🔊 (Parte 1) Série: A Graça, a Obediência e a Salvação. Estudo Nº 1: Graça: Uma Breve Introdução No Uso Da Palavra [Com Áudio]

Moca olhando da janela de um onibus para a rua com Estudo Bíblico -  Estudo Bíblico - A Graça, a Obediência e a Salvação (Parte 1) - Graça: Uma Breve Introdução No Uso Da Palavra - Markus DaSilva

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Por Markus DaSilva, Th.D.

Já faz um tempo que tenho desejado escrever uma série sobre a graça e creio que este é o momento. A graça tem sido um dos pontos do cristianismo mais usado e abusado nestes últimos dias. Parte desse abuso tem a ver com a falta de conhecimento do povo sobre o assunto (Os 4:6a). Conhecimento este que deveria vir dos púlpitos e das escolas bíblicas, mas que infelizmente não ocorre. A outra parte está ligada à nossa propensão natural de resistir às instruções de Deus quando elas nos apontam para um caminho diferente daquele que queremos seguir. Procurarei nesta série, com a ajuda do Senhor, explicar para o benefício dos nossos leitores, o que a Palavra de Deus realmente nos ensina sobre a graça, e no processo, eliminar sérios equívocos quanto a como a graça se aplica ao nosso viver como um povo separado e destinado ao Reino de Deus: “Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as grandezas daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1Pe 2:9).

“A ideia prevalente nos nossos dias de que seremos salvos sem que façamos nada para receber do Senhor a vida eterna não procede das escrituras, mas sim da imaginação do homem carnal.”

Primeiro, vamos explorar rapidamente a parte etimológica da palavra graça. Esta é uma daquelas palavras com vários usos, mas todos eles relacionados. Tanto no hebraico [Heb. חֵן (ren)] como no grego [Gr. χαρις (ráris)], a ideia que parece dominar é a de uma bondade concedida a um ser quando ele agrada a um outro ser. Tanto agradar a um outro ser humano como agradar a Deus.

Alguns exemplos do uso da palavra graça entre seres humanos

Ester e o Rei Xerxes: “E sucedeu que, vendo o rei à rainha Ester, que estava em pé no pátio, ela alcançou a sua graça [Heb. חֵן‎ (ren) Trd. graça, favor, simpatia, agrado]; e o rei estendeu para Ester o cetro de ouro que tinha na sua mão. Ester, pois, chegou-se e tocou na ponta do cetro” (Est 5:2).

Davi e Jônatas: “Respondeu-lhe Davi, com juramento: Teu pai bem sabe que achei graça [Heb. חֵן (ren)] aos teus olhos” (1Sm 20:3).

Rute e Boaz: “Então ela, inclinando-se e prostrando-se com o rosto em terra, perguntou-lhe: Por que achei eu graça [Heb. חֵן (ren)] aos teus olhos, para que faças caso de mim, sendo eu estrangeira?” (Rt 2:10).

Os primeiros cristãos e o povo: “E, perseverando unânimes todos os dias no templo, e partindo o pão em casa, comiam com alegria e sinceridade de coração, louvando a Deus, e alcançando a simpatia [Gr. χαρις (ráris) Trd. simpatia, aceitação, benefício, liberalidade, agrado, graça, favor] de todo o povo. E cada dia acrescentava-lhes o Senhor os que iam sendo salvos” (Atos 2:46-47).

Rei Félix e os Judeus: “Mas passados dois anos, teve Félix por sucessor a Pórcio Festo; e querendo Félix agradar [Gr. χαρις (ráris)] aos judeus, deixou a Paulo preso” (Atos 24:27).

Rei Festo e os Judeus: “Todavia Festo, querendo agradar [Gr. χαρις (ráris)] aos judeus, respondendo a Paulo, disse: Queres subir a Jerusalém e ali ser julgado perante mim acerca destas coisas?” (Atos 25:9). 

Alguns exemplos de graça entre Deus e os seres humanos e Jesus

Deus e Noé: “E disse o Senhor: Destruirei da face da terra o homem que criei… Noé, porém, achou graça [Heb. חֵן‎ (ren)] aos olhos do Senhor. …Noé era homem justo e perfeito em suas gerações, e andava com Deus” (Gn 6:8-9).

