🔊 Série: O Sermão da Montanha: Estudo Nº 63: Não Julgueis: A Mesma Medida [Com Áudio e PDF]

Imagem de uma fazenda com um grande galpão e mintanhas ao fundo

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O Sermão da Montanha – A Mesma Medida

Mateus 7:1-2 Estudo Teológico Nº 63

Por Markus DaSilva, Th.D.

Assim que terminou de ensinar aos seus discípulos no Sermão da Montanha sobre a impossibilidade do cristão servir tanto a Deus como ao dinheiro (mamon) [Gr. μαμωνάς (mamonás) s.m. dinheiro, riquezas], Jesus muda completamente de assunto e passa a censurar a nossa propensão de condenar as pessoas sem que primeiro coloquemos em dia a nossa própria situação perante Deus: “Não julgueis, para que não sejais julgados. Porque com o juízo com que julgais, sereis julgados; e com a medida com que medis vos medirão a vós. E por que vês o cisco no olho do teu irmão, e não reparas o tronco que está no teu olho? Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o cisco do teu olho, quando tens o tronco no teu? Hipócrita! tira primeiro o tronco do teu olho; e então verás bem para tirar o cisco do olho do teu irmão” (Mat 7:1-5).

“Quando os livros forem abertos, todos os julgamentos injustos que fizemos contra os nossos irmãos virão à tona.”

Três Estudos Sobre Julgarmos os Nossos Irmãos

Este novo segmento da longa série sobre o Sermão do Monte consiste de três estudos que lidam com a nossa inclinação de condenar as pessoas baseado no nosso entendimento sobre aquilo que Deus espera dos seus escolhidos. O primeiro, que cobriremos logo abaixo, tem a ver com sermos justos no nosso julgamento: “com a medida com que medis vos medirão a vós” (Mat 7:1-2). O segundo, que cobriremos no próximo estudo, tem a ver com o autojulgamento: “…e por que vês o cisco no olho do teu irmão, e não reparas o tronco que está no teu olho?” (Mat 7:3-4). E finalmente, fechando o bloco, lidaremos com a maneira correta de ajudarmos aos nossos irmãos na sua caminhada rumo ao céu: “tira primeiro o tronco do teu olho; e então verás bem para tirar o cisco do olho do teu irmão” (Mat 7:5).

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Uma Melhor Tradução Para a Palavra “Julgar”

Começaremos fazendo uma leve crítica nas traduções da palavra grega [Gr. κρίνω (kríno) v. julgar, condenar, decidir]. De fato este verbo pode ser traduzido como “julgar”, como praticamente todas as versões da Bíblia o fizeram (NVI, ARC, NVT, TAR, NAA, ARA, NTLH, KJV, AMP, NKJV, CSB, NET, GNT, DRB, ISV, NLT, NIV, ESV, RSV, NRSV), mas uma melhor tradução neste contexto seria “condenar”, conforme o fez a CEV, da American Bible Society: “não condenem os outros e Deus não condenará a vocês”. O que me incomoda é que o verbo julgar, com exceção do pretérito perfeito (eu julguei), traz consigo a ideia judicial de um processo que ainda não terminou, algo que envolve investigação e apuração de fatos. Normalmente em uma corte, quando alguém está em juízo os fatos estão sendo apurados para ver se ele de fato é culpado da acusação. Quando, todavia, ouvimos a ilustração de Jesus sobre o hipócrita que procura tirar o cisco do olho do seu irmão, podemos ver que o processo de julgar já terminou; a pessoa que o hipócrita se oferece como voluntário para ajudar já foi condenada pelo cisco que permitiu entrar no seu olho. Neste caso, uma tradução que não deixa dúvidas sobre o que exatamente Jesus está censurando é condenar e não julgar. Esta verdade é confirmada pelo versículo que segue, onde Jesus explica que após o hipócrita admitir que está em pecado e retirar o tronco que se encontra no seu próprio olho, ele então poderá ver claramente o que de fato ocorreu com a pessoa com o cisco no olho. Assim, o seu ato de julgar será justo, e, sem condenação, ajudará a pessoa a tirar o cisco que a incomoda. Ele não errou porque julgou, mas sim porque não estava em posição de fazer um julgamento justo. Devo também mencionar que uma outra razão que a tradução: “julgar” não deve ser usada neste contexto é porque em várias outras passagens na Bíblia somos instruídos ou informados sobre o julgar corretamente: “Não julgueis pela aparência mas julgai segundo o reto juízo” (João 7:24); “Ora, se teu irmão pecar, vai, e repreende-o entre ti e ele só; se te ouvir, terás ganho teu irmão” (Mat 18:15. Ver também: 1Cor 4:5). Tenho que admitir, no entanto, que traduzir [Gr. κρίνω (kríno)] como “julgar”, ainda que não seja a melhor opção, não corrompe o sentido do versículo.

