🔊 (Parte 41) Série: O Sermão da Montanha. Estudo Nº 41: As Nossas Boas Obras [Com Áudio]

Visão de uma pequena vila de uma montanha. Na imagem o texto: Quando fazemos um show das nossas boas obras para que assim sejamos elogiados pelos homens, estamos desviando a atenção dos nossos irmãos de Deus para nós. Isto é autoidolatria.

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O Sermão da Montanha – As Nossas Boas Obras

Estudo Teológico Nº 41

Por Markus DaSilva, Th.D.

Entramos agora em uma nova seção do Sermão da Montanha que se inicia no capítulo seis do evangelho segundo Mateus. Nos últimos versículos do capítulo cinco, Jesus nos instruiu quanto à maneira correta de tratar os nossos inimigos, mas agora o foco muda para três práticas comuns entre os fiéis seguidores de Cristo: as nossas ofertas, as nossas orações e os nossos jejuns. Mais uma vez o Senhor utiliza dos maus exemplos dos líderes religiosos para nós ensinar como os nossos atos de retidão [δικαιοσυνην υμων (dikaiosunen imon) sua retidão], ou boas obras, como lemos em algumas traduções, devem ser feitas para que sejam aceitas por Deus: “Não queiras fazer as vossas boas obras diante dos homens para serdes vistos por eles; pois dessa forma não recebereis recompensa de vosso Pai, que está nos céus” (Mat 6:1).

“Quando damos as nossas ofertas e fazemos questão que os outros saibam, estamos aumentando o seu valor junto aos homens, mas o diminuindo junto a Deus.”

A Forma de Adoração Exibicionista dos Fariseus

Os fariseus desenvolveram uma religião de ostentação e altamente performática. Tudo aquilo que faziam e ensinavam estava ligado a atos externos e obrigações cerimoniais que segundo eles constituíam o tipo de adoração que Deus esperava dos judeus. Este comportamento, no entanto, não se tratava de algo novo, pois já por muitos séculos Deus, através dos seus profetas, deixava bem claro que procurava, e ainda procura, por aqueles que o adoram em espírito e em verdade (João 4:24; Ose 6:6), e que qualquer demonstração externa dos seus filhos (como cantar, batizar, celebrar a santa ceia ou dar ofertas) deve ser um reflexo daquilo que se passa no coração, e não um ato puramente exibicionista. O conceito farisaico de adoração, todavia, era altamente visual e externo. Um bom exemplo deste estilo de adoração-show, era a lavagem cerimonial das mãos antes das refeições a qual Jesus condenou como não tendo nenhum valor espiritual: “E, chamando a multidão para si, disse-lhes: ouvi, e entendei: não é o que entra pela boca que contamina o homem; mas o que sai da boca, isso é o que o contamina” (Mat 15:10-11).

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A Motivação dos Fariseus Quando Faziam as suas Boas Obras

A primeira instrução que Jesus nos deu foi quanto às nossas ofertas: “Quando, pois, ajudares alguém, não faças tocar trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam a sua recompensa. Mas, quando tu ajudares alguém, não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita; para que a tua ajuda fique em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará” (Mat 6:2-4). Não sabemos a extensão do exibicionismo que ocorria entre os religiosos quando traziam os seus dízimos e ofertas para as sinagogas, mas a julgar pela hipérbole usada por Cristo — anunciar com um toque de trombeta — podemos imaginar que de fato faziam questão que o ato fosse visto por todos. Ou seja, queriam deixar bem claro para a congregação, e muito em especial para a liderança, o quão consagrados eram. A realidade, porém, é que faziam isso para adquirir respeito e privilégios dentro da comunidade: “Todas as suas obras eles fazem a fim de serem vistos pelos homens; pois alargam os seus filactérios, e aumentam as franjas dos seus mantos; gostam do primeiro lugar nos banquetes e das primeiras cadeiras nas sinagogas” (Mat 23:5-6).

