🔊 (Parte 5) Serie: O Sermão da Montanha. Estudo Nº 5: As Bem-aventuranças: Bem-aventurados os que Choram [Com Áudio]

(Parte 5) Serie: O Sermão da Montanha. Estudo Nº 5: As Bem-aventuranças: Bem-aventurados os que Choram [Com Áudio]

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Por Markus DaSilva, Th.D.

Logo após ter nos ensinado que o reino dos céus pertence aos pobres, ou humildes, de espírito, Jesus continuou o Sermão da Montanha com a segunda bem-aventurança: “Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados” (Mt 5:4). Infelizmente, assim que começamos a estudar estas palavras de Jesus, escritas pelo apóstolo Mateus, notamos a dificuldade que é traduzir certas palavras do grego para o português e demais línguas românicas: espanhol, francês, italiano, romeno e outras. Neste caso, a palavra traduzida por praticamente todas as versões em português como: “choram”, em: “Bem-aventurados os que choram”, é demasiadamente abrangente e não reflete o significado correto do verbo original, [πενθέω (pentheō)], usado por Mateus. Dizer que os herdeiros do Reino receberão o consolo de Deus simplesmente porque choram na vida presente não reproduz fielmente o que Jesus nos disse, afinal todos nós choramos e por vários motivos diferentes. Uma boa parte das nossas lágrimas não passam dos frutos daquilo que plantamos; não passam dos resultados da nossa rebeldia para com Deus. Obviamente, não devemos esperar consolo nenhum de Deus em se tratando da consequência dos nossos atos pecaminosos. Perdão sim, consolo, de forma alguma. Não, nesta bem-aventurança, Jesus se refere ao consolo para um outro tipo de sofrimento.

“Como consequência de obedecermos à Jesus, é certo que teremos que abandonar muitos relacionamentos que não contribuem para a nossa salvação”.

No evangelho segundo Lucas, vemos uma bem-aventurança semelhante (mas não idêntica) à de Mateus em que ele usa de fato o verbo chorar [κλαίω (klaiō)]: “Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque haveis de rir” (Lc 6:21). Mas notemos que neste verso a bênção concedida não é ser consolado, mas sim rir [γελάω (geláo)]. O que nos indica se tratar de uma outra bem-aventurança que os herdeiros do Reino receberão. Neste caso faz todo o sentido a palavra “chorar” uma vez que “rir” é o oposto do choro.

Quanto a Mateus, o verbo usado por ele [πενθέω (pentheō)], no entanto, não significa simplesmente chorar, mas indica o lamento, ou pranto incontrolável, que experimentamos quando perdemos algo valioso; e é uma palavra comumente usada se referindo ao luto. Um bom exemplo do uso do verbo foi quando Maria Madalena, logo após ter visto Jesus ressuscitado, foi contar o ocorrido aos apóstolos que estavam de luto pela perda de Jesus, o Mestre que tanto amavam. As traduções em português escrevem algo como: “Foi ela anunciá-lo aos que haviam andado com ele, os quais estavam tristes (ou lamentando) e chorando” (Mc 16:10). Esta passagem e muitas outras semelhantes ilustram o problema de traduzir [πενθέω (pentheō)] como “chorar” no português. Uma melhor tradução neste caso seria: “Foi ela anunciá-lo aos que haviam andado com ele, os quais estavam de luto [πενθέω (pentheō)] e em prantos [κλαίω (klaiō)] “. Para outros usos do verbo [πενθέω (pentheō)] ver: Mt 9:15; 1Co 5:2; Tg 4:9; Ap 18:11, 19.

Muitos estudiosos entendem que este “luto” a que Jesus se refere é uma “lamentação” sobre os pecados cometidos pelo homem individualmente e pela humanidade em geral, mas este entendimento, além de fugir do principal sentido da palavra “luto”, que é o sofrimento pela perda de algo, é bem melhor apresentado na quarta bem-aventurança (Mt 5:6) que se refere à herança do Reino por aqueles que têm fome de retidão, ou justiça, neste mundo.

Agora que compreendemos melhor o significado do verbo usado por Mateus descrevendo o que ele ouviu de Jesus, podemos ver que a segunda bem-aventurança se refere às perdas que os herdeiros do Reino têm que passar nesta vida por causa do seu amor a Cristo. Jesus fala do consolo que eles receberão quando o Reino se manifestar na sua plenitude. Cristo reconhece que não é fácil para o cristão abandonar tantas coisas nesta vida tão somente pela fé nas suas promessas, e garante a todos eles que esta tristeza é temporária e que quando este mundo passar receberão a sua devida recompensa e consolo: “E todo o que tiver deixado casas, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou filhos, ou terras, por amor do meu nome, receberá cem vezes tanto, e herdará a vida eterna” (Mt 19:29).

Observemos, no entanto, que eles serão consolados das suas perdas não somente porque receberão algo muito bom e que por isso esquecerão de tudo aquilo que perderam na terra, da mesma forma que se dá um brinquedo a uma criança que chora de dor para assim consolá-la, não, de forma alguma, mas sim porque finalmente entenderão com toda a clareza o porquê as coisas aqui nesta terra dominada pelo pecado ocorrem como ocorrem. O principal consolo está na compreensão dos fatos, algo impossível de se ter enquanto estivermos neste mundo envolto em trevas. Foi isto o que o nosso irmão Paulo quis dizer quando nos escreveu: “Porque agora vemos como por espelho, em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei plenamente, como também sou plenamente conhecido” (1Co 13:12).

Quando o Reino de Deus vier até a nós, entenderemos que tudo o que poderia ser feito para o nosso bem foi de fato feito (Ro 8:28); entenderemos que a justiça de Deus é realmente uma justiça perfeita e que nenhum ser humano foi tratado de forma injusta e parcial. Cada uma das suas criaturas, sejam elas anjos ou homens, receberam, com exatidão, a recompensa merecida, nem mais, nem menos.

Grande parte do nosso sofrimento aqui neste vale de lágrimas ocorre porque enxergamos muito pouco aquilo que realmente está ocorrendo ao nosso redor (Ef 6:12). Nossa visão é limitada devida à nossa falta de fé e não temos grande fé porque somos falhos na nossa obediência. Quanto mais obedecemos maior a nossa fé e a nossa capacidade de enxergar o mundo espiritual, que é o verdadeiro mundo. Jesus era tudo aquilo que não somos. Ele tinha uma visão perfeita, uma fé perfeita e obedecia ao Pai perfeitamente: “Disse-lhes Jesus: A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e completar a sua obra” (João 4:34).

Em vários lugares Jesus nos alertou que existe um preço que todos nós temos que pagar quando decidimos nos tornar um dos seus discípulos: “Em seguida dizia a todos: Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz, e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas quem perder a sua vida por amor de mim, esse a salvará” (Lc 9:23-24). O consolo desta bem-aventurança tem tudo a ver com o fato de que perdemos a nossa vida por amor a Cristo.

Todo aquele que procura ter um relacionamento sério com Jesus verá que não é possível fazê-lo enquanto mantemos o mesmo apego a este mundo que mantém aqueles que não o conhecem. Nada neste mundo passageiro pode se colocar entre os filhos do Reino e Jesus, nem mesmo aquilo que mais amamos nesta vida. Quando lemos os ensinos de Jesus nos quatro evangelhos, algo que nos chama a atenção é o seu contínuo alerta de que temos que amá-lo se realmente queremos ser considerados como parte dos seus seguidores e herdarmos a vida eterna. Algo que nos chama ainda mais a atenção no seu alerta é o nível de amor que ele requer de nós. Jesus não nos pede que simplesmente o amemos, como geralmente amamos as pessoas que estão ao nosso redor, algumas mais e algumas menos, não, Jesus exige de nós um nível de amor que O coloca em um patamar superior e onde apenas a divindade se encontra: “Se alguém vier a mim, e não me amar mais que pai e mãe, a mulher e filhos, a irmãos e irmãs, e ainda também à própria vida, não pode ser meu discípulo” (Lc 14:26). Na realidade, esta expressão “me amar mais que…” é uma paráfrase que se encontra em várias versões da Bíblia. A correta tradução do original grego [μισέω (miseo)] é “odiar”, e basicamente o que este mandamento nos ensina é que quando um ser humano se torna um obstáculo entre nós e Cristo, Jesus deverá ser amado e este indivíduo odiado, ainda que seja o mais próximo dos nossos familiares. Como consequência de obedecermos à Jesus, é certo que teremos que abandonar muitos relacionamentos que não contribuem para a nossa salvação. É certo, também, que às vezes nos sentiremos sós, isolados, como se a morte tivesse levado uma boa parte da nossa família. Ainda que fisicamente os nossos queridos estejam vivos, nos sentiremos como que em um luto espiritual. Foi isso o que Jesus quis dizer com as palavras: “Segue-me, e deixa os mortos sepultar os seus próprios mortos” (Mt 8:22).

Seremos verdadeiramente consolados por tudo aquilo que voluntariamente abandonamos por amor a Cristo. Este é um consolo que, muito embora ocorrerá plenamente apenas quando deixarmos este mundo, ainda agora já podemos experimentar se tão somente exercitarmos a nossa fé. Devemos procurar valorizar tudo ao nosso redor de acordo com o seu valor espiritual, e não de acordo com o seu valor físico. Quase tudo o que colocamos tanto valor nesta vida passageira não passa de ilusões, coisas que cedo ou tarde reconhecemos a sua futilidade, conforme descobriu o rei Salomão: “Vaidade de vaidades, diz o pregador; vaidade de vaidades, tudo é vaidade. Que proveito tem o homem, de todo o seu trabalho, com que se afadiga debaixo do sol?” (Ec 1:1-3).

Queridos, a maneira que somos consolados ainda nesta vida é nos dedicando completamente à obra de Deus, assim como Jesus o fazia. A nossa comida diária deverá consistir em fazer a vontade do Pai (João 4:34). Devemos procurar ao Senhor o tempo todo, desde as primeiras horas do dia até os últimos minutos antes de cairmos no sono. Quando vivemos assim, em uma completa dedicação ao Senhor, recebemos dele o constante consolo por tudo aquilo que abandonamos por sua causa. A sua própria presença é o nosso consolo: “Tu me farás conhecer a vereda da vida; na tua presença há plenitude de alegria; à tua mão direita há delícias perpetuamente” (Sl 16:11). Espero te ver no céu.

Nesta Série de Estudos Bíblicos:
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