Série: A Lei de Deus: Estudo Nº 7: A Classificação das Leis de Deus: Leis Cerimoniais

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Estudo Bíblico: A Lei de Deus: Estudo Nº 7: A Classificação das Leis de Deus: Leis Cerimoniais, Regulamentos e Instruções.

Por Markus DaSilva, Th.D.

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e todos os estudos desta série sobre a lei de Deus, possivelmente este foi o mais difícil e complexo de escrever. Foram necessárias muitas orações e pesquisa para saber exatamente como descrever as leis cerimoniais de Deus, especialmente em se tratando da aplicação destas leis entre os cristãos dos nossos dias.

“As exigências do templo físico em Jerusalém e da genealogia levita comprovada, torna impossível qualquer pessoa se beneficiar das leis cerimoniais de Deus nos nossos dias.”

Se vamos escrever sobre as leis cerimoniais e seus regulamentos e instruções, é bom que entendamos do que se tratam, pois existem muitos ensinos errados e tendenciosos sobre este tema. Embora a expressão “lei cerimonial” não se encontra nas Escrituras Sagradas, o termo é frequentemente usado em todos os seminários cristãos, tanto católicos como evangélicos, e normalmente focam nos vários sacrifícios que ocorriam dentro do templo de Jerusalém. Devemos esclarecer, no entanto, que na sua aplicação prática este tipo de lei, regulamento ou instrução, se refere a tudo aquilo que Deus exige algum tipo de ação física por parte dos seus filhos. Ainda que um grande número das leis cerimoniais ocorria no templo e requeria a participação dos sacerdotes levitas, muitas outras interações do homem e Deus podem e devem ser feitas pelo próprio homem, sem templo e sem sacerdote. O sábado, por exemplo, é uma lei que se cumpre no físico, sem a necessidade do templo de Jerusalém e sem os sacerdotes. O mesmo ocorre com o regulamento da santa ceia estabelecida por Jesus e observada por todos os cristãos (Luc 22:18-20; 1Cor 11:23-25).

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As Várias Funções das Leis Cerimoniais

Um outro ponto importante é que nem toda a lei cerimonial possui o mesmo objetivo. Ou seja, cada lei cerimonial nos ensina a maneira estipulada por Deus para se obter algo do Criador, o que pode variar dependendo da situação de cada um. Nenhuma cerimônia estipulada nas Escrituras é feita a troca do nada. Muito pelo contrário, Deus estipulou estas cerimônias especificamente para prover uma maneira de comunicação entre o mundo físico e espiritual. Já que somos seres físicos e no momento não temos acesso ao mundo espiritual, Deus criou uma espécie de ponte para conectar os dois mundos, que são as cerimônias. Esta verdade poder ser claramente confirmada bem antes de Moisés e o santuário, quando Noé ofereceu um sacrifício de agradecimento a Deus: “O Senhor sentiu o aroma agradável e disse a si mesmo: “Nunca mais amaldiçoarei a terra por causa do homem, pois o seu coração é inteiramente inclinado para o mal desde a infância. E nunca mais destruirei todos os seres vivos como fiz desta vez” (Gen 8:21). Obviamente, não foi o mero cheiro de carne queimada que agradou ao Criador de tudo o que existe, mas sim o fato do homem, um ser racional, ter erigido um altar e ali ter sacrificado um animal para expressar o seu agradecimento. Noé seguiu as instruções de Deus e fez algo no físico para expor aquilo que existia apenas no seu coração (Sal 116:17). Este é o propósito de toda a lei cerimonial.

Ao lermos sobre as várias interações entre os israelitas e o templo, notamos uma grande variedade de cerimônias, como a comprovação de uma cura (Lev 14:2; Mat 8:4), a parte final de um voto (Lev 27:1-13; Atos 21:26), o perdão de pecados não intencionais (Lev 4:31), o perdão de pecados conscientes (Num 5:5-8), a purificação da mulher pós-parto (Lev 12:6; Luc 2:22), e muitas outras.