O Perigo da Hipocrisia nas Nossas Boas Obras

Notemos que Jesus os chama de hipócritas [υποκριτης (ipocritis)]. “…como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens” (Mat 6:2-3). Este era um termo muito usado na antiga Grécia se referindo a atores de teatros, sendo até possível que Jesus tenha usado de fato a palavra no grego, como um estrangeirismo, e não o equivalente em aramaico. A expressão descreve a pessoa falsa, ou alguém que prega um bom comportamento, mas que ela mesmo não vive (Mat 23:3), assim como aquilo que os atores são em um palco não representa o que de fato são quando estão fora dele. Este termo usado por Jesus neste contexto é importante, pois deixa bem claro que não é a oferta que possui qualquer valor para Deus, mas sim a honestidade da pessoa que deu a oferta. Para nós, que vemos que de fato o irmão deu uma quantia alta para a igreja, não nos parece hipocrisia. Imaginamos que ele apenas seria um hipócrita se prometesse dar, mas não desse. Jesus, no entanto, esclarece que ainda que o indivíduo dê a sua oferta, se houve no seu coração a intenção de se exibir, ele foi um hipócrita, pois enquanto a ideia que ele quis transmitir foi a de que ele ama a Deus, a realidade é que ele ama a si mesmo. Um bom exemplo desse comportamento que Deus abomina ocorreu logo no início da formação da igreja de Cristo, quando o casal Ananias e Safira foram fulminados por agir com hipocrisia perante o Senhor, dizendo que estavam dando todo o valor de um terreno para a igreja, quando de fato deram apenas uma parte: “por que decidiste tramar isso em teu coração? Não mentiste aos homens, mas a Deus” (Atos 5:4).

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Ananias e Safira não Criam nas Palavras de Jesus

É importante observar que o erro do casal Ananias e Safira, propriamente dito, não foi ter feito uma doação inferior à que haviam declarado para a igreja, que mesmo assim deve ter sido uma boa doação. A tentativa de enganar a igreja foi apena um reflexo daquilo que se passava no seu coração. Foi a falta de crer na identidade divina de Jesus que os levaram a mentir para Deus: “Ora, sem fé é impossível agradar a Deus; porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe, e que recompensa aqueles que o buscam” (Heb 11:6). Se os dois crescem que Jesus era de fato o Filho de Deus e se realmente amassem e confiassem em Cristo, saberiam que não estavam fazendo uma oferta aos apóstolos e irmãos da igreja, mas sim ao Senhor, e certamente saberiam que não poderiam maquinar qualquer tipo de engano contra o próprio Criador: “Não mentiste aos homens, mas a Deus” (Atos 5:4). Sem mencionar que, conforme podemos ver na passagem em Hebreus citada acima, aquele que de fato crê sabe que nada daquilo que o homem oferta a Deus fica sem o seu retorno.

O Foco das Nossas Ofertas e os Incentivos de Alguns Líderes

Quando damos as nossas ofertas ou dízimos e fazemos questão que os outros saibam, estamos aumentando o seu valor junto aos homens, mas o diminuindo junto a Deus. Ou seja, estamos esperando obter algum tipo de reconhecimento e recompensa de seres humanos aqui na terra, quando o nosso foco deveria ser o nosso Pai e a recompensa que nos foi prometida quando deixarmos este lugar: “mas ajuntai para vós tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem os consomem, e onde os ladrões não arrombam nem furtam” (Mat 6:20). E em um outro lugar, Jesus foi ainda mais claro quanto àquilo que receberemos pelas nossas boas obras: “Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai. Possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber… etc.” (Mat 25:34-36). Procurar o reconhecimento de homens me faz recordar uma prática comum em algumas igrejas aqui nos EUA de estampar em tijolinhos de calçadas o nome da família dos doadores para certos projetos de construção da igreja. Obviamente, a liderança erroneamente explora a propensão humana de querer reconhecimento para assim incentivar as ofertas: “Cada um contribua segundo propôs no seu coração; não com tristeza, nem por obrigação; porque Deus ama ao que dá com alegria” (2Cor 9:7).

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De Quem Esperamos Receber a Recompensa Pelo Nosso Sacrifício?

Duas vezes no capítulo cinco, e quatro vezes no capítulo seis, Mateus utiliza do adjetivo [μισθος (misthos) recompensa] relacionando as nossas boas obras com aquilo que receberemos em retorno (Mat 5:12; 5:46; 6:1; 6:2; 6:5; 6:16). A chave para entendermos o mandamento de Jesus sobre as nossas boas obras está então nesta pergunta: de quem esperamos receber algo pelo nosso sacrifício? Dos homens ou de Deus? Devo aqui por abaixo o argumento daqueles que se imaginam muito santos e dizem que devemos ajudar sem esperar nada em retorno, nem mesmo de Deus. Obviamente não devemos esperar nenhuma retribuição das pessoas necessitadas que ajudamos, pois se tivessem como nos retribuir não seriam necessitadas, mas do nosso Pai que está no céu somos instruídos a esperar grandes recompensas quando ajudamos aos nossos irmãos. Isto é algo que a Palavra de Deus nos informa repetidamente: “Mas quando deres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os mancos e os cegos; e serás bem-aventurado; porque eles não têm com o que te retribuir; mas retribuído serás na ressurreição dos justos” (Luc 14:13-14). E em outro lugar: “Dai, e ser-vos-á dado e boa medida, compactada, sacudida e transbordante derramará sobre vos” (Luc 6:38). E ainda em outro lugar: “Porque Deus não é injusto, para se esquecer da vossa boa obra, e do amor que para com o seu nome mostrastes, porquanto servistes aos santos, e ainda os servis” (Heb 6:10. Ver também: Prov 19:17; Nee 5:19; Mat 10:42; Mat 25:40).

