🔊 (Parte 7) Serie: O Sermão da Montanha. Estudo Nº 7: As Bem-aventuranças: Bem-aventurados os que tem Fome e Sede de Justiça [Com Áudio]

Uma foto de montanhas com um rio passando entre os montes. Serie: O Sermão da Montanha. Estudo Nº 7: As Bem-aventuranças: Bem-aventurados os que tem Fome e Sede de Retidão (Justiça) [Com Áudio]Markus DaSilva

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Por Markus DaSilva, Th.D.

Na quarta bem-aventurança do Sermão da Montanha, Jesus nos promete que receberemos uma recompensa, não baseado naquilo que somos, como foi o caso das primeiras bem-aventuranças: pobres de espírito, enlutados e mansos. Na bem-aventurança que cobriremos neste estudo, a recompensa nos será dada pelo desejo e empenho para que este mundo volte a ser dominado pela retidão de Deus: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de retidão (justiça) porque eles serão fartos” (Mt 5:6). Mais uma vez, infelizmente temos que lidar com a dificuldade de tradução das línguas originais bíblicas para o português e demais línguas românicas. A palavra comumente traduzida como: “justiça”, no português possui um significado bem mais amplo no grego e hebraico do que normalmente entendemos por justiça nos nossos dias. No grego, [δικαιοσύνη (dikaiosunē)] denota a retidão que existe apenas em Deus: tudo aquilo que é correto, perfeito, santo e justo.

“Para que venhamos a experimentar da retidão de Deus na nossa vida teremos que procurá-la no mesmo nível que alguém procura por comida e bebida: uma questão de vida ou morte.”

Muitos anos atrás, estas duas palavras — justiça e retidão — possuíam significados bem mais semelhantes do que nos dias atuais; eram praticamente sinônimas. Isso ocorria porque a Bíblia, e o seu vocabulário, exercia influência em todas as camadas da sociedade. Com o tempo, e à medida que o povo se distanciou de Deus, justiça, embora continua sendo uma característica da retidão, passou a ter um significado próprio, mais especificamente voltado para a jurisprudência. Quando ouvimos que alguém procura por justiça, raramente se pensa na santidade ou retidão de Deus, mas simplesmente que este alguém deseja o que é seu por lei, ou deseja que um suposto infrator pague pelo seu crime. A conotação é quase sempre legal e secular e não relacionada com a nossa vida espiritual. No contexto bíblico, no entanto, quando o substantivo traduzido no português como “justiça” é usado, no hebraico [צְדָקָה (tsedhāqāh)] ou no grego [δικαιοσύνη (dikaiosunē)], normalmente devemos interpretar como a completa retidão que existe apenas em Deus. Lembrando que quando as Escrituras querem realmente expressar o conceito de: “justiça” ou “julgamento”, as palavras utilizadas são outras: [‏מִשְׁפָּט‎ (mishpāṭ)] no hebraico, e [κρίσις (krisis)] no grego.

Nesta bem-aventurança, Jesus nos diz que se desejarmos desesperadamente a retidão de Deus neste mundo onde ela não existe, então, como recompensa, a receberemos com fartura. Neste estudo, lidaremos com os três pontos importantes nesta promessa de Jesus. Primeiro, por que Jesus usou da linguagem figurativa — fome e sede — para descrever o desejo de retidão que os seus seguidores devem possuir no mundo atual? Segundo, do que se trata esta retidão que é tão importante para nós e para Deus? Por último, procuraremos entender o valor da retidão que nos será dada em fartura e o porquê Jesus a descreveu como se fosse algo muito desejável e prazeroso.

O mundo em que vivemos é dominado pelo mal. Estamos cercados por todos os tipos de sofrimentos. Há cada segundo que passa, torrentes de lágrimas são derramadas por todo o mundo, todas elas consequências das trevas que nos rodeiam, e é somente pela misericórdia de Deus que não somos consumidos (Lm 3:22). Minutos atrás em um shopping center, aqui perto do meu trabalho, o Senhor me direcionou a uma senhora de aparência muçulmana, exatamente no momento em que estava no celular, aos prantos, sendo informada do falecimento do seu marido. Embora fôssemos completos estranhos, o Espírito Santo nos envolveu com o seu amor em um momento crítico na sua vida. Comprei-lhe uma água, nos abraçamos e choramos juntos, a consolei e logo a seguir orei por ela e continuei o meu caminho. Não sei o seu nome e tampouco ela o meu, mas este rápido e incomum encontro poderá ter consequências eternas, pois ela ouviu que ministrei e orei por ela em nome de Jesus. Uma coisa é certa, não foi coincidência que tudo isso ocorreu quando estou escrevendo sobre a fome e sede da retidão de Deus neste mundo. Entendi que neste evento Deus quis me lembrar da desesperadora situação do mundo presente. Precisamos urgentemente que a retidão de Deus novamente domine sobre a sua criação, pois só assim todo o sofrimento cessará.

O conforto prometido nesta bem-aventurança é para aqueles que têm fome e sede de retidão. Notemos que Jesus não fez esta promessa para aqueles que simplesmente gostariam, ou prefeririam que este mundo voltasse a ser governado por Deus, não, mas sim para aqueles cuja vontade de retidão divina é equivalente à sua vontade de comer e beber. A fome e a sede são desejos básicos para todo o ser vivente. Na realidade, muito embora o Criador na sua bondade associou o alimento e a água como algo que nos dá prazer, e por isso estamos continuamente desejando pelos dois, o fato é que o comer e o beber não são atividades opcionais, como bem sabemos. Se queremos continuar vivos, simplesmente temos que comer e beber, com ou sem vontade. Basta fazermos uma visita a uma UTI hospitalar que veremos máquinas ligadas aos seres humanos cuja finalidade, além de outras necessidades básicas, é supri-los com alimento e água. Se estas máquinas forem desconectadas e o suprimento for descontinuado, não será possível mantê-los vivos. Foi este o motivo que Jesus nos disse que para que venhamos a experimentar da retidão de Deus na nossa vida teremos que procurá-la no mesmo nível que alguém procura por comida e bebida; uma questão de vida ou morte: “A minha alma se consome de desejo por tuas ordenanças a todo o tempo” (Sl 119:20).

