🔊 (Parte 4) Serie: O Sermão da Montanha. Estudo Nº 4: As Bem-Aventuranças: Bem-aventurados Os Pobres de Espírito [Com Áudio]

(Parte 4) Serie: O Sermão da Montanha. Estudo Nº 4: As Bem-Aventuranças: Bem-aventurados Os Pobres de Espírito [Com Áudio]

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Por Markus DaSilva, Th.D.

Das nove bem-aventuranças contidas no Sermão da Montanha, Jesus começou mencionando que a maior das bênçãos, o Reino dos Céus, pertence a uma classe muito especial entre os seres humanos: os pobres de espírito: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus” (Mt 5:3). Na lingua original o pobre é aquele que lhe falta algo essencial para viver ou ser feliz: No hebraico: [Heb. עָנִי‎ (oní) ser humilde, afligido, pobre, fraco, carente], e no grego: [Gr. πτωχός (ptorrós) pedir, pedinte, mendigo, pobre]. Em todas estas possíveis traduções, podemos notar que a pessoa é uma desprivilegiada nesta vida; notamos que lhe falta algo necessário, mas que, por um motivo ou outro, ela não o possui.

“A pessoa que for pobre apenas no físico, pode muito bem se considerar rica espiritualmente, não vendo a menor necessidade de auxílio para a sua alma perdida.”

No grego, porém, existem duas palavras para “pobre”, sendo que o seu uso aparenta estar ligado ao nível de pobreza. Além da palavra usada nesta bem-aventurança, também se usa o [πενιχρός (penikrós)], como no caso da viúva que colocou uma moedinha na coleta do templo (Lc 21:2). No caso da viúva, ainda que pouco, ela, pelo menos, possuía algo para dar. A palavra [πτωχός (ptorrós)], usada no Sermão da Montanha, no entanto, traz consigo a ideia de alguém que é tão pobre que ele se encolhe e se esconde de pavor, daí a imagem de um mendigo que de tanta necessidade se encolhe ao pedir, temendo não ser auxiliado na sua carência. Na parábola do homem rico e Lázaro, esta palavra, πτωχός, é usada se referindo a Lázaro: “Ao seu portão fora deitado um mendigo (πτωχός), chamado Lázaro, todo coberto de úlceras” (Lc 16:20).

Se Jesus não tivesse adicionado o qualificativo: “de espírito”, entenderíamos que o Reino de Deus pertence aos pobres, financeiramente falando. Este entendimento, no entanto, não se encaixaria com a mensagem da salvação do evangelho, onde pessoas de todas as classes sociais possuem acesso ao caminho da salvação. De fato, logo mais adiante, no mesmo Sermão do Monte, Jesus nos ensina que devemos dar e emprestar àqueles que nos pedem (Mt 5:42). Certamente que se todos os seguidores de Jesus não possuíssem bens materiais, nenhum deles teria o que emprestar, muito menos o que dar. Não existe respaldo na Palavra para o entendimento de que ser financeiramente destituído, por si só, é um requisito para herdar o Reino de Deus, pois, obviamente, existe, e sempre existiu, milhões de pessoas pobres no mundo que não têm o menor interesse por Jesus e seu evangelho. Certamente que não obterão a salvação por serem financeiramente pobres, mesmo rejeitando a Cristo.

É interessante observar, no entanto, que no seu paralelo em Lucas, o versículo não contém o termo “de espírito”, mas se lê: “Então, levantando ele os olhos para os seus discípulos, dizia: Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus” (Lc 6:20) e no versículo seguinte de Lucas, Jesus também relaciona as bênçãos futuras com a falta de bens materiais: “Bem-aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis fartos” (Lc 6:21). A explicação para esta conexão (pobreza física e Reino de Deus), então, é que os herdeiros do Reino de Deus, ou seja, aqueles que amam a Jesus e o obedecem (João 14:21), mas que nesta vida são materialmente pobres e que até passam fome, serão especialmente abençoados na vida eterna, onde ninguém passará por qualquer tipo de necessidade. Assim como Jesus, eles aceitaram com mansidão (João 6:38) tudo aquilo que o Pai achou por bem lhes enviar, incluindo a pobreza: “Respondeu-lhe Jesus: As raposas têm covis, e as aves do céu têm ninhos; mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça” (Mt 8:20).

Jesus mencionou que os abençoados são os pobres de espírito porque o espírito é superior ao corpo. A pessoa que for pobre apenas no físico, pode muito bem se considerar rica espiritualmente, não vendo a menor necessidade de auxílio para a sua alma perdida. Já o indivíduo pobre de espírito se vê carente de Deus, não só para a sua alma como também para o seu corpo. Ele possui o temor de Deus por completo: “temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo” (Mt 10:28).