A Diferença Entre Glorificar e Ser Glorificado

Motivação é o que determina se Deus aceita ou não as nossas boas obras: “…como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens” (Mat 6:2-3). Se recordarmos alguns versículos que abordamos no início deste estudo sobre o Sermão da Montanha, observaremos, no entanto, que Jesus nos orientou a fazer as nossas boas obras para que fossem vistas pelos homens, algo que é o oposto do que nos foi ensinado neste capítulo: “Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras, e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus” (Mat 5:16). A diferença entre uma instrução e a outra está na conjugação do verbo “glorificar” [δοξαζω (doxazo)]. No capítulo cinco, o verbo está na voz ativa, onde Deus é glorificado pelas nossas boas obras [δοξασωσιν (doxasosin)], enquanto no capítulo seis, o verbo está na voz passiva, onde o homem é glorificado pelas suas boas obras [δοξασθωσιν (doxasthosin)]. Podemos ver então que tudo depende do nosso coração. Se quando fazemos um bem público o nosso objetivo for glorificar a Deus, então o nosso ato é aceito pelo Senhor. Se o nosso coração estiver correto, na realidade somos instruídos a fazer pelo menos alguns dos nossos atos em público como um testemunho da nossa fé e demonstração de que não nos envergonhamos do evangelho: “Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte; nem os que acendem uma lamparina a colocam debaixo de um cesto, mas no pedestal, e assim ilumina a todos que estão na casa. Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras, e glorifiquem [δοξασωσιν (doxasosin)] a vosso Pai, que está nos céus” (Mat 5:14-16).

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A Importância de Conhecermos o Nosso Coração nas Boas Obras

Todos nós deveríamos saber o que se passa no nosso coração quando damos as nossas ofertas e devolvemos os nossos dízimos, mas infelizmente este não é o caso.  Muitos cristãos não sabem ao certo se estão contribuindo para a glória de Deus ou para o engrandecimento próprio. É de suma importância que saibamos qual é a nossa verdadeira motivação. Se de fato for para a glória de Deus e se a situação assim o exigir, então podemos fazer os nossos atos de caridade em público, para que sirva como um testemunho da nossa fé e para que sirva como uma luz neste mundo em trevas (Mat 5:16). Se, todavia, existe qualquer dúvida quanto à intenção do coração, devemos então nos guiar por estas outras palavras de Cristo: “Mas, quando tu ajudares alguém, não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita; para que a tua ajuda fique em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará” (Mat 6:2-4). Nesta forma discreta de fazer as nossas boas obras, a pessoa está em território seguro e não corre qualquer risco de pecar, além de ter o benefício de aumentar a sua fé. Das duas maneiras descritas por Cristo, esta deverá ser a preferencial: “e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará”.

A Seriedade e a Tristeza que é Roubar a Glória que Pertence a Deus

Queridos, o pecado de roubar a glória de Deus através das nossas boas obras é um pecado sério e triste. A seriedade está no fato de que tudo aquilo que existe no universo pertence ao Senhor (Sal 89:11), o único Deus trino, que através do seu Filho nos fez, nos salvou e nos abençoou com todas as bênçãos. Quando fazemos um show das nossas boas obras para que assim sejamos elogiados e engrandecidos pelos homens, estamos desviando a atenção dos nossos irmãos de Deus para nós. Este é o pecado da autoidolatria, e o Senhor abomina qualquer tipo de idolatria: “Sabe, porém, isto, que nos últimos dias sobrevirão tempos penosos; pois os homens serão amantes de si mesmos” (2Tim 3:1-2. Ver também: Fil 2:21).

Este pecado também é triste, porque se trata de uma fé má direcionada. Sim, a pessoa que gosta de se exibir com as suas doações de fato tem fé, e às vezes muita fé, pois ninguém está disposto a enfiar a mão no bolso se não tiver fé. A sua boa obra, no entanto, ainda que tenha sido um ato de fé, não possui nenhum valor perante Deus e nenhuma recompensa lhe será dada pelo seu ato, uma vez que ele já recebeu aquilo que procurou: o louvor do homem: “Em verdade vos digo que já receberam a sua recompensa” (Mat 6:2-4). Poucos são aqueles que praticam suas boas obras somente com o objetivo de se auto engrandecer, no entanto. O que normalmente ocorre é a ideia falsa de que ele está recebendo os dois: a honra dos homens e a de Deus. É possível que este foi o caso de Ananias e Safira já mencionado acima: uma fé má direcionada. Espero te ver no Céu.
 
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