🔊 (Parte 3) Série: O Mundo Está Passando. Estudo Nº 3: Deus e o Tempo [Com Áudio]

(Parte 3) Série: O Mundo Está Passando. Estudo Nº 3: Deus e o Tempo por Markus DaSilva

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Por Markus DaSilva, Th.D.

Uma das dúvidas mais comuns entre os cristãos é quanto aos planos de Deus para a nossa vida. A razão da dúvida é óbvia. Se tão somente a pessoa que teme a Deus soubesse de antemão todo o bem que Deus antecipou para ela no decorrer da sua vida, então ela evitaria uma série de más decisões cujas consequências, em muitos casos, são devastadoras: “Faze-me saber o caminho que devo seguir, porque a ti elevo a minha alma” (Sl 143:8). Esta não é por acaso uma dúvida sensata? Sim, querer saber os planos de Deus para a nossa própria vida é algo sensato, e a resposta está ligada ao tempo. Mais especificamente à relação entre o futuro e o presente do cristão. Ou seja, hoje, no presente, o cristão gostaria de ter uma ideia quanto àquilo que Deus planejou para ele nos anos que ainda lhe restam nesta vida. Este estudo e o próximo lidam com este tópico. Adianto, porém, que o “tempo” não é um tema fácil de lidar. Este é um assunto que filósofos e teólogos no decorrer da história humana procuraram e ainda procuram entender. Mas aquilo que é complicado para o homem, é simples para Deus e com a Sua ajuda entenderemos pelo menos o necessário para que saibamos como transformar o nosso presente incerto no maravilhoso futuro que o Senhor planejou para aqueles o amam: “Pois eu bem sei os planos que estou projetando para vós, diz o Senhor; planos de paz, e não de mal, para vos dar um futuro e uma esperança” (Jr 29:11).

“Entendemos que o tempo, assim como tudo aquilo que somos capazes de conceber sua existência, foi criado por Deus, o único Deus.”

Deus é atemporal. O que significa que Ele existe fora do tempo e não está sujeito ao tempo como nós estamos: “Eu sou o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim, diz o Senhor Deus, aquele que é, e que era, e que há de vir, o Todo-Poderoso” (Ap 1:8). Entendemos que o tempo, assim como tudo aquilo que somos capazes de conceber sua existência, foi criado por Deus, o único Deus. Para que Deus também experimentasse a passagem do tempo, como alguns filósofos e teólogos defendem, o tempo teria que existir fora do seu domínio, e para que qualquer coisa exista fora do domínio de Deus, seria necessário um outro criador, acima do nosso Deus, mas sabemos que isto é uma impossibilidade porque só existe um Deus que é o criador de tudo. Deus, o Deus das Escrituras, é, portanto, superior, fora e inalterável pelo tempo.

Embora Deus mesmo não esteja sujeito ao tempo, notamos que sempre que ele interage com as suas criaturas (pelo menos com as criaturas que conhecemos) ele o faz dentro do universo temporal que ele criou (Jon 3:4; 2Sm 24:12-13; Lc 4:25) Deduzimos que todos os seres existentes no universo criado são como nós, seres lineares, possuindo um passado, um presente e um futuro. Uma característica de todas as criaturas lineares é que somos limitados ao presente. Conhecemos o passado e esperamos o futuro, mas apenas atuamos no presente. O passado só existe porque em um certo momento ele foi o nosso presente e o futuro apenas existirá se vier a ser o nosso presente. O passado que nunca foi vivido por alguém (nenhuma pessoa) no presente é ficção e o futuro que não vier a se tornar o presente de alguém foi apenas uma possibilidade. Verificamos então que é o presente que define todo o viver dos seres lineares, como nós. Mantenham este conceito na mente, pois voltaremos a ele no próximo estudo desta série.

Deus criou o tempo de tal forma que cada divisão possui uma realidade diferente: o futuro possui uma realidade em potencial, o passado possui uma realidade relativa e o presente possui uma realidade infinita, contínua e eterna. Falaremos brevemente sobre cada uma.

A realidade do futuro é em potencial porque, conforme já mencionado acima, o futuro que se espera só virá a ser real se ele realmente ocorrer no presente. Se um amigo lhe falar que visitará a sua igreja quarta-feira que vem, mas não for, então aquele futuro nunca ocorreu, não foi real. Por isso dizemos que a realidade do futuro é em potencial. O Senhor ilustrou bem essa verdade em relação aos profetas: “Quando o profeta falar em nome do Senhor e tal palavra não se cumprir, nem suceder assim, esta é a palavra que o Senhor não falou; com presunção a falou o profeta; não o temerás” (Dt 18:22).

O passado possui uma realidade relativa porque ele é apenas real na memória daquele que o presenciou, e nunca duas pessoas retêm exatamente a mesma informação na mente. É por isso que em alguns relatos do evangelho, embora se refiram aos mesmos eventos, podemos perceber pequenas diferenças entre um escritor e outro. Por exemplo, Mateus recorda as palavras de Deus Pai no batismo de Jesus como: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt 3:17); enquanto Marcos se lembra que foram: “Tu és meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mc 1:11). Lucas também (Lc 3:22) relata o mesmo que Marcos, mas sabemos que Lucas não era um dos apóstolos e, portanto, não foi uma testemunha ocular. O conhecido “médico amado” provavelmente utilizou o evangelho de Marcos, considerado o mais antigo, como referência para escrever o seu evangelho.

