A Graça, a Obediência e a Salvação (Parte 1) – Graça: Uma Breve Introdução No Uso Da Palavra

A Graça, a Obediência e a Salvação (Parte 1) - Graça: Uma Breve Introdução No Uso Da Palavra - Markus DaSilva

Por Markus DaSilva, Th.D.

Já faz um tempo que tenho desejado escrever uma série sobre a graça e creio que este é o momento. A graça tem sido um dos pontos do cristianismo mais usado e abusado nestes últimos dias. Parte desse abuso tem a ver com a falta de conhecimento do povo sobre o assunto (Os 4:6a). Conhecimento este que deveria vir dos púlpitos e das escolas bíblicas, mas que infelizmente não ocorre. A outra parte está ligada à nossa propensão natural de resistir às instruções de Deus quando elas nos apontam para um caminho diferente daquele que queremos seguir. Procurarei nesta série, com a ajuda do Senhor, explicar para o benefício dos nossos leitores, o que a Palavra de Deus realmente nos ensina sobre a graça, e no processo, eliminar sérios equívocos quanto a como a graça se aplica ao nosso viver como um povo separado e destinado ao Reino de Deus (1Pe 2:9).

PARTE 1 —  Graça, Uma Breve Introdução No Uso Da Palavra.

Primeiro, vamos explorar rapidamente a parte etimológica da palavra graça. Esta é uma daquelas palavras com vários usos, mas todos eles relacionados. Tanto no hebraico (חֵן – chen) como no grego (χαρις – charis), a ideia que parece dominar é a de uma bondade concedida a um ser quando ele agrada a um outro ser. Tanto agradar a um outro ser humano como agradar a Deus. Alguns exemplos do uso da palavra entre seres humanos: Ester e o Rei Xerxes (Et 5:2); Davi e Jônatas (1Sm 20:3a); Rute e Boaz (Rt 2:10); os primeiros cristãos e o povo (At 2:47); Rei Félix e os Judeus (At 24:27); Rei Festo e os Judeus (At 25:9). Alguns exemplos entre Deus e os seres humanos: Deus e Noé (Gn 6:8); Deus e Ló (Gn 19:19); Deus e Moisés (Êx 33:12); Deus e Maria (Lc 1:30); Deus e os salvos (Ef 2:8-9); Deus e Jesus na sua infância (Lc 2:40); Deus e Jesus em toda a sua vida como homem (Jo 1:14). Como se pode ver nesses poucos exemplos, o uso da palavra graça está muito ligado ao fato de haver algo em quem precisa de um bem que agrada àquele que está em posição de conceder o bem.

“Qual seria a lógica de termos em mãos as instruções de Deus se o Senhor não espera obediência para nos dar a salvação?”

Quando Lucas nos diz que Jesus crescia em sabedoria e que a graça de Deus estava sobre ele (Lc 2:40), obviamente, não está dizendo que os favores imerecidos de Deus estavam sobre Cristo, pois sabemos que Jesus “não cometeu pecado, nem na sua boca se achou engano” (1Pe 2:22). Jesus certamente mais do que mereceu a graça de Deus. Algo que sabemos, sem sombras de dúvidas, é que em tudo ele “agradou” ao Pai (Jo 8:29). Podemos ver assim, que a palavra “agradar” ou “gostar” ou ainda “satisfazer” tem muito mais a ver com graça do que “favor imerecido”. Um outro exemplo que se vê claramente que a ideia de favor imerecido não é uma boa definição é quando ambos, Pedro e Tiago, citam o provérbio: “Deus se opõe aos orgulhosos, mas dará graça aos humildes” (1Pe 5:5; Tg 4:6; Pv 3:34). Como pode Deus conceder um “favor imerecido” àquele que já é humilde? Não é exatamente pelo fato dele ter algo que agrada a Deus, a humildade, que o Senhor está lhe concedendo graça? (Tg 4:10). Se for para ser imerecido o orgulhoso é que deveria receber da graça de Deus, pois para o orgulhoso seria “mais imerecido” do que para o humilde.

Escrevendo à igreja de Roma, Paulo antecipou que muitos aproveitariam dos seus comentários sobre a graça para o abuso, e que chegariam à conclusão errada que, já que nada temos que fazer para merecer os favores de Deus, seria mais vantajoso desconsiderar a santidade e continuar se apegando aos prazeres do mundo, pois assim o fazendo não haveria nenhum mérito em nós e receberíamos mais da graça de Deus: “Que diremos, então? Permaneceremos no pecado, para que a graça aumente? De modo nenhum! Nós que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele?” (Ro 6:1-2).

Existe uma outra palavra corretamente usada como favor imerecido que é a palavra misericórdia [demonstrar compaixão, ou poupar de um castigo] (Hebraico: חֶמְלַת – chemlah e também: חָמַל – chamal e Grego: ἔλεος – eleos). Para não tomar muito espaço, aqui estão apenas dois exemplos de uso no hebraico: Is 63:9; Êx 2:6 e dois no grego, ambos de Paulo: Ro 11:31; Tt 3:5.

Queridos, tenho muito o que lhes escrever sobre a graça e o Senhor permitindo assim o farei. Deixe-me concluir esta primeira parte os exortando a se apegarem à Palavra de Deus e não aos ensinos de homens, pois é confiando em homens que muitos se perderão (Jr 17:5). A ideia prevalente nos nossos dias que seremos salvos sem que façamos nada para recebemos do Senhor a vida eterna não procede das escrituras, mas sim da imaginação do homem carnal. Não procede e nem faz o menor sentido, pois qual seria a lógica de termos em mãos as instruções de Deus (2Tm 3:16) se o Senhor não espera obediência para nos dar a salvação? “Aquele que diz: Eu o conheço, mas não guarda os seus mandamentos é mentiroso, e nele não está a verdade” (1Jo 2:4). Espero te ver no céu.

Antes de terminar, para que não haja nenhum mal-entendido, deixe-me fazer duas perguntas e respondê-las.

Pergunta: Somos salvos pelos nossos próprios méritos?
Resposta: Não, categoricamente não (Ro 3:23). Somos salvos apenas pelos méritos de Jesus (Ro 5:19).

Pergunta: Precisamos fazer algo para sermos salvos?
Resposta: Sim, precisamos crer e obedecer. Não existe salvação para quem não crê (Jo 3:16) e para quem não obedece (1Jo 5:3; Jo 14:15).

Nesta série: