos ou deixamos de fazer é irrelevante para Deus.”

No Velho e no Novo Testamentos, Todas as Almas Que se Salvaram Foi Pela Graça

Por cerca de quatro mil anos, no entanto, Deus honrou todo o adorador sincero que se apoiava na lei para obter a salvação (Luc 1:6; Luc 2:22; Luc 2:39). Lembremos que não apenas a graça, mas também a lei nos foi dada por Deus. De fato, a graça de Deus sempre existiu, nunca houve um período da história humana em que Deus não demonstrou da sua graça para conosco. Se não fosse a graça do Senhor teríamos sido destruídos já há muitos milênios, conforme nos disse o profeta Jeremias: “A bondade do Senhor jamais acaba, as suas misericórdias não têm fim, é a razão de não sermos consumidos; renovam-se a cada manhã. Grande é a sua fidelidade” (Lam 3:22-33).  Nesse sentido, é errado insinuar que a graça da salvação só nos foi oferecida após a chegada do Messias. Seja no período dos patriarcas, dos profetas, dos apóstolos ou dos nossos dias, nunca houve sequer uma alma que foi salva à parte da graça concedida pelo Pai e manifestada na cruz de Jesus (Apo. 13:8; Heb 9:22; João 3:13-14; Num 21:8; Isa 53:5-7).

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A Obsessão de Paulo Pelas Leis Cerimoniais e Tradições dos Anciãos

Mas, falemos de Paulo. Até a sua experiência na estrada para Damasco, o apóstolo Paulo não entendia nada disso. Como o fiel fariseu que era, Saulo (o seu nome em hebraico) cria que a única coisa que Deus estava interessado era na estrita observância das leis cerimoniais, nos rituais do templo, e na eliminação de tudo aquilo que fosse uma ameaça à tradição judaica. Ele era grandemente orgulhoso das obras da carne: “Se algum outro julga poder confiar na carne, ainda mais eu: circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus, …segundo a justiça que há na lei, irrepreensível” (Fil 3:4-6). Somente após ter tido uma visão em que Cristo lhe perguntou o motivo que era perseguido foi que Paulo se tocou quanto às atrocidades que até então cometia contra os seguidores de Jesus achando que estava agradando a Deus: “Saulo porém, assolava a igreja, entrando pelas casas e, arrastando homens e mulheres, os entregava à prisão” (Atos 8:3).

O Autoexílio de Paulo na Arábia

Após ter tido a sua visão, ser perdoado por tudo o que fez, e ter recebido as boas vindas entre os cristãos (Atos 9:17), Paulo passou três anos na região da Arábia e Damasco (Gal 1:17-18). Este provavelmente foi o período que Paulo orou, meditou, pesquisou e desenvolveu toda a teologia que viria a pregar para os gentios, incluindo a doutrina que até então praticamente ninguém pregava e que se tornaria o seu tema central: a salvação obtida pela misericórdia (Tito 3:5) e pela graça de Deus através do sacrifício expiatório de Jesus e não através da observância dos rituais, regulamentos e cerimônias religiosas que os líderes judeus ensinavam nos seus dias, e que ele próprio até alguns anos atrás também cria e ensinava.

O Zelo de Paulo Pelo Farisaísmo

Nenhum outro escritor do Novo Testamento pregou sobre a graça da salvação com a frequência e ardor que Paulo pregou, isso porque nenhum deles teve um passado semelhante ao dele. Pedro, João, Tiago e Judas eram judeus assim como Paulo e também estavam bem a par do sistema religioso farisaico, mas Paulo estava completamente imerso no farisaísmo. Ele foi muito mais além do que o mero conhecimento e partiu para a defesa sem reservas da sua religião ao ponto de estar disposto a causar enorme sofrimento físico e emocional a todos aqueles que questionavam a sua fé.

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Mesmo Após se Tornar um Judeu Messiânico, Paulo se Considerava Fariseu

De fato, devo mencionar aqui que Paulo sempre se considerou um fariseu. É um engano imaginar que após o seu encontro em visão com Jesus ele deixou de se ver como fariseu. Afinal, naqueles dias os cristãos não se viam como uma religião autônoma, mas se consideravam como judeus messiânicos. Ou seja, judeus que viam em Jesus o cumprimento das profecias do Velho Testamento sobre o esperado Messias. Esta verdade sobre o apóstolo pode ser facilmente comprovada no seu discurso frente o sinédrio no ano 57 d.C., pouco tempo antes do seu envio e posterior martírio em Roma: “Varões irmãos, eu sou fariseu, filho de fariseus; é por causa da esperança da ressurreição dos mortos que estou sendo julgado” (Atos 23:6). Notemos o uso do verbo “ser” no presente do indicativo  [εγω φαρισαιος ειμι (ego farisaios imi) Lit. eu um fariseu sou].

A Diferença Entre o Antigo e o Novo Paulo

Para Paulo e demais discípulos de Cristo, pertencer a uma determinada seita dentro do judaísmo seria o equivalente aos cristãos dos nossos dias se identificar com uma específica denominação. Após a sua aceitação de Jesus como o Messias, a missão de Paulo foi utilizar do seu profundo conhecimento do judaísmo (Atos 22:2-3) para combater a todos os ensinos legalísticos que alguns, intencionalmente ou não, queriam introduzir na fé messiânica cristã. Paulo defendia que o que Deus realmente quer dos seus filhos não é a observância de rituais e tradições, mas sim um viver inteiramente voltado para Ele e separado do mundo (Col 3:2-3). Enquanto o antigo Paulo procurava obter o Reino de Deus através do sangue de bois, cordeiros e pombos, o novo Paulo corretamente ensinava que na nova aliança iniciada por Jesus em vez de sacrifícios de animais, devemos ser sacrifícios vivos (Rom 12:1).

O Entendimento Errado da Frase de Paulo em Efésios

A maior surpresa de Paulo foi ver que apesar de ser um perseguidor de Cristo, e quando ainda confiava nas suas obras cerimoniais, Deus se agradou dele, estendeu-lhe a graça, concedeu-lhe o dom da fé, e o chamou para ser o missionário para os gentios. Foi dentro deste contexto, que o nosso irmão Paulo escreveu: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie” (Efe 2:8-9). Ou seja, a salvação é um dom de Deus porque se dependesse tão somente de nós, nos manteríamos para sempre sob o domínio do pecado. Estaríamos vivendo hoje como vivíamos ontem, prisioneiros das trevas, incapazes, e ainda pior, sem sequer ter o desejo de nos aproximarmos de Deus.  Quando Paulo disse que a salvação é dom de Deus  e que não vem de obras, ele de forma alguma quis insinuar que o homem não precisa obedecer a Deus para ser salvo, conforme muitos dizem que foi isto o que ele disse. Paulo neste verso simplesmente reflete na sua própria vida como fariseu e vê que quando vivia sem Jesus, toda a sua devoção à lei era incapaz de salvá-lo. Deus precisou intervir, abrindo os seus olhos, literal (Atos 9:18) e espiritualmente (Atos 26:17-18), para que ele visse a situação em que se encontrava. A graça nos expõe à realidade da nossa condição de prisioneiros e nos oferece a liberdade.

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A Liberdade Rejeitada Pelos Líderes Judeus

Esta foi a graça que Jesus ofereceu e ainda oferece a todos, inclusive aos líderes de Israel nos dias de Paulo, mas eles questionavam a validade da oferta e se diziam pessoas livres: “Somos descendentes de Abraão, e nunca fomos escravos de ninguém; como dizes tu: Sereis livres?” (João 8:33). Assim como a grande maioria dos seres humanos, o antigo Saulo e seus amigos, se consideravam livres quando de fato se encontravam no mais profundo e escuro dos calabouços: o do pecado. A resposta de Jesus foi direto ao ponto: “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (João 8:36). Este “verdadeiramente” de Jesus significa que aquele que é salvo pela graça se encontra não em uma liberdade parcial ou temporária ou com qualquer outro tipo de limitação, mas sim uma liberdade que nos permite ver o mundo como ele é de fato e viver a vida como ela é de fato. A liberdade das garras do pecado que o sistema sacrificial, com os seus símbolos e cerimônias, oferecia era limitada e temporária pois se tratava de sombras (Col 2:17) da verdadeira liberdade que apenas o sangue do Cordeiro de Deus poderia propiciar: “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (João 8:36)