O presente, que é o mais complexo dos três, possui uma realidade infinita, contínua e eterna. Dizemos eterna porque o presente não possui começo nem fim, como tudo aquilo que é eterno. O presente não pode ser medido e ao mesmo tempo continuar sendo presente. Ou seja, se uma pessoa falar para alguém: “o presente é agora!” Ela se engana, porque quando ela chega no último “a” da palavra “agora” então todas as outras letras da palavra já se tornaram passado. Acredito ser pelo fato do presente não possuir começo ou fim, que o Senhor se referiu a Moisés não como “Eu Fui” ou “Eu Serei”, mas sim “Eu Sou”, no presente: “Assim dirás aos olhos de Israel: EU SOU me enviou a vós” (Ex 3:14); e Jesus utilizou do mesmo tempo presente quando respondeu aos fariseus: “Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, eu sou” (Jo 8:58).

Não temos como saber com exatidão, mas tudo indica que os anjos e demônios, assim como nós, são seres temporais. Um exemplo do que estou falando foi quando o anjo Gabriel foi enviado do céu para responder à oração de Daniel e ele claramente refere a si mesmo como um ser sujeito à mesma linha temporal que os seres humanos: “desde o primeiro dia em que aplicaste o teu coração a compreender e a humilhar-te perante o teu Deus, tuas palavras foram ouvidas, e por causa das tuas palavras eu vim. Mas o príncipe do reino da Pérsia me resistiu por vinte e um dias” (Dn 10:12-13). Um outro exemplo que temos, foi o que foi revelado a Pedro, em relação a um grupo de “espíritos rebeldes” que desde os dias de Noé foram aprisionados e esperam o juízo final: “no qual também foi, e pregou aos espíritos em prisão; os quais noutro tempo foram rebeldes” (1Pe 3:19-20).

Quando falamos do tempo, devemos lembrar que ele faz parte do maior de todos os mistérios da Bíblia que foi a encarnação. Frequentemente esquecemos que quando Deus, através do seu único Filho, se fez como um de nós para nos salvar, Ele não somente passou a respirar como nós, se alimentar como nós e dormir como nós, mas também passou a estar sujeito à linha temporal que todo o ser humano está sujeito. Jesus vivia um segundo por vez assim como todos nós: acordava pela manhã (Mc 1:35), tinha fome no almoço (Mc 11:12) e dormia à noite (Mc 4:38). Isto pode parecer algo sem importância para alguns, mas não é, quando lembramos das palavras de João: “Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez” (Jo 1:3). Ou seja, Jesus deixou a sua posição ao lado do Pai, uma posição fora do universo temporal, e por 33 anos se submeteu a viver sujeito às mesmas limitações que todos os seres lineares possuem. Durante aquele período Ele dependia do Pai para tudo, como todos nós dependemos (Jo 5:30; Jo 8:27-28; Lc 22:43-44; Fil 2:8). Dependência do Pai era o motivo que os seus apóstolos frequentemente o pegavam orando.

Mas voltando ao nosso tema principal, que é os planos que Deus tem preparado para o futuro do cristão, uma boa ilustração (especialmente para quem já trabalhou em fábricas) para entender como o Criador atua no futuro de cada ser criado é imaginar o seu presente como um operário em uma linha de montagem esperando que as peças que precisa cheguem à sua frente na correia transportadora. O nosso presente ocorre quando aquilo que Deus nos enviou, nesta “correia transportadora” chega até nós. Quando oramos, estamos pedindo que o Senhor, do futuro, nos envie aquilo que precisamos no presente. Na realidade, como Deus está fora da linha do tempo, Ele já sabia que você pediria o que pediu e já havia colocado o que pediu nesta nossa esteira imaginária. Isto foi o que o Senhor nos disse através do profeta Isaías: “E acontecerá que, antes de clamarem eles, eu responderei; e estando eles ainda falando, eu os ouvirei” (Is 65:24).

Queridos, acho que o que foi escrito aqui sobre Deus e o tempo nos é suficiente para o objetivo desta série. Com a base que agora temos, no próximo estudo, com a direção do Espírito Santo, procuraremos entender melhor o porquê a maioria dos seres humanos segue alheio ao fato de que cada momento que passa da sua vida é um momento que nunca será recuperado. Quanto ao cristão, que é o nosso foco, procuraremos entender o porquê comumente a pessoa age com extrema passividade no presente e ao mesmo tempo justifica a sua situação de pouco crescimento espiritual por não saber quais são os planos de Deus na sua vida. Procuraremos entender o porquê se dá tanta importância aos desejos do mundo atual no seu dia a dia e negligenciam as palavras de Jesus, mesmo sabendo que é o presente que se vive nos dias deste mundo que determinarão o presente da vida futura, pois como bem sabemos, muito em breve todos nós ressuscitaremos: “os que tiverem feito o bem [aquilo que é a vontade de Deus], para a ressurreição da vida, e os que tiverem praticado o mal [aquilo que é contrário aos desejos de Deus], para a ressurreição do juízo” (Jo 5:29). Espero te ver no céu.

Nesta Série de Estudos Bíblicos: