🔊 (Parte 42) Série: O Sermão da Montanha. Estudo Nº 42: Como Devemos Orar [Com Áudio e PDF]

Lago refletindo árvores e gramado com uma montanha ao fundo, na imagem o texto: Nossas orações não devem conter sequer uma gota de auto-engrandecimento, se queremos que elas cheguem até o coração de Deus.

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O Sermão da Montanha – Como Devemos Orar

Estudo Teológico Nº 42

Por Markus DaSilva, Th.D.

Neste e no próximo estudo sobre o Sermão da Montanha, abordaremos o preâmbulo da passagem na Bíblia mais conhecida no mundo, que é a oração do Pai Nosso. Antes de ensinar aos seus discípulos (e a todos nós) como devemos orar, Jesus nos alertou contra duas armadilhas que todo o cristão deve se prevenir. A primeira, e que lidaremos neste estudo, é a oração exibicionista que rouba do Senhor a sua glória. Um comportamento oposto ao de João Batista, que exaltou a Cristo e diminuiu a si próprio: “é necessário que ele cresça e que eu diminua” (João 3:30). A segunda armadilha, é o conceito errado de que para se obter uma resposta de Deus a oração precisa conter certas palavras ou precisa ser repetida várias vezes, como uma espécie de mantra. Ambas as armadilhas de Satanás têm como objetivo retirar aquilo que é a mais importante parte na oração: a fé. O cristão que exclui a fé da sua oração, deixa de ser um guerreiro em sua armadura e espada flamejante e passa a ser um menino lutando contra os demônios com um cabo de vassoura: “pois as armas que usamos nesta batalha não são humanas, mas são poderosas em Deus, para demolição de fortalezas” (2Cor 10:4).

“Existe algo misterioso e poderoso quando estamos a sós com o nosso Criador.”

O Perigo de Imitarmos os Maus Exemplos dos Nossos Líderes

Mais uma vez, o Senhor utilizou dos maus exemplos dos religiosos da sua época para nos ensinar de uma forma bem clara que o nosso relacionamento com Deus é algo pessoal e íntimo: “E, quando orardes, não sejais como os hipócritas; pois gostam de orar em pé nas sinagogas, e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam a sua recompensa. Mas tu, quando orares, entra no teu quarto (falaremos sobre esse cômodo mais abaixo) e, fechando a porta, ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará” (Mat 6:5-6). O fato de Jesus ter alertado os seus ouvintes quanto aos costumes dos escribas e fariseus de orar em pé nas sinagogas e de orar nas esquinas demonstra que havia entre os seus discípulos uma tendência de imitar os líderes religiosos, como se tudo aquilo que faziam recebesse a aprovação de Deus. Este é um aviso para que todos nós sejamos cautelosos na nossa avaliação do comportamento daqueles que são nossos superiores na igreja. Muito embora sempre devemos respeitar a autoridade que Deus os deu, não devemos de forma alguma imitar aquilo que fazem se não estiver de acordo com a Palavra (Mat 23:3). No juízo final ninguém poderá argumentar para Deus: “Sou inocente deste pecado porque apenas imitei o comportamento dos meus líderes!”

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O Mandamento de Jesus não se Trata de Postura Física ou Local das Orações

Nos dias de Jesus os líderes das sinagogas tinham por hábito prestar honra a certos membros da congregação os convidando para irem à frente e orar em pé, enquanto a congregação ficava ajoelhada ou prostrada. Desta forma, não apenas a sua voz seria mais facilmente ouvida como também todos poderiam ver quem era a pessoa que orava. O fato de que a pessoa orava em pé, e não de joelho ou prostrada, obviamente não é o que Jesus condena, pois essa era uma posição comum de se orar nas sinagogas e posteriormente nas igrejas. Lembrando que até a reforma protestante no início do século XVI, quando o ponto principal da liturgia passou a ser o sermão ou homilia, as igrejas não possuíam assentos e o público ficava em pé ou de joelho, mas se o local estivesse cheio as pessoas não teriam como se ajoelhar e as orações eram então feitas em pé. O Próprio Jesus fez referência à oração em pé no seu mandamento sobre o perdão: “Quando estiverdes em pé orando, perdoai, se tendes alguma coisa contra alguém, para que também vosso Pai que está no céu, vos perdoe as vossas ofensas” (Mar 11:25). [και οταν στηκετε προσευχομενοι (ke otan stekete prosiromenoi) Lit. E quando vocês ficarem em pé orando]. E pelo fato de Jesus ter mencionado que os fariseus faziam as suas orações nas sinagogas e esquinas, não devemos entender com isto que Jesus está nos dizendo que as nossas orações só podem ser feitas em alguns lugares específicos, pois a Bíblia relata Jesus e seus discípulos pregando e orando em vários locais diferentes. O ponto do mandamento não é a posição do corpo ou o local onde as orações são feitas, mas sim a motivação de quem está orando.