A Diferença Entre a Graça e a Misericórdia

Paulo continuamente se maravilhava com a bondade que Deus estendeu a ele quando ainda estava dentro do legalismo farisaico: “Mas Deus dá prova do seu amor para conosco, em que, quando éramos ainda pecadores, Cristo morreu por nós” (Rom 5:8). Graça é um ato de bondade estendido a alguém. Misericórdia também é um ato de bondade, mas difere da graça na sua motivação. Nas muitas passagens bíblicas já mencionadas na primeira parte desta série, vemos que graça é uma bondade concedida porque o doador agradou por algum motivo da pessoa que precisava do ato de bondade: “Deus livrou-me, porque tinha prazer em mim” (Sal 18:19), como disse o Rei Davi. Já a misericórdia se estende a qualquer um. Um exemplo do que quero explicar seria quando damos uma esmola a uma pedinte no sinal vermelho. Esse seria um ato de misericórdia, e não de graça, já que ajudamos não porque ela nos agradou em algo, mas simplesmente porque tivemos compaixão. Todo o homem, salvo ou não, se beneficia da misericórdia de Deus a cada segundo da sua vida (Lam 3:2); mas poucos são os que lhe agrada e alcançam a sua graça. Vemos isso claramente no dilúvio, com Noé (Gen 6:8); e em Sodoma e Gomorra, com Ló (Gen 19:19).

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Apenas Quem Agrada a Deus se Beneficia da Sua Graça

A graça da salvação é dada àqueles que agradam a Deus por algum motivo. Honestamente, eu não sei que motivos são estes, pois a bíblia não nos diz. Muito pelo contrário, a Palavra repetidamente afirma que na nossa natureza pecaminosa estamos continuamente desagradando a Deus (Jó 25:4; Jer 13:23; Rom 7:19). É possível que a onisciência de Deus tenha alguma coisa a ver com o fato dele se agradar de alguns, mas não de todos (Isa 46:10; Miq 1:2-3), mas a realidade é que aqueles que não agradam a Deus não alcançam a graça da salvação: “Porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos” (Mat 22:14). Ou seja, a graça é apresentada a todos, mas nem todos a recebem: “Mas, a todos quantos o receberam, aos que creem no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus. ….e o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade” (João 1:12,14).

O Ensino Anti-Bíblico de Que Deus Não se Importa Com o Pecado

Irmãos, muitos têm crido nestes últimos dias que ser salvo pela graça significa que o que fazemos ou deixamos de fazer é irrelevante para Deus. Mas se assim o fosse não seríamos exortados à perfeição por Jesus: “Portanto, sede vós perfeitos, como perfeito é vosso Pai que está nos céus” (Mat 5:48); à humildade por Paulo: “Sejam totalmente humildes e mansos, e com paciência, suportem uns aos outros em amor” (Efe 4:2); ou à santificação por Pedro: “Sede vós também santos em todo o vosso procedimento” (1Pe 1:16); ou ao amor por João: “Não amemos de palavra nem de boca, mas em ação e em verdade” (1Jo 3:18); ou às boas obras por Tiago: “Assim também a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma” (Tiago 2:17); ou à evangelização por Judas: “Tenham compaixão daqueles que duvidam; a outros, salvem, arrebatando-os do fogo” (Jud 1:22-23); ou à persistência pelo Espírito: “Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida” (Apo 2:10).

Ninguém se Salvará Amando a Este Mundo

Pelas passagens mencionadas acima, podemos ver que o próprio Senhor e todos os apóstolos, incluindo Paulo, ensinam claramente que graça não é licença para ignorar os mandamentos de Jesus. Já disse e agora repito: ninguém se salvará amando o mundo e as coisas que há no mundo (1Jo 2:15). Ninguém se salvará amando qualquer coisa a mais do que a Cristo. E este amor, não é demonstrado somente de boca, mas sim em atos, no abandono dos prazeres do mundo. Simplesmente dizer que Jesus é nosso Senhor não basta: “E por que me chamam de Senhor, Senhor, e não fazem o que lhes digo?” (Luc 6:46). Finalizo lembrando a vocês que ao crermos em Jesus, temos o Espírito de Cristo habitando no nosso corpo; Espírito esse que não continuará em nós se persistimos em ignorar a sua voz quanto ao morrer para o mundo. Não existe graça para quem se ensurdeceu para o Espírito do Senhor: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito estável. Não me lances fora da tua presença, e não retire de mim o teu santo Espírito. Restitui-me a alegria da tua salvação, e sustém-me com um espírito disposto a obedecer” (Sal 51:10-12). Espero te ver no céu.
 

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