🔊 (Parte 16) Serie: O Sermão da Montanha. Estudo Nº 16: Os Mandamentos de Deus: O Cumprimento da Lei [Com Áudio]

Uma foto de montanhas num dia ensolarado. Serie: O Sermão da Montanha. Estudo Nº 16: Os Mandamentos de Deus: O Cumprimento da Lei. Markus DaSilva

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Por Markus DaSilva, Th.D.

Desde bem cedo na história do povo escolhido podemos observar a existência de dois grupos que se opõe a Deus. O primeiro grupo consiste dos nossos inimigos declarados; daqueles que não escondem o seu desinteresse ou o seu desprazer com a nossa existência. Para muitos neste grupo o mundo estaria bem melhor se não existissem Deus, Cristo e os cristãos. Todos nós conhecemos pessoas e até parentes que fazem parte deste grupo e de vez em quando somos vítimas das suas agressões (Mat 10:36). Podemos imaginar que muitos descrentes são neutros em relação a Deus e ao seu povo, e que, muito embora não tenham a intenção de se unirem a nós, eles não se incomodam com a nossa existência. Este conceito de neutralidade pode até parecer verdade no físico, mas, o fato é que no mundo espiritual não existem seres imparciais. Isso foi o que Jesus quis dizer com as palavras: “Quem não é comigo é contra mim; e quem comigo não ajunta, espalha” (Mat 12:30).

“Os cristãos que imaginam que a santa lei de Deus foi abolida são então aqueles que imaginam que já são justos e que nada há do que se arrepender.”

Neste estudo, porém, queremos falar sobre um grupo que tem sido de longe os seres humanos que criam os maiores obstáculos para o término da obra de Deus aqui na terra, que são, nãos os de fora da nossa comunidade, mas sim os de dentro. Durante os dias em que Jesus esteve aqui conosco, as pessoas que mais se opunham ao seu trabalho de evangelização eram aquelas que se posicionavam como defensoras dos interesses de Deus: os fariseus (Mat 9:11), os sacerdotes (Mat 16:21), os saduceus (Mat 22:23), os levitas (Luc 10:32), os escribas (Mat 9:3) e os anciãos (Mat 21:23). Infelizmente, muito embora estes antigos inimigos de Jesus foram extintos com o tempo, a realidade é que os maiores opositores da obra do Senhor neste mundo continuam sendo os de dentro. São os de casa que continuamente se opõem aos ensinos de Jesus, mas, ao mesmo tempo, insistem em dizer que o amam e que estão dando continuidade ao seu trabalho neste mundo. Este detalhe os tornam mil vezes piores do que os fariseus do passado, porque pelo menos os fariseus e seus parceiros não escondiam a sua oposição a Cristo, mas os opositores do presente rejeitam abertamente as palavras de Jesus, enquanto o chamam de Mestre, Senhor e insistem em cobri-lo com beijos: “E por que me chamam de Senhor, Senhor, e não fazem o que lhes digo?” (Luc 6:46).

A partir de agora, no Sermão da Montanha, e até a sua conclusão no capítulo sete de Mateus, Jesus entrará em detalhes quanto a como devemos nos comportar no nosso dia a dia. Jesus é para nós, os seus seguidores, aquilo que Moisés foi para o antigo Israel: o porta-voz de Deus: “Eis que uma nuvem brilhante os cobriu; e dela saiu uma voz que dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me deleito; escutem o que ele diz!” (Mat 17:5. Comparar com Exo 20:19). Ao contrário daquilo que os líderes mundanos ensinam nestes últimos dias, as palavras de Jesus são de fato leis, com as suas devidas consequências caso sejam desobedecidas ou ignoradas, conforme ouvimos da sua própria boca: “Quem me rejeita, e não recebe as minhas palavras, já tem quem o julgue; a palavra que tenho pregado, essa o julgará no último dia. Porque eu não falei por mim mesmo; mas o Pai, que me enviou, esse me deu ordem quanto ao que dizer e como falar” (João 12:48-49). Ou seja, a mensagem comumente pregada de que a obediência não está ligada à salvação, não possui o menor respaldo nas palavras de Jesus: “a palavra que tenho pregado, essa o julgará no último dia”. E se referindo especificamente aos mandamentos do Pai — que na realidade são os mesmos mandamentos do Filho — enquanto orava, Jesus fez uma referência a todos nós que o seguimos: “Revelei o teu nome aos homens que do mundo me deste. Eram teus, e tu os deste a mim; e obedeceram à tua palavra” (João 17:6-7). Observemos que nesta frase Jesus inequivocamente ensina que a prova de que alguém recebeu a revelação do Nome de Deus na sua vida é a obediência: “e obedeceram à tua palavra”.