Vemos então que parte destas cerimônias lidam com o requerimento de santidade para que a pessoa não seja expulsa da comunidade separada por Deus. Nesta categoria de leis, certos eventos do cotidiano fazem com que a pessoa se contamine e por isso não poderia estar fisicamente próxima ao templo de Deus até que ela se submetesse ao ritual de purificação. Entre estes eventos as Escrituras mencionam o contato com certos animais mortos (Lev 5:2), o contato com defuntos (Num 19:11), o parto (Lev 12:6-8), e vários outros. Todos os eventos que requerem um processo de purificação para a aproximação a Deus têm a ver com a entrada do pecado na terra. Por exemplo, se não houvesse pecado não haveria animais imundos, ou defuntos e provavelmente o processo de dar à luz seria de tal forma a não causar qualquer tipo de impureza ou sofrimento para a mulher (Gen 3:16). A presença de Deus no tabernáculo e no templo era a principal razão que era requerido dos israelitas um nível de santidade (pureza) bem diferente das nações vizinhas: “assim, vocês separarão os filhos de Israel das suas impurezas, para que não morram nelas, ao contaminarem o meu tabernáculo, que está no meio deles” (Lev 15:31).

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Outra parte das cerimônias lidam com o agradecimento, a procura de bênçãos e a proteção de Deus (Lev 7:12-16). Lembrando que as cerimônias por si só nunca produzem o resultado positivo esperado, pois são apenas um dos passos estipulados por Deus para resolver as várias dificuldades que o ser humano tem que passar neste mundo envolto pelo pecado. É por isso que frequentemente ouvimos os profetas alertando o povo que não deveriam imaginar que tudo o que Deus exige de nós são cerimônias. Mais importante que qualquer cerimônia é o homem possuir uma vida voltada exclusivamente para agradar ao Senhor em tudo aquilo que faz: “Pois não te agradas de sacrifícios; se fosse o caso, eu os ofereceria; e não tens prazer em holocaustos. O sacrifício agradável a Deus é o espírito quebrantado. Um coração quebrantado e contrito, não o desprezarás, ó Deus” (Sal 51:16–17).

A Impossibilidade de se Cumprir Leis Cerimoniais Ligadas ao Templo

Muitas leis cerimoniais, seus regulamentos e instruções possuem conexão com o serviço sacerdotal do tabernáculo no deserto e posteriormente do templo em Jerusalém. Nem toda a lei de Deus, todavia, exige cerimônias, mas aquelas que exigem precisam do templo para serem cumpridas. Antes da construção do tabernáculo, logo após Moisés ter recebido as instruções de Deus no monte Sinai, já existiam leis cerimoniais, conforme mencionamos no estudo anterior. A diferença é que apenas a partir do Sinai foi que Deus estipulou um local específico para que as cerimônias ocorressem (Deut 12:11; 1Re 9:3). Deus também designou a tribo de Levi como a única tribo autorizada a trabalhar na obra do templo (2Cro 23:6), sendo que dos levitas, apenas os descendentes de Arão, poderiam exercer a função de sacerdotes (Lev 6:18; Num 18:8).

As exigências do templo físico em Jerusalém e da genealogia levita comprovada, torna impossível qualquer pessoa se beneficiar das leis cerimoniais de Deus nos nossos dias. Como é amplamente conhecido, no ano 70 d.C., o templo foi destruído pelo comandante Tito das tropas romanas e junto com o templo também desapareceram todos os livros da genealogia judaica guardados nos seus arquivos, inviabilizando assim qualquer reivindicação de linhagem sacerdotal por parte de qualquer judeu. Ou seja, sem templo e sem sacerdote é irrelevante e irreal qualquer acusação de que nenhum cristão obedece toda a lei de Deus. O verdadeiro servo do Senhor obedece toda a lei que lhe for aplicável e que lhe for possível obedecer, assim como Jesus o fez enquanto esteve conosco. “Se obedecerdes [Gr. τηρέω (tiréo) v. guardar, vigiar, manter, preservar] aos meus mandamentos [Gr. εντολή (endolí) s.f. ordem, comando, regra, mandamento], permanecereis [Gr. μένω (meno) v. permanecer, ficar, continuar] no meu amor [Gr. αγάπη (agape) s.f. amor]; do mesmo modo que eu obedeço aos mandamentos de meu Pai, e permaneço no seu amor” (João 15:10)