O pobre de espírito é aquele que se entregou por completo aos cuidados de Deus. Ele é pobre porque não vê como é possível sobreviver se Deus não providenciar aquilo que necessita. Este senso de necessidade de Deus não se limita a uma ou outra área da sua vida, mas sim a todas elas, caso contrário, se ele se visse bem em certas áreas, ele não seria completamente necessitado, mas apenas parcialmente. Esta necessidade parcial o desqualificaria como um genuíno pobre. A palavra usada por Jesus (πτωχός) não se aplicaria a ele. Não, o verdadeiro pobre se vê dependente de Deus na sua totalidade, tanto para as coisas relacionadas com o mundo físico como para o espiritual. Desde o momento que o pobre de espírito acorda, a cada hora do seu dia a dia, ele está continuamente consciente do seu estado desesperador de completa carência de Deus: “Clamou este pobre [πτωχός Sl 33:7 LXX (Septuaginta)], e o Senhor o ouviu, e o livrou de todas as suas angústias” (Sl 34:6).

O pobre de espírito é carente de Deus para o hoje e para o amanhã. Aquilo que ele já possui ele entende que só o tem porque Deus lhe deu, e aquilo que porventura vier a ter só o terá se Deus lhe der. Deus lhe dá, Deus tira, Deus lhe dá de novo e retira… sempre Deus, quando e como lhe for do agrado. Foi isso o que Jó quis dizer com as palavras: “Nu saí do ventre de minha mãe, e nu tornarei para lá. O Senhor deu, e o Senhor tirou; bendito seja o nome do Senhor” (Jó 1:21).

Jó nos serve como um grande exemplo do verdadeiro pobre de espírito. Notemos que Jó, em termos humanos, era um homem muito rico. De fato, logo no começo da sua história, a Bíblia fez questão de mencionar o quão rico ele era: “Possuía ele sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de bois e quinhentas jumentas, tendo também muitíssima gente ao seu serviço; de modo que este homem era o maior de todos os do Oriente” (Jó 1:3). Deus, porém, em questão de horas retirou tudo aquilo que possuía. Se Jó não tivesse consciência da sua pobreza espiritual ele teria explicado o ocorrido culpando aos outros e a si mesmo, mas, reconhecendo que tudo aquilo que tinha de fato não lhe pertencia, mas vinha de Deus, ele se humilhou e esperou que o mesmo Deus que transformou a sua riqueza em pobreza lhe restauraria a condição que antes tinha, se assim fosse do Seu agrado. Como pobre de espírito, Jó aceitava qualquer situação que o Senhor achasse por bem lhe enviar: “receberemos de Deus o bem, e não receberemos o mal? Em tudo isso não pecou Jó com os seus lábios” (Jó 2:10).

Se o pobre de espírito é o homem que reconhece precisar de Deus para tudo, o rico de espírito é então aquele que se acha capaz de prover para si mesmo. Ele é aquele que imagina erroneamente que foi com o seu próprio suor que conseguiu aquilo que tem e que se quiser continuar tendo terá que continuar lutando. Observemos, no entanto, que aqui também devemos utilizar o diferencial “de espírito”, da mesma forma que Jesus o utilizou quando se referiu ao pobre. Ou seja, não estamos aqui nos referindo àquele que é rico e que desconhece a Deus, pois este é apenas rico no corpo e, muito embora este também no final verá que nada tinha, o rico de espírito se encontra em situação pior, pois, se dizendo um filho de Deus, segue agindo como se não fosse o Senhor que o sustém. Este é um filho ingrato, petulante e incapaz de se enxergar: “Você diz: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta; e não sabe que é um coitado, e miserável, e pobre, e cego, e que está nu” (Ap 3:17).

Quando analisamos as palavras de Jesus, devemos ter em mente que a situação espiritual do homem, e não a sua condição financeira, deverá ser a causa da sua preocupação. O homem rico de espírito não é de fato rico de espírito, ele apenas age como se o fosse, se iludindo o tempo todo. Ele não tem nenhum crédito com Deus, mas se comporta como se tivesse. Todo o ser humano, se Deus não se compadecer dele, receberá no final o castigo que merece pela sua rebeldia contra o seu Criador (Mt 16:27). Enquanto o pobre de espírito reconhece a sua condição de pecador merecedor da justiça divina, e por isso se lança aos pés do Senhor em arrependimento e desespero, pedindo por misericórdia, o rico de espírito não vê a necessidade de tal comportamento, pois imagina já possuir o necessário para alcançar o Reino de Deus. O Reino de Deus pertence aos pobres de espíritos, pois apenas estes reconhecem a sua contínua dependência da misericórdia do Pai: “Mas o publicano, estando em pé de longe, nem sequer levantava os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: ó Deus, tem misericórdia de mim, um pecador!” (Lc 18:13).

Mas voltando àquilo que foi falado no início deste estudo, não temos como separar o pobre de espírito da pessoa financeiramente pobre, pois certamente que existe algo em comum entre os dois. Muito embora realmente a Bíblia não nos diz que apenas o indivíduo carente de bens materiais se salvará, as palavras de Jesus são mais do que claras de que as riquezas deste mundo atuam como uma imensa barreira para que alguém obtenha a vida eterna: “Disse então Jesus aos seus discípulos: Em verdade vos digo que um rico dificilmente entrará no reino dos céus” (Mt 19:23). O nosso irmão Tiago, também foi bem claro quanto à como o indivíduo financeiramente pobre possui uma vantagem sobre o rico quando se trata da aceitação do evangelho da salvação: “Ouvi, meus amados irmãos. Não escolheu Deus os que são pobres quanto ao mundo para fazê-los ricos na fé e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam?” (Tg 2:5).