Para que esse ponto ficasse bem claro, Jesus iniciou esta segunda parte do Sermão da Montanha com o devido esclarecimento: “Não imagineis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim destruir, mas cumprir [Gr. πληρόω (pleru) completar]. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, de modo nenhum passará da lei nem um jota nem um til, até que tudo seja cumprido. Qualquer, pois, que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no reino dos céus. Pois eu vos digo que, se a vossa retidão não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus” (Mat 5:17-20). Obviamente, se Jesus começou alertando os discípulos quanto a um possível engano, é porque este entendimento errado já existia entre eles. É interessante observar que até hoje, apesar da clareza das palavras de Jesus, uma boa parte do cristianismo continua no mesmo erro. Continua imaginando que Jesus aboliu a santa lei de Deus. Este fenômeno confirma aquilo que o próprio Jesus nos disse: “para que vendo, vejam, e não percebam; e ouvindo, ouçam, e não entendam; para que não se convertam e sejam perdoados” (Mar 4:12. Ver também Isa 6:9-10; Deut 29:4; Jer 5:21; Eze 12:2; Rom 11:8).

Este versículo — Mateus 5:17 — contém uma das frases de Jesus mais debatidas na história do cristianismo: “Não imagineis que vim destruir a lei ou os profetas”. Não deveria ser, pois qualquer indivíduo que verdadeiramente ama a Deus e possui como o maior dos seus desejos na vida agradar ao Senhor, entende perfeitamente o que Jesus nos disse com estas palavras. Satanás, no entanto, insere todos os tipos de dúvidas para confundir e direcionar os cristãos em uma direção contrária aos desejos do Pai e assim impedir que encontrem a porta estreita que nos dá acesso ao Reino: “Estreita é a porta, e apertado o caminho que conduz à vida, e poucos são os que a encontram” (Mat 7:14). O inimigo sabe muito bem que qualquer indivíduo que conscientemente ignorar a santa lei de Deus não alcançará a graça da salvação: “E nisto sabemos que o conhecemos; se guardamos os seus mandamentos. Aquele que diz: Eu o conheço, e não guarda os seus mandamentos, é mentiroso, e nele não está a verdade” (1Jo 2:3-4).

O verbo “imaginar” no grego utilizado por Mateus no tempo aoristo [Gr. νομίσητε (nomisēte)] precedido pelo advérbio de negação [Gr. Μὴ (me)], pode ser traduzido de várias formas, como “Não imaginem” ou “Não pensem” ou ainda “Não deduzam”. A versão em inglês “New Living Translation” decidiu traduzir a frase inteira como: “Não interpretem erroneamente a razão da minha vinda”. Todas essas possíveis traduções transmitem bem a ideia de que circulava entre eles o rumor de que uma das missões do Messias era pôr abaixo o conjunto de regulamentos que fazia parte da nação Judaica desde os dias de Moisés, cerca de 1500 anos antes do nascimento de Cristo. A lei e os profetas era um termo comum usado na época se referindo aos cinco livros de Moisés — a Torá — e a os demais livros canônicos do judaísmo, até o profeta Malaquias (o Tanakh).

Nesta frase de Jesus: “Não imagineis que vim destruir”, o verbo traduzido como “destruir” [Gr. καταλῦσαι (katalusai)], também no tempo aoristo, é o mesmo verbo usado pelos inimigos de Jesus quando o acusaram de dizer que destruiria literalmente o templo de Jerusalém e o reconstruiria em três dias: “Nós ouvimos este aí dizer: Eu destruirei [kataluso] este santuário, construído por mãos de homens, e em três dias edificarei outro, não feito por mãos de homens” (Mar 14:58. Ver também Mat 26:61 e João 2:19). Ou seja, esta ideia de que o Messias viria para pôr abaixo, ou destruir, a religião judaica tal qual se encontrava parecia estar na mente das pessoas, sendo que alguns viam isto como algo bom enquanto outros desprezavam a ideia. Os fariseus e seus aliados, que dependiam da religião para viver, certamente se opunham à noção, enquanto o povo comum, cansado do fardo pesado imposto pelos religiosos (Mat 11:28-30; Luc 11:46), gostavam da ideia de um novo sistema legal. Muitos desses, após verem todos os sinais miraculosos de Jesus, e tendo o aceitado como o Messias, provavelmente imaginavam que Cristo veio para lhes dar um novo sistema legal, segundo o que entendiam da profecia de Jeremias: “Eis que os dias vêm, diz o Senhor, em que farei um pacto novo com a casa de Israel e com a casa de Judá” (Jer 31:31).

Jesus então deixou bem claro que a sua missão não era para destruir [kataluso] as Escrituras — os ensinos de Moisés e os profetas — mas sim satisfazer, ou completar a lei que nos foi dada pelo Pai. Na segunda parte da frase de Jesus: “não vim destruir, mas cumprir”. A palavra “cumprir” que é comumente usada nas Bíblias em português, não transmite adequadamente o significado do verbo grego: [Gr. πληρόω (pleru)], e levam muitos à ideia errada de que uma vez que a lei já foi “cumprida” por Jesus, os cristãos não precisam mais obedecer aos mandamento de Deus para serem salvos, algo que obviamente Jesus jamais sequer deu a entender. O verbo [Gr. πληρόω (pleru)], tanto no Novo Testamento, como no grego clássico, transmite a ideia de se obter o volume máximo de um vasilhame, ou algo que deve ser enchido por completo. No inglês, a maioria das Bíblias usam a palavra “fulfill”, o que é bem mais fiel ao grego, já que literalmente quer dizer “encher até ficar cheio”. Uma das melhores traduções que vi, foi a da “God’s Word Translation”, que colocou a frase como: “Nunca pense que eu vim para deixar de lado os Ensinamentos de Moisés ou os Profetas. Eu não vim para deixá-los de lado, mas sim para torná-los uma realidade”.

Na realidade chega a ser ridículo qualquer tentativa dos amantes deste mundo em insinuar que não precisam mais obedecer aos mandamentos de Deus porque Jesus “já cumpriu todos eles”, uma vez que logo a seguir Jesus nos disse quando é que tudo de fato será cumprido: “até que o céu e a terra passem, de modo nenhum passará da lei nem um jota nem um til, até que tudo seja cumprido”. Por acaso o céu e a terra já passaram? Mas tenho que me controlar, pois este é o assunto para o próximo estudo.

Irmãos, se Deus quiser, nos muitos estudos que seguirão nesta longa série sobre o Sermão da Montanha, teremos várias oportunidades para explicar o caráter perfeito e eterno de tudo aquilo que vem de Deus, incluindo, e muito em especial, a imutabilidade da sua santa lei. É algo chocante e muito triste vermos os nossos líderes, aqueles que deveriam direcionar as pessoas à obediência aos mandamentos de Deus, estarem de fato fazendo o oposto e encorajando-os a rejeitarem a sua lei. Ainda mais chocante, é que fazem tudo isso argumentando que estão agradando a Jesus no processo. Como se Jesus não tivesse repetidamente ensinado a completa obediência a tudo aquilo que vem do Pai: “Bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus, e a obedecem” (Luc 11:28).

Amados, a lei de Deus é boa e perfeita em todos os sentidos da palavra. Argumentar que ela foi abolida, ou destruída, ou substituída, ou cancelada, é o mesmo que dizer que existia algo de imperfeito na lei e, por extensão, naquele que nos deu a lei: Deus. Sim, é o mesmo que dizer que é possível vir algo de Deus além de suprema beleza e perfeição: “A lei do Senhor é perfeita, e refrigera a alma; o testemunho do Senhor é fiel, e dá sabedoria aos simples. Os preceitos do Senhor são retos, e alegram o coração; os mandamentos do Senhor são puros, e iluminam os olhos” (Sal 19:7-8). Este é o motivo que Jesus foi bem claro que não veio nem abolir, nem destruir, nem substituir, nem cancelar, mas sim completar, ou dar continuidade à lei de Deus até que o céu e a terra passem.

Queridos, a missão de Jesus de cumprir a lei do seu Pai não implica de forma alguma que os seus seguidores estariam isentos de guardá-la. Mesmo porquê a ideia de isentar os cristãos de obedecer aos mandamentos de Deus implica em que existe algo de ruim nos seus preceitos e que estamos sendo aliviados deste peso. Este é um conceito completamente satânico e obviamente sem o menor respaldo no evangelho de Cristo. O único peso que carregamos neste mundo é o peso da culpabilidade do pecado e é por isso que a mensagem do evangelho sempre começa com a palavra de arrependimento. Para que esta verdade fique bem clara, notemos que mesmo após a crucificação e a ascensão de Jesus, no dia de Pentecoste, quando o Espírito Santo foi derramado e as pessoas perguntavam o que deviam fazer para serem salvas, Pedro e os demais apóstolos originais de Cristo, não ensinaram que deveriam simplesmente aceitar a Jesus e de que não era mais necessário guardar os mandamentos de Deus, como os líderes mundanos ensinam nos nossos dias, mas sim: “Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para remissão de vossos pecados” (Atos 2:37-38). Ou seja, para serem salvos teriam que ser batizados e se arrependerem, mas se arrepender de que? Que outro tipo de arrependimento existe senão o da desobediência aos mandamentos de Deus? Os cristãos que imaginam que os mandamentos de Deus foram abolidos são então aqueles que imaginam que já são justos e que nada há do que se arrepender: “Digo-vos que assim haverá maior alegria no céu por um pecador que se arrepende, do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento” (Luc 15:7). Espero te ver no céu.

Nesta Série de Estudos Bíblicos:
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(Os estudos sem links ainda estão sendo preparados)

  • Estudo Nº 15 – Os Mandamentos de Deus: Jesus o Protetor da Lei do Pai. (Mateus 5:17)
  • Estudo Nº 16 – Os Mandamentos de Deus: O Cumprimento da Lei. (Mateus 5:17)
  • Estudo Nº 17 – Os Mandamentos de Deus: A Duração da Lei. (Mateus 5:18)
  • Estudo Nº 18 – Os Mandamentos de Deus: A Quebra da Lei. (Mateus 5:19a)
  • Estudo Nº 19 – Os Mandamentos de Deus: O Ensino Contra a Lei. (Mateus 5:19b)
  • Estudo Nº 20 – Os Mandamentos de Deus: O Ensino da Lei. (Mateus 5:19c)
  • Estudo Nº 21 – Os Mandamentos de Deus: Os ensinos de Jesus e a Religião de Homem. (Mateus 5:20)

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