A Motivação dos Escribas e Fariseus nas suas Orações

Mais uma vez, assim como Ele o fez alguns versículos antes quando nos alertou sobre como devemos fazer as nossas boas obras, Jesus aqui neste estudo nos instrui sobre qual deve ser o verdadeiro motivo das nossas orações. Os fariseus e escribas eram condenados por Cristo porque possuíam a motivação errada: “pois gostam de orar em pé nas sinagogas, e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam a sua recompensa” (Mat 6:5). O verbo no grego [φαίνω (faíno)] traduzido no português e em várias outras línguas como: “para serem vistos”, poderia ter sido melhor traduzido como: “para se destacarem” ou ainda melhor: “para brilharem”, pois esse foi o significado mais provável das palavras de Cristo.

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Uma Melhor Tradução do Verbo no Grego

Este detalhe da tradução acima pode a princípio soar como algo simples, mas quando vemos que este mesmo verbo é usado repetidamente se referindo ao Messias, podemos ver que Jesus estava nos alertando quanto a algo bem mais sério do que simplesmente querer ser visto orando. A implicação é a de que a intenção real, ainda que inconsciente, dos fariseus era roubar a glória que pertence somente a Deus: “Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens; a luz brilha [φαινει (fainei)] nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela” (João 1:4-5. Ver também João 5:35; Apo 1:16). Um outro uso comum deste verbo é se referindo à luz que os fiéis seguidores de Jesus devem brilhar neste mundo em trevas: “para que vos torneis irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus imaculados no meio de uma geração corrupta e perversa, entre a qual brilhais [φαίνεσθε (fainesthe)] como lâmpadas no mundo” (Fil 2:15). Em ambos usos do verbo, podemos ver que o alerta de Cristo é bem mais sério do que muitos pensam e ensinam. A oração aceita por Deus deve deixar bem claro a nossa posição de seres carentes da sua misericórdia. Nossas orações não devem conter sequer uma gota de auto-engrandecimento, se queremos que elas cheguem até o coração de Deus: “Mas o publicano, estando em pé de longe, nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: ó Deus, tem misericórdia de mim, um pecador!” (Luc 18:13).

Uma Forma Segura de Fazermos as Nossas Orações

Jesus, então ensina uma forma de orar que nós, os seus seguidores, podemos usar sem que corramos o risco de cair no erro da auto-exaltação e assim tentar roubar a glória que pertence somente a Deus: “Mas tu, quando orares, entra no teu quarto e, fechando a porta, ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará” (Mat 6:6). A palavra traduzida como quarto [ταμειον (tamion)] neste verso na realidade significa “despensa” ou “armazém”. Na época de Jesus, a maioria das casas possuía um pequeno aposento reservado para guardar alimentos, secos ou conservados no sal, para o uso da família. Normalmente era pequeno, sem janela e o único cômodo interno com uma fechadura, ou tramela: “Considerai os corvos, que não semeiam nem ceifam; não têm despensa [ταμειον (tamion)] nem celeiro; contudo, Deus os alimenta” (Luc 12:24. Ver também Mat 24:26). Esta “despensa” era o local que o Senhor nos diz que devemos nos retirar, fechar a porta e orar.

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O Nosso Momento de Intimidade com Deus

O mandamento de Jesus de que quando orarmos devemos nos trancar em um cômodo de despensa é bem gráfico e claro quanto ao seu significado: a oração é acima de tudo um momento íntimo entre a criatura e o seu Criador. É neste local isolado de tudo e de todos que o homem carente se vê fase a fase com o único ser no universo que pode satisfazer as suas mais profundas necessidades. É neste local separado que ele, sem se preocupar com os olhares condenadores das pessoas, pode derramar a sua alma e implorar pela misericórdia, pelo perdão e pela restauração do seu relacionamento com o Pai: “Esconde o teu rosto dos meus pecados, e apaga todas as minhas iniquidades. Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito firme. Não me lances fora da tua presença, e não retire de mim o teu Santo Espírito; me devolva a alegria da tua salvação, e sustém-me com um espírito obediente” (Sal 51:9-12).