Deus e Ló: “Eis que agora o teu servo tem achado graça [Heb. חֵן‎ (ren)] aos teus olhos, e tens engrandecido a tua misericórdia que a mim me fizeste, salvando-me a vida” (Gn 19:19). “…e se livrou ao justo Ló, atribulado pela vida dissoluta daqueles perversos” (2Pe 2:7).

Deus e Moisés: “Disseste também: Conheço-te por teu nome, e achaste graça [Heb. חֵן‎ (ren)] aos meus olhos” (Ex 33:12-13); “Ora, Moisés era um homem muito humilde, mais do que todos os homens que havia sobre a terra” (Nm 12:3).

Deus e Maria: “Disse-lhe então o anjo: Não temas, Maria; pois achaste graça [Gr. χαρις (ráris)] diante de Deus” (Lc 1:30).

Deus e os salvos: “para mostrar nos séculos vindouros a suprema riqueza da sua graça [Gr. χαρις (ráris)], pela sua bondade para conosco em Cristo Jesus. Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” (Ef 2:7-8).

Deus e Jesus na sua infância: “E o menino ia crescendo e fortalecendo-se, ficando cheio de sabedoria; e a graça [Gr. χαρις (ráris)] de Deus estava sobre ele” (Lc 2:40).

Deus e Jesus em toda a sua vida como homem: “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça [Gr. χαρις (ráris)] e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai” (Jo 1:14).

Como se pode ver nesses poucos exemplos, o uso da palavra graça está muito ligado ao fato de haver algo em quem precisa de um bem que agrada àquele que está em posição de conceder o bem. O receptor é aquele que pode se beneficiar caso a graça seja concedida. O doador da graça concede a graça porque se agrada de alguma coisa presente no receptor.

Da parte do doador da graça, em alguns casos podemos ver também o interesse próprio. No caso de graça entre seres humanos, esta verdade é bem óbvia, como no caso de Boaz que obviamente se interessou romanticamente por Rute. O mesmo com o Rei Xerxes que certamente considerava a sua esposa atrativa e não queria perdê-la. No caso do uso da palavra se referindo ao rei Félix e Festo, é ainda mais óbvio que existia um interesse político.

Quando se trata da graça que vem de Deus, no entanto, esta ideia de interesse perde o seu sentido por completo. Não podemos falar de interesse próprio porque como ser onipotente, Deus não possui nenhuma necessidade para que a possamos preencher. Temos que simplesmente reconhecer a nossa incapacidade de compreender o porquê Deus faz o que faz com os seus escolhidos. Sabemos, porém, que todos os casos em que a graça foi estendida envolveu pessoas que agradaram a Deus de alguma forma. Uma verdade facilmente observável nos casos de Noé, Jó, Moisés… etc.

Quando consideramos o contexto de cada caso, podemos ver também que aqueles que não agradam a Deus não recebem da sua graça. Deus não salvou a nenhum no dilúvio, senão a Noé e família. O mesmo ocorreu em Sodoma e Gomorra. Esta verdade põe abaixo a ideia de que a graça é estendida somente àquele que não a merece, pois, se fosse este o caso todas estas pessoas que a Bíblia menciona ter alcançado a graça de Deus seriam pessoas com um histórico claramente sem merecimento. Noé teria sido igual ou pior que a população da terra e não um “homem justo e perfeito” como a Bíblia menciona. O mesmo podemos dizer de Ló, Moisés, Jó, Maria e demais. Todos eles, segundo a Palavra, possuíam um viver exemplar e este foi o motivo que Deus estendeu-lhes a graça.

Quando Lucas nos diz que Jesus crescia em sabedoria e que a graça de Deus estava sobre ele (Lc 2:40), obviamente, não está dizendo que Deus estava colocando sobre Jesus, favores que o seu Filho não merecia, pois, sabemos que Jesus “não cometeu pecado, nem na sua boca se achou engano” (1Pe 2:22). Jesus certamente mais do que mereceu a graça de Deus. Algo que sabemos, sem sombras de dúvidas, é que em tudo ele “agradou” ao Pai: “E aquele que me enviou está comigo; não me tem deixado só; porque faço sempre o que é do seu agrado” (João 8:29).