Julgamento Justo: A Letra da Lei e o Espírito da Lei

No evangelho segundo João, conforme já lemos acima, Jesus, ao ser condenado pela multidão porque curou um homem no sábado (Ver João 5:1-9), nos disse que devemos julgar não de acordo com as aparências mas de acordo com um julgamento justo: [Gr. μη κρίνετε κατ όψιν αλλά την δικαίαν κρίσιν κρίνατε (mi krínete kat ópsin allá tin dikaían krísin krínate)]. A multidão agiu de forma insensata, considerando tão somente a letra da lei que proíbe alguém trabalhar no sétimo dia da semana (Exo 20:8-11), Jesus, porém, censura a decisão deles argumentando que se de acordo com Moisés a pequena cirurgia da circuncisão, que lida apenas com a parte espiritual do homem, pode ser feita no sábado (Lev 12:3), quanto mais o milagre que ele fez, que envolveu tanto a cura espiritual como também a cura física: “Não julgueis pela aparência mas julgai segundo o reto juízo” (João 7:24).

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A multidão julgou pela aparência porque não considerou todos os fatos do que Jesus havia feito. O julgamento foi tão somente baseado na letra da lei [Gr. το γράμμα του νόμου (to grama tu nomu)] que se refere à parte escrita da lei, enquanto o espírito da lei [Gr. το πνεύμα του νόμου (to pnevma tu nomu)], que se trata do verdadeiro objetivo da lei, foi deixado de lado. Toda a lei de Deus tem como objetivo a restauração do homem ao seu relacionamento com o Criador, e não condenar o homem à perdição. A lei de Deus não busca condenar, mas salvar: “Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar [Gr. κρίνω (kríno) v. julgar, condenar, decidir] o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele” (João 3:17). [Acesse estudo completo sobre a letra da lei e o espírito da lei]

O Julgar Segundo a Bíblia

Primeiramente é bom que entendamos o que é o julgar segundo a Bíblia. Julgar algo ou alguém, no contexto espiritual, se trata de analisar se este algo, ou esta pessoa, está de acordo com a lei de Deus. Como resultado da nossa avaliação, decidimos então se o que vemos ou ouvimos agrada ou não a Deus; se recebe ou não a sua aprovação. Note que o objetivo desta avaliação, para que seja justa, não é que satisfaça os nossos requerimentos de retidão, mas sim os requerimentos de Deus. Muitas vezes julgamos e condenamos a alguém baseado na nossa preferência, ou naquilo que achamos que deveria ser o correto. O tipo de julgamento considerado justo precisa ter como resultado final satisfazer a vontade de Deus e não a nossa. Indo mais além, o tipo de julgamento que agrada a Deus procura primariamente a restauração do pecador, e não a sua condenação: “Então, erguendo-se Jesus e não vendo a ninguém senão a mulher, perguntou-lhe: mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou? Respondeu ela: ninguém, Senhor. E disse-lhe Jesus: nem eu te condeno [Gr. κρίνω (kríno)]; vai-te, e não peques mais” (João 8:10-11).

