🔊 Série: O Sermão da Montanha: Estudo Nº 66: Discernimento Espiritual: Pérolas aos Porcos [Com Áudio e PDF]

Estrada passando sobre um campo verde com montanhas ao fundo

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O Sermão da Montanha – Pérolas aos Porcos

Mateus 7:6 Estudo Teológico Nº 66

Por Markus DaSilva, Th.D.

Duas acusações contra Jesus que ninguém jamais poderá fazer é que ele era politicamente correto ou que tinha medo de alguém. Dando continuidade aos ensinos de Jesus no Sermão da Montanha, lidaremos com uma passagem difícil de explicar, sobretudo no mundo atual onde cada vez mais a sociedade vive aterrorizada com a possibilidade de que alguém a qualquer momento e por qualquer motivo diga que se sentiu ofendido por alguma coisa que tenha visto, ouvido ou lido. Vivemos em dias tão estranhos que muitos de fato creem ser possível haver uma genuína liberdade de expressão sem que ninguém se ofenda com aquilo que se expressa. A realidade é que a verdade sempre ofende quem prefere o engano e a luz sempre ofende quem prefere as trevas: “Porque todo aquele que faz o mal odeia a luz, e não vem para a luz, para que as suas obras não sejam reprovadas. Mas quem pratica a verdade vem para a luz, a fim de que seja manifesto que as suas obras são feitas em Deus” (João 3:20-21).

Neste estudo, a audiência continua sendo os discípulos de Jesus e o tema continua sendo a maneira que eles, como filhos de Deus (Mat 5:9), devem se relacionar com o seu próximo. Não temos dúvidas que devemos pregar o evangelho de Cristo a todas as nações, tribos, povos e línguas (Apo 7:9), esta, afinal, é a grande comissão que nos foi confiada pelo próprio Senhor antes de retornar ao Pai (Mat 28:16-20), mas aqui o nosso Mestre nos apresenta uma exceção quanto a quem devemos pregar a mensagem de salvação: “Não deis aos cães o que é santo, nem lanceis aos porcos as vossas pérolas, para não acontecer que as pisem e, voltando-se, vos ataquem” (Mat 7:6).

“Temos a missão de sermos evangelhos vivos para toda a alma que cruzar o nosso caminho, independentemente da condição espiritual em que se encontre.”

A Franqueza de Jesus

Quando lemos os quatro evangelhos podemos observar que tudo o que era necessário falar Jesus falava; toda a verdade que era necessária ser dita para libertar as pessoas das ilusões desta vida passageira, eram ditas por aquele que era, e continua sendo, a verdade em si (João 14:6). Os religiosos da época não sabiam o que fazer com o destemor que Cristo demonstrava quando os censurava: “Serpentes, raça de víboras! Como escapareis da condenação do inferno?” (Mat 23:33). Enquanto toda a população temia a consequência de  fazer ou falar qualquer coisa que pudesse ofender os líderes dos judeus (João 9:22), Jesus estava somente interessado em desfazer os séculos de ensinos errados que transformara a mensagem de paz e esperança entregue aos patriarcas e aos profetas do passado em um sistema religioso repletos de regulamentos de criação humana e hipocrisia: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem bonitos, mas por dentro estão cheios de ossos e de toda imundícia” (Mat 23:27).

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As Palavras de Jesus Vinham Diretamente de Deus

Esta franqueza que Jesus demonstrava, no entanto, não se limitava aos líderes religiosos, mas sim a qualquer ser humano que precisava ouvir as palavras do seu Pai. Devemos sempre ter em mente que as palavras de Jesus não refletiam apenas a sua opinião pessoal, e muito menos refletiam a opinião popular ou valores culturais do primeiro século, mas refletiam tão somente os desejos do Pai. A realidade é que nada saia dos lábios de Cristo além daquilo que Deus, o criador do universo ordenasse [Gr. εντολή (endolí)] que ele falasse. Esta verdade é algo que o próprio Jesus fez questão de enfatizar: “Porque eu não falei [Gr. λαλέω (laléo) v. falar, conversar, declarar] por mim mesmo; mas o Pai [Gr. πατήρ (patír) s.m. Pai], que me enviou [Gr. πέμπω (pémpo) v. enviar, despachar], esse me deu ordem [Gr. εντολή (endolí) s.f. ordem, comando, regra, mandamento] quanto ao que dizer e como falar. E sei que a sua ordem [endoli] é vida eterna [Gr. ζωήν αιώνιον (zoin eônion) s.f. vida; adj. eterna]. Aquilo, pois, que eu falo, falo-o exatamente como o Pai me disse [Gr. είπον (ipon) v. falar, dizer, ordenar]” (João 12:48-50).