Podemos ver assim, que a palavra “agradar” ou “gostar” ou ainda “satisfazer” tem muito mais a ver com graça do que “favor imerecido”. Outro exemplo que se vê claramente que a ideia de favor imerecido não é uma boa definição é quando ambos, Pedro e Tiago, citam o provérbio: “Deus se opõe aos orgulhosos, mas dará graça aos humildes” (1Pe 5:5; Tg 4:6; Prv 3:34). Como pode Deus conceder um “favor imerecido” àquele que já é humilde? Não é exatamente pelo fato dele ter algo que agrada a Deus, neste caso a humildade, que o Senhor está lhe concedendo a graça? (Tg 4:10). Se for para ser imerecido o orgulhoso é que deveria receber da graça de Deus, pois para o orgulhoso seria “mais imerecido” do que para o humilde.

Escrevendo à igreja de Roma, Paulo antecipou que muitos aproveitariam dos seus comentários sobre a graça para o abuso, e que chegariam à conclusão errada que, já que nada temos que fazer para merecer os favores de Deus, seria mais vantajoso desconsiderar as palavras do Senhor e continuar se apegando aos prazeres do mundo, pois, assim o fazendo não haveria nenhum mérito em nós e receberíamos mais da graça de Deus: “Que diremos, então? Permaneceremos no pecado, para que a graça aumente? De modo nenhum! Nós que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele?” (Ro 6:1-2).

Existe outra palavra corretamente usada como um benefício prestado a alguém sem que haja necessariamente nenhum merecimento por parte do recipiente, que é a palavra misericórdia [demonstrar compaixão, ou poupar de um castigo] (Hebraico: חֶמְלַת – hemlá e também: חָמַל – ramal e Grego: ἔλεος – ilíos). Para não tomar muito espaço, aqui estão apenas dois exemplos de uso no hebraico e dois no grego, ambos de Paulo.

Deus e Israel: “Em toda a angústia deles foi ele angustiado, e o anjo da sua presença os salvou; no seu amor, e na sua compaixão [Heb. חֶמְלַת (remlá)] ele os remiu; e os tomou, e os carregou todos os dias da antigüidade” (Is 63:9).

A Filha de faraó e Moisés: “E abrindo-a, viu a criança, e eis que o menino chorava; então ela teve compaixão [Heb. חָמַל (ramal)] dele, e disse: Este é um dos filhos dos hebreus” (Ex 2:6).

Deus e o ser humano: “Pois, assim como vós outrora fostes desobedientes a Deus, mas agora alcançastes misericórdia [Gr. ἔλεος (ilíos)] pela desobediência deles” (Ro 11:30).

Deus e os escolhidos: “não em virtude de obras de justiça que nós houvéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia [Gr. ἔλεος (ilíos)], nos salvou mediante o lavar da regeneração e renovação pelo Espírito Santo” (Tt 3:5).

Queridos, tenho muito o que lhes escrever sobre a graça e o Senhor permitindo assim o farei. Deixe-me concluir esta primeira parte os exortando a se apegarem à Palavra de Deus e não aos ensinos de homens, pois, é confiando em homens que muitos se perderão (Jr 17:5). A ideia prevalente nos nossos dias de que seremos salvos sem que façamos nada para receber do Senhor a vida eterna não procede das escrituras, mas sim da imaginação do homem carnal. Não procede e nem faz o menor sentido, pois, qual seria a lógica de termos em mãos as instruções de Deus (2Tm 3:16) se o Senhor não espera obediência para nos dar a salvação? “Aquele que diz: Eu o conheço, mas não guarda os seus mandamentos é mentiroso, e nele não está a verdade” (1Jo 2:4). Espero te ver no céu.

Antes de terminar, para que não haja nenhum mal-entendido, deixe-me fazer duas perguntas e respondê-las.

Pergunta: Somos salvos pelas nossas boas obras?
Resposta: Não, categoricamente não (Ro 3:23). Somos salvos pelo sangue de Jesus derramado na cruz (Heb 9:22).

Pergunta: Precisamos fazer algo para sermos salvos?
Resposta: Sim, precisamos crer e obedecer. Não existe salvação para quem não crê (João 3:16) e para quem não obedece (Heb 5:9; 1Jo 5:3; João 14:15).

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