A retidão de Deus é aquilo que Deus é. Assim como Deus é santo (1Jo 2:20), é amor (1Jo 4:8), é luz (1Jo 1:5), Ele também é reto (1Jo 2:29). Quando dizemos que Deus é reto, queremos dizer que Nele não existe o menor desvio da perfeição. Os seus atos são perfeitos em todos os sentidos. Quando Deus fala algo, aquilo que Ele falou é perfeito. Quando Deus faz algo, aquilo que Ele fez é perfeito. A retidão de Deus também se aplica à sua passividade. Ou seja, se Deus não fala algo é porque este algo não reflete a sua perfeição, e, portanto, não será dito; se Deus não faz algo, é porque este algo não condiz com a sua perfeição, e, portanto, não será feito. Apenas aquilo que é perfeito — nada mais e nada menos — provém de Deus. Esta é a sua retidão. Conforme nos disse Davi: “Porque o Senhor é reto; ele ama a retidão; os retos, pois, verão o seu rosto” (Sl 11:7).

Notemos acima que séculos antes do Sermão da Montanha, o rei profetizou a quarta bem-aventurança quando nos disse que os retos verão a Deus. Ver a Deus é o mesmo que estar na sua presença, uma vez que Deus é Espírito (João 4:24). O maior de todos os prazeres existentes no universo é a presença de Deus. Quando Jesus disse que se tivermos fome e sede de retidão seremos fartos, Ele nos disse que teremos da presença de Deus muito além da quantidade necessária para nos manter vivos. Esta palavra: “farto” [χορτάζω (rortazō)], usada por Mateus, nos transmite a ideia de ser alimentado de tal forma que a necessidade de alimento seja completamente satisfeita. Seremos alimentados da retidão de Deus, que é a sua presença, com fartura.

Vale aqui ressaltar que uma diferença entre sermos fartos de alimento físico e de sermos fartos da retidão, ou perfeição, ou presença de Deus, é que quando estamos fartos de comida ou bebida não desejamos mais comer ou beber por um tempo, até que a fome e a sede voltem. No caso da presença de Deus, porém, esta “fome e sede” nunca terminam e sempre queremos mais e mais. Quanto mais recebemos da presença de Deus, que é a sua glória, mais a desejamos e mais a queremos. Este é o motivo que uma das criaturas de Deus considerada mais abençoada são os querubins, porque eles nunca saem da sua presença: “Os quatro seres viventes tinham, cada um, seis asas, e ao redor e por dentro estavam cheios de olhos; e dia e noite, nunca param de dizer: Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus, o Todo-Poderoso, aquele que era, e que é, e que há de vir” (Ap. 4:8. Ver também Ez 10:12-15. Comparar com os Serafins em Is 6:2-3).

Irmãos, já por várias vezes, em vários estudos, deixamos claro que não existe vida à parte de Deus. Deus é a fonte, a única fonte, de onde um ser vivo pode receber a essência da vida. Se Deus, por algum motivo, decidir interromper o acesso que um ser vivente tem a Ele, este ser morre e deixa de existir. Isto significa que tudo aquilo que existe depende de Deus para a sua existência, desde a criatura com mais intimidade com Deus, até o maior dos seus inimigos dependem do Senhor para que continuem existindo. Esta essência de vida que vem de Deus é quantitativa, podendo-se ter muita ou pouca. Sendo Deus a própria vida, aprendemos então que os seres que se distanciam de Deus deixam de viver à medida que esta distância aumenta. Da mesma forma, vivemos cada vez mais à medida que nos aproximamos de Deus. Foi isso o que Jesus quis dizer com as palavras: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em fartura” (João 10:10).

A verdade que acabamos de descrever nos ensina que todas as pessoas que conhecemos possuem da presença de Deus, quer admitam ou não. É irônico pensar que a maioria dos seres humanos ao nosso redor seguem vivendo como se Deus não existisse, quando na realidade não existiriam se não fosse Deus (Sl 14:1). Aqueles, porém, que não só reconhecem que Deus existe, mas que também desejam com anseio a sua retidão, serão alimentados com a sua presença ao ponto de se sentirem fartos.

Queridos, esta fome e sede de retidão de Deus decorre em grande parte porque vivemos em um mundo que rejeita a sua presença. Os anjos no céu não possuem esta carência porque eles estão sempre na presença de Deus. Ou seja, eles sempre experimentam da sua retidão com fartura: “…eu vos digo que os seus anjos nos céus sempre vêm a face de meu Pai, que está nos céus” (Mt 18:10). Quando finalmente o Reino de Deus vier até a nós e a sua vontade for feita aqui na terra como ela atualmente é feita no céu (Mt 6:10), então todos nós, que temos sede e fome de retidão, seremos fartos assim como os anjos no céu, pois viveremos em um mundo onde a perfeição de Deus reinará suprema e onde sempre veremos a face do Senhor. Espero te ver no céu.

Nesta Série de Estudos Bíblicos:
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