Avaliando ou Julgando Tudo ao Nosso Redor

Embora não usamos a palavra “julgar”, a realidade é que como igreja, ou individualmente, estamos continuamente julgando (ou avaliando) aquilo que vemos e ouvimos para saber se é algo que Deus aprova ou desaprova. Ao terminar esta avaliação, temos então um veredito, que pode tanto aceitar (ou absolver) como também rejeitar (ou condenar) aquilo que vemos ou ouvimos. Foi isto o que Jesus quis dizer quando nos alertou sobre os homens que diziam ser profetas, mas não eram: “Guardai-vos dos falsos profetas [Gr. ψευδοπροφήτης (psevdoprofítis) s.m. falso profeta], que vêm a vós disfarçados em ovelhas [Gr. πρόβατον (próvaton) s.n. ovelha], mas interiormente são lobos [Gr. λύκος (lúkos) s.m. lobos] devoradores. Pelos seus frutos [Gr. καρπός (karpós) s.m. fruta, colheita, descendente] os conhecereis. (Mat 7:15-16).

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Julgando os Falsos Profetas, Uma Aplicação Pessoal

Fazendo uma aplicação pessoal sobre este ensino de Jesus, imaginem que surgiram entre nós homens que se dizem profetas. Se eles forem de fato profetas do Senhor, podem vir a ser uma grande bênção para a igreja, nos corrigindo e nos direcionando no caminho da salvação, conforme nos explicou o apóstolo Paulo: “…o que profetiza [Gr. προφητεύω (profitévo) v. profetizar] fala aos homens [Gr. άνθρωπος (ánthropos) s.m. homem, ser humano] para edificação, exortação e consolação. O que fala em língua [Gr. γλώσσα (glóssa) s.f. língua, idioma] edifica-se a si mesmo, mas o que profetiza edifica a igreja [Gr. εκκλησία (eklisía) s.f. igreja, assembleia, ajuntamento]” (1Cor 14:3-4). Se eles, no entanto, forem falsos profetas, poderão causar grandes danos para a congregação com as suas mentiras. Serão trevas, se passando por luz. Como poderemos saber se eles vêm de Deus ou de Satanás? Julgaremos estes homens pelos seus frutos: “pelos seus frutos os conhecereis” (Mat 7:20). Este é um julgamento justo porque se baseia naquilo que observamos ser o resultado das suas supostas profecias. É justo porque estamos julgando com o objetivo de fazer aquilo que dá prazer a Deus que é salvar almas para o seu reino: “Tenho eu algum prazer [Heb. חפץ (réfets) s.m. prazer, deleite] na morte [Heb. מות (mávet) v. morte, morrer, morto] do ímpio [Heb. רשע (rêsha) adj. ímpio, perverso]? diz o Senhor [Heb. אדון (Adon) s.m. Senhor, Soberano, Mestre] Deus [Heb. יהוה‎ (Yerrovah) np.div. Jeová, Javé]. Não desejo antes que se converta dos seus caminhos, e viva [Heb. חיה (rraiá) v. viver, ter vida]?” (Eze 18:23). Devemos então chegar a um veredito baseado no que está ocorrendo: a obra destes supostos profetas está levando as pessoas a se afastarem do eu e se aproximarem de Cristo? Estão levando as almas a um genuíno desapego às coisas deste mundo e a demonstrar o seu o amor a Jesus através da obediência aos seus mandamentos? (João 14:21). Ou o resultado do que ensinam é exatamente o oposto daquilo que Jesus espera dos seus seguidores? Pelos seus frutos os conhecereis.

A Mesma Medida Contra Nós

Após nos alertar quanto à seriedade que é julgar e condenar as pessoas injustamente, Jesus eleva o seu alerta ao plano pessoal e nos passa uma assustadora informação: “com a medida com que medis vos medirão a vós” (Mat 7:1-2). Estas palavras de Cristo na realidade não são novas, pois em todo o evangelho podemos observar a constante ênfase na retidão, ou justiça, [dikiosine] que Deus espera dos seus filhos ao se relacionarem uns com os outros: “Portanto, tudo o que quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles” (Mat 7:12). Este aviso de Cristo deverá ser recebido de duas formas, uma se referindo à nossa vida no mundo atual e a outra se referindo ao juízo final. A parte que se refere à terra, nos ensina que Deus permitirá que recebamos ainda aqui um retorno das vezes que julgamos e condenamos as pessoas injustamente. Não devemos chorar as mágoas quando as pessoas nos tratarem da mesma maneira que tratamos os outros.