A razão desta verdade é muito fácil de entender. O indivíduo financeiramente carente, naturalmente se encontra em uma situação de procurar pela ajuda de alguém na sua vida de necessitado. Para ele, que já é carente no físico, não é nada de especial entender e aceitar que também se encontra carente de espírito. O homem rico, no entanto, uma vez que está materialmente bem, precisará de uma tremenda fé para aceitar que apesar de estar em uma situação de fartura neste mundo, ele se encontra em um estado de completa necessidade da misericórdia de Deus para herdar o mundo futuro, onde o que tem aqui não lhe será de serventia alguma: “e direi à minha alma: Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e alegra-te. Mas Deus lhe disse: Insensato, esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem ficará?” (Lc 12:19-20).

Queridos, felizes são os pobres de espírito, pois deles é o Reino de Deus. Jesus veio especificamente para nós, carentes espirituais: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porquanto me ungiu para anunciar boas novas aos pobres” (Lc 4:18. Ver também Is 61:1). Devemos ser espiritualmente pobres, se queremos herdar a nossa morada com o Pai quando deixarmos a vida atual. Aliás, devemos ser pobres se queremos hoje mesmo, ainda no mundo presente, viver o Reino de Deus que habita dentro de nós (Lc 17:21).

Devido ao fato de que praticamente tudo neste mundo se consegue com dinheiro, Deus deixa mais do que claro que a verdadeira felicidade, presente e futura, não é obtida com aquilo que o homem tem, pois para Deus, a fonte da felicidade, o homem não tem nada. A felicidade que tanto desejamos é dada gratuitamente por Ele, sem qualquer necessidade de pagamento da nossa parte. Deus então nos convida a irmos a Ele, pobres e cientes de que não temos nada de valor que Ele queira, e então seremos atendidos na nossa petição. Este é um convite feito a todos os seres humanos, mas que infelizmente poucos aceitam a oferta: “vos, todos os que tendes sede, vinde às águas, e os que não tendes dinheiro, vinde, comprai, e comei; sim, vinde e comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite” (Is 55:1).

Deus cuida dos seus filhos em todas as áreas da sua vida, tanto física quanto espiritual, bastando tão somente que o reconheçamos como a nossa única fonte de felicidade. Sim, este é um ato de fé, e como tudo aquilo que envolve a fé, precisamos estar dispostos a agir sem que tenhamos uma prova. Mas lhe garanto, irmãos, que este é um ato de fé que valerá a pena. Viver como pobres de espírito é viver carentes, mas na certeza de que nada nos faltará pois temos um fiel Provedor. Sim, nada nos faltará. Nem hoje, nem amanhã nem na eternidade. Lembremos que o nome do nosso Deus é Jeová Jireh, “Deus proverá”. Espero te ver no céu.

Nesta Série de Estudos Bíblicos:
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  • Estudo Nº 1 – O Sermão da Montanha: Introdução: Os Herdeiros do Reino.
  • Estudo Nº 2 – O Sermão da Montanha: Introdução: Quem Consegue Obedecer?
  • Estudo Nº 3 – As Bem-Aventuranças: Recompensas Pelo Sofrimento.
  • Estudo Nº 4 – As Bem-Aventuranças: Bem-aventurados Os Pobres de Espírito, Porque Deles é o Reino dos Céus. (Mat 5:3)
  • Estudo Nº 5 – As Bem-Aventuranças: Bem-aventurados os que Choram, Porque Serão Consolados. (Mat 5:4)
  • Estudo Nº 6 – As Bem-Aventuranças: Bem-aventurados os Mansos, Porque Eles Herdarão a Terra. (Mat 5:5)
  • Estudo Nº 7 – As Bem-Aventuranças: Bem-aventurados os que Têm Fome e Sede de Justiça Porque Eles Serão Fartos. (Mat 5:6)
  • Estudo Nº 8 – As Bem-Aventuranças: Bem-aventurados Os Misericordiosos, Porque Eles Receberão Misericórdia. (Mat 5:7)
  • Estudo Nº 9 – As Bem-aventuranças: Bem-aventurados os Limpos de Coração, Porque Eles Verão a Deus. (Mat 5:8)
  • Estudo Nº 10 – As Bem-aventuranças: Bem-aventurados os Pacificadores, Porque Eles Serão Chamados Filhos de Deus. (Mat 5:9)
  • Estudo Nº 11 – As Bem-aventuranças: Bem-aventurados os que São Perseguidos por Causa da Justiça, Porque Deles é o Reino dos Céus. (Mat 5:10)
  • Estudo Nº 12 – As Bem-aventuranças: Bem-aventurados os Perseguidos por Causa de Jesus. (Mat 5:11-12)

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