Jesus Via o Homem Como Ele é de Fato

Se por acaso algo que Jesus disse nos parece indelicado a razão não é que Jesus era uma pessoa rude, mas sim porque ele tinha uma visão real de tudo aquilo que ocorre com a raça humana. As palavras de Jesus, por mais que doam, consistem tão somente daquilo que o homem precisa ouvir para o seu próprio bem, presente e eterno. Enquanto a nossa visão uns dos outros se limita àquilo que podemos processar com os sentidos humanos, que são fáceis de serem enganados e extremamente volúveis, Jesus, sendo um com o Pai, via o que de fato se passa no nosso íntimo, sendo assim impossível que alguém pudesse enganá-lo com palavras ou aparências: “porque o Senhor não vê como vê o homem, pois o homem olha para o que está diante dos olhos, porém o Senhor olha para o coração” (1Sam 16:7). No caso dos escribas e fariseus, por exemplo, ao observarem as suas imponentes vestimentas, seus rituais exibicionistas e seus ensinos rigorosos e autoritários, a população se sentia certa de que de fato eram homens santos e fiéis representantes de Deus aqui na terra. Jesus, porém, via muito além de encenações, roupas e palavras, e entendia ser a sua obrigação desmascarar os falsos líderes: “Todas as suas obras eles fazem a fim de serem vistos pelos homens” (Mat 23:5).

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Lidando Com Cães e Porcos, Duas Opções de Tradução

Agora que sabemos o motivo que Jesus frequentemente utilizava de termos fortes nas suas mensagens, podemos fazer uma análise mais realista das suas palavras no Sermão do Monte, começando com uma tradução mais literal da passagem que é o foco deste estudo: “Não deem aquilo que é santo [Gr. άγιος (aiiós) santo, consagrado, puro, perfeito, reto] aos cães [Gr. κύων (kion) s.m. cão, cachorro], nem joguem as suas pérolas [Gr. μαργαρίτης (margarítis) s.m. pérolas] diante dos porcos [Gr. χοίρος (rríros) s.m. porco], para não acontecer que as pisoteiem [Gr. καταπατέω (katatatéo) v. pisotear, fig. desprezar] com as patas e, voltando-se, lhe derrubem violentamente [Gr. ρήγνυμι (rígnimi) v. rasgar, lançar ao chão, dilacerar, convulsionar]” (Mat 7:6). A maioria das traduções da Bíblia, especialmente as mais antigas, preferiram considerar os dois animais e as duas reações em forma de conjunto, sem diferenciar santo de pérolas e cachorros de porcos, como se ambos os animais se irritem e nos ataquem porque lhe demos algo que não querem (ARA, ARC, TAR, TB2010, CSB, NET, NIV, DRB, KJV, ESV, NLT, RVA, NVIesp, NTV, LBLA, RVA2015), mas o simples fato de Jesus fazer questão de mencionar dois animais e duas reações distintas já sugere que apesar de haver uma óbvia relação entre um par e o outro, também existem diferenças, caso contrário, Jesus poderia ter dito algo como: “não deem as coisas santas aos cães e porcos, porque pisarão nelas e lhes atacarão”. O mais correto é separar os dois pares em uma estrutura quiástica, algo como: “Não deem aos cães aquilo que é santo, pois se voltarão e atacarão a vocês e não joguem suas pérolas aos porcos, pois eles as pisotearão”. Entre as versões que concordam com este significado do original grego temos as NVI, NVT, NAA, NTLH e GNT.

Quem São os Cães e Quem São os Porcos Neste Mandamento de Jesus

Não é possível ninguém dizer com total segurança quem são as pessoas que Jesus se referiu como cães, ou cachorros e quem são aqueles que ele identificou como porcos. Neste mesmo livro de Mateus, Jesus se referiu à mulher grega, de origem siro-fenícia, como cadela: “Respondeu-lhes Jesus: Deixa que primeiro se fartem os filhos; porque não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos [Gr. κυνάριον (kinárion) s.n. cachorrinho]” (Mar 7:27), o que poderia insinuar que os cães são os gentios, mas este entendimento foge completamente da mensagem geral das Escrituras de que o Messias veio para salvar a todo aquele que nele crer, e não somente aos judeus: “Eu o Senhor te chamei em retidão; tomei-te pela mão, e te guardei; e te dei por pacto ao povo, e para luz dos gentios; para abrir os olhos dos cegos, para tirar da prisão os presos, e do cárcere os que jazem em trevas” (Isa 42:6-7. Ver também: Isa 49:6; Mat 13:38; Mar 16:15; João 3:16).

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Quanto aos porcos, embora a palavra traduzida como porco [Gr. χοίρος (rríros) s.m. porco] ocorre 14 vezes nos evangelhos sinópticos (Mateus, Marcos e Lucas), todas elas se referem ao animal em si e apenas nesta passagem do Sermão da Montanha ela é usada como uma analogia, ou uma ilustração, fazendo referência a um grupo de pessoas. O que todos nós sabemos muito bem é que de todos os animais considerados imundos ou impuros segundo o judaísmo, o porco (Lev 11:7) veio a se tornar o seu grande símbolo. Não foi coincidência que na parábola do filho pródigo, por exemplo, a gota d’água para fazer o filho reconhecer o seu grande erro em ter deixado a casa do seu pai foi cuidar de porcos e nem lhe ser permitido comer aquilo que os porcos comiam (Luc 15:16-17). Nem foi coincidência que ao curar um homem possesso na região dos gentios gerasenos, a legião de demônios que Jesus expulsou pediu para entrar em uma manada de porcos (Luc 8:32).

Uma Possível Explicação de Quem São os Cães e os Porcos

Se entendemos que a expressão: “aquilo que é santo” se refere às verdades das Escrituras (2Tim 3:16, Rom 7:12) e muito em especial aos mandamentos do Senhor (Sal 19:7; Mat 5:18); e se entendemos que “as suas pérolas” se refere ao conhecimento espiritual que nos é revelado pelo Espírito Santo (João 14:26) e muito em especial às revelações sobre o Reino dos Céus (Mat 13:45-46), então poderemos a partir daí ter uma boa ideia sobre a identidade das pessoas que tratam com pouco caso quando lhes falamos sobre os Reino dos Céus (os porcos) e das pessoas que se irritam profundamente quando nos ouvem exaltando as santas Escrituras e a santa lei de Deus (os cães).

Os Porcos Espirituais do Dia a Dia: Um Testemunho

Se aplicamos este aviso de Jesus às pessoas que ouvem as verdades de Deus e simplesmente a ignoram, da mesma forma que os porcos ignoram se lançarmos no meio do chiqueiro um monte de pérolas, então sabemos que este é um número altíssimo de seres humanos. O porco típico é um animal que vive para comer e engordar. Quando ainda era criança no interior de Minas Gerais, no Brasil, me recordo que um menino passava na nossa casa toda a semana recolhendo algo que chamavam de “lavagem”. A minha mãe e outras donas de casa, colocavam o resto de comida em uma grande lata de tinta ou de óleo e entregava para este rapazinho que a esvaziava em um barril sob um carrinho de mão e levava para o chiqueiro. Toda a operação de transferência criava um ar fétido e nauseante que sinto até hoje ao descrever o evento. Na época da matança dos porcos, mesmo para quem morava vários blocos distantes, podia-se ouvir os horríveis gritos dos pobres animais sendo esfaqueados. No dia seguinte, os donos passavam lá em cada e nos dava um pedaço de pernil ou de chouriço como agradecimento pela reciclagem.