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Quando Formos Julgados Por Deus

A outra forma, e bem mais séria, que devemos receber este alerta de Jesus é em se tratando do critério que será usado contra os seres humanos no juízo final. Obviamente Deus é benevolente, misericordioso e possui uma justiça perfeita, enquanto nós falhamos em tudo isso, e neste sentido não creio que Deus utilizará da mesma medida que utilizamos no nosso tratamento das pessoas, mas podemos ter certeza que quando os livros forem abertos, todos os julgamentos injustos que fizemos contra os nossos semelhantes virão à tona, e serão considerados no veredito eterno: “E pensas tu, ó homem que julgas os que praticam tais coisas e, contudo, pratica-as também, que escaparás ao juízo de Deus? …, mas, segundo a tua dureza e teu coração impenitente, guarda contra ti mesmo ira para o dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus, que retribuirá a cada um segundo as suas obras” (Rom 2:3, 5-6).

A Reciprocidade de Tratamento no Sermão da Montanha

Também devemos observar que este alerta de Jesus está em harmonia com o restante do Sermão da Montanha, onde Jesus repetidamente nos diz que o tratamento que receberemos de Deus é proporcional ao tratamento que os outros recebem de nós: “Porque, se perdoardes aos homens [Gr. άνθρωπος (ánthropos) s.m. homem, ser humano] as suas ofensas [Gr. παράπτωμα (paráptoma) s.n. pecado, queda, desliza], também vosso Pai celestial vos perdoará a vós; se, porém, não perdoardes [Gr. αφίημι (afiíme) v. perdoar] aos homens, tampouco [Gr. ουδέ (udé) conj. também não, tampouco, muito menos] vosso Pai perdoará vossas ofensas” (Mat 6:14-15). Ou seja, Jesus nos disse que se a nossa parte não for feita podemos ter a certeza absoluta que a parte de Deus também não será feita. Uma outra forma de falar a mesma coisa é que a parte de Deus, que consiste em perdoar os nossos pecados, é condicional a fazermos a nossa parte, que é perdoar aqueles que pecam contra nós.

Deus Espera Misericórdia e Não Condenação

Queridos, o ponto principal deste ensino de Jesus é o nosso coração quando deduzimos, certo ou errado, que alguém está em pecado: “Porque do coração [Gr. καρδία (kardía) s.f. coração] procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios [Gr. μοιχεία (mirría) s.f adultério, adúltero], prostituição [Gr. πορνεία (porneia) s.f. imoralidade, prostituição, fornicação], furtos, falsos testemunhos e blasfêmias” (Mat 15:19). Qual é a nossa inclinação para com o nosso irmão, condenar ou restaurar? Este é de fato o ponto principal. Obter a resposta a esta pergunta requer uma autoanálise honesta da nossa parte, pois, somente quando sabemos o que se passa no nosso coração é que poderemos reagir positivamente às palavras de Cristo. Devo deixar bem claro que infelizmente, salvo algumas exceções, a nossa tendência é achar que os descrentes, e os irmãos e irmãs que se comportam como descrentes, trata-se de pecadores irremediáveis, e se tivéssemos a necessária fé, em alguns casos ordenaríamos que descesse fogo do céu e os consumissem, conforme quiseram fazer os apóstolos de Jesus: “Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu para os consumir? Jesus, porém, voltando-se, repreendeu-os, e foram para outra aldeia” (Luc 9:52-56. Ver também: 2Re 1:10, 12, 14). Este tipo de reação comum entre nós, no entanto, procede da carne e não do Espírito. Como imitadores de Cristo o nosso grande objetivo ao nos relacionarmos com os outros seres humanos, seja com os descrentes ou com os “de casa”, é que assim como nós eles reconheçam os seus erros, se arrependam dos seus pecados, se empenham a amar e a obedecer aos mandamentos de Jesus, e assim se salvem. Não queremos que ninguém morra (espiritualmente), mas sim que todos vivam eternamente. Espero te ver no céu.

 

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