🔊 (Parte 8) Serie: O Sermão da Montanha. Estudo Nº 8: As Bem-aventuranças: Bem-aventurados Os Misericordiosos [Com Áudio]

Serie: O Sermão da Montanha. Estudo Nº 8: As Bem-aventuranças: Bem-aventurados Os Misericordiosos [Com Áudio]

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Por Markus DaSilva, Th.D.

Todos nós possuímos uma dívida com o Criador impossível de ser paga por nós mesmos, que é a dívida da vida (Gn 2:7). Todos nós, através do nosso pai, Adão, nos rebelamos contra Jesus, o autor da vida (At 3:15) e como consequência, esta vida que nos foi dada está sendo paulatinamente retirada de nós. Todos nós, reconhecendo ou não, estamos morrendo. Na realidade, todos nós começamos a morrer assim que nascemos. As almas que direta ou indiretamente rejeitaram a Jesus carregarão esta dívida por toda a eternidade, seguirão da mesma forma que estão atualmente, sempre perdendo vida, mas nunca ficando completamente sem ela; sempre morrendo e nunca completamente mortos, pois não existe fim para aquilo que é eterno. As almas que aceitaram o Messias enviado do Pai e demonstram isso através da obediência ao Filho (João 14:21), no entanto, terão a sua dívida quitada pelo sangue do Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo (João 1:29), e seguirão recebendo cada vez mais da vida (João 10:10). Ou seja, um grupo seguirá com a dívida e perdendo a vida e o outro seguirá sem a dívida e recebendo mais da vida: “E estes irão para o castigo eterno [Gr. αἰώνιος (aiónios)], mas os justos para a vida eterna [Gr. αἰώνιος (aiónios)]” (Mt 25:46). Notemos que Jesus utilizou a mesma palavra (aiónios) para definir o caráter eterno, tanto para quem recebe mais da vida quanto para quem a perde. Jesus foi ainda mais específico quanto ao receber e perder quando nos disse: “Porque a todo o que tem, dar-se-lhe-á, e terá em abundância; mas ao que não tem, até aquilo que tem ser-lhe-á tirado” (Mt 25:29). Depois de cerca de seis mil anos de pecado, temos pouco da vida original que nos foi dada, mas até este pouco será retirado do ímpio e do falso cristão: “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus… Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que desobedeceis à lei!” (Mt 7:21-23) [Gr. αποχωρειτε απ εμου οι εργαζομενοι την ανομιαν (Trad. Lit. afastem-se de mim aqueles atuando sem lei)].

“Assim como Jesus puxou ao Pai na demonstração de misericórdia para conosco, da mesma forma, devemos puxar a Jesus na demonstração de misericórdia para com os nossos irmãos.”

Salvação é pela misericórdia de Deus. Basta qualquer cristão adulto recordar com vergonha aquilo que ele era e fazia no passado para que reconheça com imensa gratidão a misericórdia de Deus na sua vida: “Assim, pois, isto não depende do querer, nem do esforço, mas de Deus que usa da sua misericórdia” (Ro 9:16). É somente pela misericórdia de Deus que hoje estamos rejeitando os desejos da carne e procurando viver em obediência aos desejos do Pai. Ou seja, se não fosse pela misericórdia de Deus, todos nós estaríamos imersos nas mais profundas das trevas: perdidos, cegos e praticando os mais horríveis dos pecados (1Jo 2:11). Sempre devemos ter essa verdade em mente quando começamos a julgar as pessoas, pois não existe nenhum pecado, por mais abominável que seja, que qualquer um de nós não seja capaz de praticar se Deus retirar de nós a sua presença. Este foi o erro do Fariseu na parábola de Jesus: “…não sou como os demais homens, roubadores, injustos, adúlteros, nem ainda como este publicano” (Lc 18:11).

Nesta quinta bem-aventurança do Sermão da Montanha, Jesus nos diz que se queremos alcançar a misericórdia de Deus quando deixarmos este mundo teremos que estender esta mesma misericórdia para as outras pessoas aqui mesmo, enquanto estamos todos juntos neste vale de lágrimas: “Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia” (Mt 5:7). Mateus aqui usou o verbo grego: “ter misericórdia” [ἐλεέω (eleeō)], no futuro do indicativo [ἐλεηθήσονται (eleēthēsontai)], significando não a misericórdia já recebida no passado, ou aquela que recebemos todos os dias, mas sim a misericórdia da salvação que todos nós precisaremos no juízo final: “E vi os mortos, grandes e pequenos, em pé diante do trono; e abriram-se uns livros; e abriu-se outro livro, que é o da vida; e os mortos foram julgados pelas coisas que estavam escritas nos livros, segundo as suas obras” (Ap 20:12). Notemos que nesta visão do final dos tempos, o plural: “pelas coisas que estavam escritas nos livros” é usado, o que indica que tudo aquilo que fizemos enquanto vivos será considerado no veredito que cada um receberá. Quando lembramos de todas as coisas que fizemos durante os anos que passamos aqui na terra, concluímos que definitivamente precisaremos de alcançar a misericórdia de Deus naquele grande dia.

Nesta bem-aventurança, a promessa de Jesus está especificamente ligada à reciprocidade. Ou seja, Deus será misericordioso conosco apenas se antes formos misericordiosos com os outros: “Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia” (Mt 5:7). Esta é uma promessa condicional assim como a promessa do perdão dos nossos pecados: “Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celestial vos perdoará a vós; se, porém, não perdoardes aos homens, tampouco vosso Pai perdoará vossas ofensas” (Mt 6:14-15).

O mandamento de Jesus nos diz que teremos que ser pessoas misericordiosas se queremos alcançar a misericórdia de Deus. A palavra usada no grego [ἐλεήμων (elimōn)] é um adjetivo, significando que ter misericórdia das pessoas deve passar a ser uma qualidade característica do nosso viver. Devemos desenvolver este dom de tal forma que nem pensaremos muito quando observarmos que alguém necessita de misericórdia, simplesmente atuaremos com misericórdia como algo natural para nós. Muitos, incluindo os descrentes, podem até praticar um ato de misericórdia a alguém ocasionalmente, geralmente para se exibirem ou para se ver livre de uma situação incômoda. Jesus, porém, não está se referindo a atos de misericórdias isolados, mas sim a uma contínua atitude de se incomodar com o sofrimento alheio e desejar o bem de todos, sempre disposto a entender e perdoar.

Ninguém jamais será misericordioso como Jesus, portanto Ele é o nosso inigualável exemplo a ser seguido. Apenas pelo fato de Jesus ter vindo a este mundo e se sujeitar a tudo aquilo que sujeitou, já demonstra o nível superior de misericórdia que encontramos apenas nele. Não devemos de forma alguma nos surpreender com o fato de Jesus ser tão misericordioso, todavia, pois como diz o antigo ditado: “tal pai, tal filho”. Ou seja, Jesus teve a quem puxar: “Respondeu-lhe Jesus: Há tanto tempo que estou convosco, e ainda não me conheces, Felipe? Quem viu a mim, viu o Pai” (João 14:9). E em outro lugar: “O Filho de si mesmo nada pode fazer, senão o que vir o Pai fazer; porque tudo quanto ele faz, o Filho o faz igualmente” (João 5:19).

A misericórdia de Deus é um dos seus maravilhosos atributos, conforme anunciado no Sinai com Moisés: “Tendo o Senhor passado perante Moisés, proclamou: Jeová, Jeová, Deus misericordioso e compassivo, tardio em irar-se e grande em bondade e verdade; que demonstra o seu amor para com milhares; que perdoa a iniquidade, a transgressão e o pecado” (Ex 34:5-7). Assim como Jesus puxou ao Pai na demonstração de misericórdia para conosco, da mesma forma, devemos puxar a Jesus na demonstração de misericórdia para com os nossos irmãos. Esta é a condição para que alcancemos a misericórdia final, que é o perdão dos nossos pecados (Ver Mt 6:14-15).

Misericórdia está intimamente ligada ao amor. Apenas quem ama pode demonstrar genuína misericórdia. Uma grande característica do amor é a empatia: o ato de se identificar com alguém e sofrer quando este alguém sofre. O misericordioso a quem Jesus se refere se identifica tanto com o sofrimento dos outros que está disposto a sofrer para que o seu irmão não sofra. Mais uma vez, lembremos do nosso grande exemplo: “Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e esmagado por causa das nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados” (Is 53:5). O apóstolo João foi ainda mais detalhado quanto à como devemos seguir o exemplo de Jesus: “Nisto conhecemos o amor: que Cristo deu a sua vida por nós; e nós devemos dar a vida pelos irmãos” (1Jo 3:16).

Conforme já mencionado na série anterior sobre a obediência a Jesus, estas palavras de Cristo não nos foram dadas como uma sugestão ou conselho, mas sim como um mandamento, com a sua devida consequência caso seja desobedecido. Se o cristão decidir ignorar estas palavras e simplesmente não amar e ser misericordioso para com o seu semelhante, então é inadmissível que ele espere que mesmo assim será recebido com braços abertos pelo Pai nas mansões celestiais. A ideia de que Deus, por causa da sua infinita bondade, não levará em consideração os atos de desobediência daqueles que se autodenominam cristãos, não possui o menor respaldo nas palavras de Jesus.

Infelizmente, esta não é uma verdade muito bem-vista pelos cristãos nestes últimos dias. A igreja moderna detesta as palavras que saíram dos lábios de Jesus porque elas impõem condições para a salvação. A igreja moderna prefere crer no falso evangelho que ensina não ser necessário obedecer nem ao Filho, nem ao Pai, para ser salvo. Este ensino do anticristo, será motivo de grande desespero no juízo final, quando milhares e milhares de pessoas se encontrarão fase a fase com o Grande Juiz. Se procurarem pelo apoio e conforto dos seus líderes, procurarão em vão, pois naquele dia cada um terá que dar contas das suas próprias decisões e jogos de culpas não funciona com aquele que conhece os segredos do coração (Sl 44:21).

Queridos. Deixe-me concluir este estudo sobre a quinta bem-aventurança do Sermão da Montanha lembrando que a vida cristã é uma vida de fé e parte da fé é agir contrário aos nossos desejos. Se o cristão esperar que a vontade de obedecer aos ensinos de Jesus surja no coração para só assim obedecer, ele nunca obedecerá e nunca crescerá na fé e na intimidade com o Senhor. Ou seja, devemos ser misericordiosos com as pessoas, quer tenhamos vontade ou não. Deixe-me também lhes dar uma informação muito desagradável que é o fato de que Jesus espera que demonstremos amor e misericórdia a todos, incluindo aqueles que segundo o nosso entendimento não merecem. Lembrando sempre que a misericórdia que Deus nos demonstrou, ocorreu quando ainda estávamos perdidos nas nossas ofensas e nada fazíamos por merecer: “Mas Deus dá prova do seu amor para conosco, em que, quando éramos ainda pecadores, Cristo morreu por nós” (Ro 5:8). Espero te ver no céu.

Nesta Série de Estudos Bíblicos:
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