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O descrente típico é um ser que vive para os prazeres deste mundo. Se pudesse, passaria o dia todo se alimentando e se sujando com a lavagem que este mundo oferece com prontidão e alegria aos seus usuários. Jesus então nos alerta que muitos destes mundanos se encontram tão imersos na sua busca contínua por prazeres que falar com eles sobre as verdades do Reino dos Céus é pura perda de tempo. O evangelho para eles, é algo irritante, chato e tem como único objetivo tomar o seu tempo; tempo esse que imaginam seria muito mais proveitoso se estivessem de frente para uma tela curtindo o seriado favorito, ou um filme, ou o noticiário, ou o campeonato. Recentemente publicamos um estudo em uma das redes sociais e várias pessoas reclamaram que era longo demais. Devo mencionar que os nossos estudos variam entre 20 a 30 minutos de leitura ou de áudio, ou seja, bem menos da metade da duração dos filmes ou dos eventos esportivos que assistem com prazer e que até gostariam que fossem mais longos. Para muitos destes seres humanos, o evangelho é de fato algo a ser pisoteado.

Os Cães Espirituais do Dia a Dia: Um Testemunho

Os cães espirituais são semelhantes aos porcos no seu apego aos prazeres do mundo, mas com o agravante de serem mais agressivos com aqueles que ousam trazer-lhes a mensagem da salvação. Nos anos 80, por várias vezes fui distribuir literatura cristã nas ruas de Manhattan, na cidade de Nova York. Uma noite, me recordo, entreguei uma revista evangelística a dois jovens judeus ortodoxos que saiam de um pequeno shopping no extremo sul do bairro, conhecido como Downtown ou Lower Manhattan. Os jovens aceitaram e seguiram andando, mas passado alguns minutos um deles, nitidamente embriagado, retornou e se voltou contra mim com tamanha agressividade que se o seu colega não o segurasse eu certamente teria sido fisicamente agredido. Isto foi exatamente o que Jesus nos alertou: “…para não acontecer que as pisem e, voltando-se, vos ataquem violentamente” (Mat 7:6).

Nem Todos os Mundanos São Porcos e Cães

Queridos, obviamente o alerta de Jesus não se aplica a todos os amantes deste mundo, pois se fosse este o caso todo nós seríamos porcos e cães e teríamos rejeitado o evangelho de Jesus quando nos foi apresentado, já que todos nós no passado também amávamos mais a este mundo do que a Cristo. Embora o número daqueles que escolhem o caminho apertado e a porta estreita é de fato pequeno, conforme Jesus nos alertou (Mat 7:13-14), ainda assim este pequeno rebanho (Luc 12:32) teve que ouvir o evangelho de alguém (Rom 10:14-15).

O Dom do Discernimento

O que Jesus nos ensina com estas fortes palavras é que devemos exercitar o discernimento espiritual quando levamos a mensagem de salvação a um mundo em trevas (João 12:46). Devemos procurar saber quando um terreno está fértil e quando está impróprio para o plantio (Mat 13:4-8). Nem todos estão prontos para ouvir e digerir o evangelho da salvação a qualquer momento que lhes é entregue (Mat 24:45). Muitas almas que hoje rejeitam a mensagem, poderão aceitá-la amanhã, e para essas devemos estar atentos e assumir uma posição mais passiva, agindo com amor e paciência, pregando a Palavra mais com o nosso viver santo do que com a nossa boca. Da mesma forma, também não podemos ser ingênuos ao ponto de imaginar que Deus espera que levemos à salvação todos os perdidos que nos rodeiam, custe o que custar. Infelizmente a dura realidade é que a maior parte da população morrerá nos seus pecados, mesmo conhecendo o caminho da salvação: “…porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos [Gr. πολύς (polís) adv. e adj. muito, numeroso, grande] são os que entram por ela” (Mat 7:13). Temos somente a missão de sermos evangelhos vivos para toda a alma que cruzar o nosso caminho, independentemente da condição espiritual em que se encontre. Temos que cumprir a nossa parte que é representar fielmente o nosso Mestre aqui na terra (1Jo 2:6), incluindo no nosso falar, no nosso comportamento, naquilo que participamos e naquilo que permitimos entrar na nossa mente. Acreditem, as pessoas estão observando (Tito 2:7-8), a maneira que vivemos é a maneira que imaginam terão que viver, se aceitarem a Jesus como o seu Salvador. Seríssima responsabilidade, mas se cumprirmos bem a nossa missão no final seremos considerados servos bons e fiéis, dignos de herdarmos o Reino (Mat 25:21). Espero te ver no céu.
 

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