O Elemento Sobrenatural nas Nossas Orações Pessoais

Queridos, existe algo especial, sobrenatural, nos minutos ou horas que passamos em diálogo com o nosso Pai. Infelizmente, a grande maioria dos cristãos não utiliza dessa arma contra o pecado e as forças do mal com a frequência e duração que deveria usar, e como consequência muitos dos nossos irmãos estão imersos em todos os tipos de ofensas e passando por todos os tipos de sofrimentos desnecessariamente. Existe algo misterioso e poderoso quando estamos a sós com o nosso Criador. Podemos confirmar isto até mesmo na forma que o evangelista Mateus descreveu o secretismo que ocorre quando nos fechamos em um local para a oração: “ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará” (Mat 6:6). Notemos o uso em dobro do adjetivo “secreto”. O segundo uso do termo se trata do emprego normal da palavra: “e teu Pai, que vê em secreto” [πατηρ σου ο βλεπων εν τω κρυπτω (pater su o vlepon en to kripto) Lit. Pai teu que vendo em secreto]. Esta é a mesma construção gramatical no grego usada no versículo quatro, quando Jesus nos alerta em relação às nossas ofertas, já explicada no estudo anterior. Ou seja, o nosso Pai, Deus, é um ser espiritual (João 4:24) e não podemos vê-lo, ou mesmo identificar a sua presença em nenhum lugar, mas, sendo Ele onipresente sabemos que não existe um local onde Ele não se encontra, e portanto é certo que mesmo no mais isolado e privativo dos locais Ele vê e ouve as nossas orações: “Tu me cercaste em volta, e puseste sobre mim a tua mão. Tal conhecimento é maravilhoso demais para mim; elevado é, não o posso atingir. Para onde me irei do teu Espírito, ou para onde fugirei da tua presença?” (Sal 139:5-7).

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A Misteriosa Frase de Mateus

Acima falamos do segundo uso do adjetivo “secreto”, mas o primeiro uso do adjetivo no versículo seis é um uso misterioso e além da possibilidade de um completo entendimento pelo ser humano: “teu Pai que [está] no secreto”, [πατρι σου τω εν τω κρυπτω (patri su to en to kripto)]. Este versículo em Mateus é a única passagem na Bíblia que lemos esta construção gramatical. Estudiosos debatem por séculos o que Mateus quis dizer com essa frase sem chegarem a um acordo. Lembrando que a frase original não possui o verbo “estar”, ou qualquer outro verbo, e então se lê: “Pai teu no secreto”. As publicadoras de Bíblia então optaram por adicionar o verbo “estar” ou o verbo “ver” para dar um sentido na frase, mesmo sem saber o que o autor queria de fato expressar. Considerando o contexto das palavras de Jesus, o que entendo ser o significado da frase de Mateus é que os eventos que ocorrem durante as orações dos seus filhos fiéis não foram revelados e não podem ser compreendidos por nenhum ser criado, seja ele físico ou espiritual, mas apenas pela Trindade. O secretismo da oração também tem a ver com o mistério da fé. Quando o filho obediente de Deus começa a dialogar com o seu Pai totalmente pela fé — pois ele está se dirigindo a um ser invisível e inaudível — confiando que Ele está ouvindo cada palavra que é dita e disposto a atender aos seus pedidos, então eventos além do entendimento de homens, de anjos ou de demônios, começam a se desdobrar de tal forma que o desejo de um simples mortal se une aos desejos do Criador onipotente, e de fato aquilo que é pedido ocorre, de acordo com as palavras do profeta: “E acontecerá que, antes de clamarem eles, eu responderei; e estando eles ainda falando, eu os ouvirei” (Isa 65:24) e como também nos disse o apóstolo João: “e qualquer coisa que lhe pedirmos, dele a receberemos, porque guardamos os seus mandamentos, e fazemos o que lhe é agradável” (1Jo 3:22). E também o próprio Senhor: “Por isso vos digo que tudo o que pedirdes em oração, crede que o recebereis, e tê-lo-eis” (Mar 11:24).

O Mistério do Agir de Deus

Quando consideramos tudo isto, vemos então que o “Pai no secreto” de Mateus, não se refere à presença invisível de Deus, mas sim à sua forma de atuar em resposta às nossas orações, que é incompreensível para qualquer ser criado. A maneira que Deus cumpre os seus propósitos, a série de eventos que Ele faz ocorrer para atingir os seus objetivos, a sua escolha de instrumentos físicos e espirituais, é uma maneira “no secreto”, conforme o próprio Senhor disse a Jó quando este questionou a sua forma de agir: “Quem é este que obscurece o meu conselho com palavras sem conhecimento?” (Jó 38:2). Ao qual Jó, sabiamente respondeu: “Bem sei eu que tudo podes, e que nenhum dos teus propósitos pode ser impedido. …por isso falei do que não entendia; coisas que para mim eram maravilhosas demais, e que eu não conhecia” (Jó 42:2-3). E também conforme José respondeu a seus irmãos no Egito, quando eles temiam que agora que o seu pai Jacó morreu, José iria se vingar do que fizeram contra ele anos atrás: “Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; Deus, porém, intentou o bem, para fazer o que se vê neste dia, isto é, conservar muita gente com vida” (Gen 50:20). Espero te ver no céu.
 
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