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Quanto à dúvida que naturalmente segue sobre como os cristãos do presente deveriam viver caso o templo e os sacerdotes ainda existissem, ninguém possui sequer o início de uma resposta. Além de especulativa, esta seria uma resposta completamente sem base bíblica e ilógica. A destruição do templo não pegou a Deus de surpresa e já por cerca de 2000 anos o Criador intencionalmente eliminou a possibilidade do cumprimento de qualquer lei que envolve o templo e o sacerdócio levítico. Na realidade, o próprio Jesus nos alertou sobre o que ocorreria com o templo pouco tempo depois do seu retorno ao Pai: “E, respondendo Jesus, disse-lhe: Vês estes grandes edifícios? Não ficará pedra sobre pedra que não seja derrubada” (Mar 13:2).

Devemos lembrar, no entanto, que enquanto o templo existia Jesus nem de longe deu a entender que o seu nascimento ou morte poria um fim na necessidade da obediência às leis cerimoniais que eram efetuadas pelos sacerdotes no templo de Jerusalém. Contrário ao que se ensina em muitas igrejas, Jesus claramente confirmou que o templo era o local onde Deus se encontrava e que todas as cerimônias que lá ocorriam estavam de acordo com os ensinos do seu Pai, independentemente dos erros cometidos pelos líderes judeus dentro do templo: “E entrou Jesus no templo de Deus, e expulsou todos os que vendiam e compravam no templo, e derrubou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas. E disse-lhes: ‘está escrito: a minha casa será chamada casa de oração, mas vós a tendes convertido em covil de ladrões”’ (Mat 21:12–13. Ver também Mat 17:24-27). A realidade é que mesmo querendo, no momento nem judeus nem cristãos têm como dar prosseguimento ao sistema sacrificial no templo de Jerusalém.

Jesus e o Templo Após a Cruz

Ao lermos os evangelhos e o livro de Atos podemos ver claramente que a crucificação, ressurreição e ascensão de Cristo não colocou um fim no serviço do templo e em nenhuma das leis de Deus, incluindo as leis cerimoniais. Logo após Jesus retornar aos céus, os seguidores de Jesus seguiram com a mesma rotina religiosa que mantiam enquanto o seu Mestre estava fisicamente com eles: observavam a páscoa, pentecostes e demais festivais judaicos (Atos 20:16, 1Cor 5:8), guardavam o sétimo dia (Atos 16:13), faziam votos (Atos 18:18, Atos 21:26), etc. Não havia nenhuma razão para fazerem qualquer coisa diferente, pois Jesus nunca lhes disse que o processo de salvação envolvia qualquer mudança nas leis de Deus (Mat 5:18). De fato, quando lemos as últimas instruções de Cristo aos fiéis, minutos antes de subir ao Pai, não vemos nada sobre parar de ir ao templo, ou não mais obedecer a qualquer uma das leis do Pai que eram obedecidas desde Adão. Da ascensão do Messias até a destruição de Jerusalém, os seguidores de Jesus ainda puderam se beneficiar normalmente das leis cerimoniais ligadas ao sacerdócio levita no templo.

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Irmãos, seguiremos abordando este importantíssimo tema no decorrer desta série. Jesus e a lei são as duas coisas mais preciosas aos olhos do Pai. Jesus repetidamente nos alertou quanto à necessidade de vivermos em completa obediência ao Pai, da mesma forma que Ele o fazia durante o período que esteve fisicamente conosco. O indivíduo que imagina que no juízo final será considerado inocente mesmo ignorando a lei de Deus está se baseando em um evangelho diferente do evangelho pregado por Jesus. A ideia que prevalece no meio cristão de que a salvação ocorrerá ainda que a lei de Deus não seja obedecida não passa de uma criação de Satanás e adotada com alegria por praticamente todas as igrejas.

Já disse e volto a dizer, toda a lei que nos for possível obedecer deverá ser obedecida. As leis cerimoniais que requerem o templo em Jerusalém e os descendentes biológicos de Levi não temos como obedecer, mas estas constituem apenas parte das leis de Deus. O alerta foi dado. Que isto fique bem claro para todos aqueles que o Senhor enviar a estes estudos.