🔊 (Parte 9) Serie: Orando o Pai Nosso Com Poder. Estudo Nº 9: Não nos Deixes Cair em Tentação [Com Áudio]

Foto de uma moca andando na praia. (PARTE 9) SERIE: ORANDO O PAI NOSSO COM PODER. ESTUDO Nº 9: NÃO NOS DEIXES CAIR EM TENTAÇÃO [COM ÁUDIO]Markus DaSilva

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Por Markus DaSilva, Th.D.

Dando sequência a esta série sobre o Pai Nosso, entraremos agora no pedido que fazemos a Deus relacionado, não aos pecados cometidos no passado, o que já abordamos nos dois últimos estudos, mas sim àqueles que precisamos da sua intervenção para que não venham a ser cometidos: “e não nos deixes cair em tentação” (Mt 6:13; Lc 11:4). Neste pedido confessamos a Deus quem somos. Reconhecemos perante o Senhor a nossa total dependência da sua misericórdia para mantermos uma vida agradável aos seus olhos: “Lembra-te agora, ó Senhor, te peço, de como tenho andado diante de ti em verdade, e com um coração perfeito, e de como tenho feito o que é agradável aos teus olhos; e Ezequias chorou bastante” (2Rs 20:3).

“Todo o sofrimento que o Senhor permite que os seus filhos passem nestes poucos anos que vivemos na terra tem como meta o nosso desenvolvimento espiritual”

Acabamos de reconhecer as nossas fraquezas e lhe prometemos que cumpriremos a nossa parte de perdoar aqueles que nos ofendem para que assim Ele também perdoe a nós. Somos honestos, porém, e deixamos claro para o nosso Pai que ele terá que intervir no dia de amanhã, para que estes mesmos pecados, e possivelmente outros mais, não venham a ser cometidos.

O original grego da frase deste estudo: “e não nos deixes cair em tentação”, e do estudo seguinte: “mas livra-nos do mal” (Mt 6:13), deixam margens para algumas variações nas traduções, mas estas variações, se usado um pouco de lógica contextual, não apresentam nenhum problema teológico e podemos muito bem aceitar as diferentes versões da Bíblia e mesmo assim sermos consistentes com os ensinos de Jesus. Se Deus nos permitir, lidaremos com a segunda parte do verso no próximo estudo, mas aqui falaremos apenas da primeira parte, que aborda o significado e a implicação de pedirmos ao Senhor que não nos deixes cair em tentação.

A palavra “tentação” no grego também pode ser traduzida como “provação”, e a utilização da palavra correta nas traduções depende então em grande parte do contexto e em menor grau do entendimento teológico do tradutor: [Gr. και μη εισενεγκης ημας εις πειρασμον (kai mē eisenenkēs hēmas eis peirasmon) Trad. Lit. e não (guia/entra/leva) nós (em/para/em direção a) (tentação/provação/teste)]. Vemos aqui que além da tradução mais comum que é: “e não nos deixes cair em tentação”, o grego também permite que se leia: “e não nos leve à provação” ou simplesmente: “não nos testes”. Obviamente, a grande diferença entre as duas possibilidades é que se usarmos “provação” estamos então nos referindo ao próprio Senhor e pedindo que ele não teste a nossa fé. Por outro lado, se usarmos “tentação” estamos então nos referindo à Satanás, uma vez que a Palavra é clara que Deus não tenta as pessoas: “Ninguém, sendo tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele a ninguém tenta” (Tg 1:13).

Expandindo um pouco mais as duas possibilidades, se pedimos que Deus não nos deixe cairmos em tentação, estamos já prevendo que iremos ser atacados pelas forças do mal e de que não nos sentimos suficientemente fortes para resistir aos seus ataques por nós mesmos. Este entendimento possui o respaldo de várias outras passagens na Bíblia, incluindo as palavras do próprio Jesus: “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca” (Mt 26:41. Ver também: Jo 17:15; 1Co 10:13; 2Ts 3:3). Muito embora na referência acima a mesma palavra [Gr. πειρασμος (peirasmos)] é usada por Cristo, e também poderia ser traduzida como provação ou teste no contexto do Getsêmani, o fato de Jesus ter iniciado o alerta com o verbo “vigiar” [Gr. γρηγορέω (grēgoreō)], torna-se bem mais possível que o Senhor se referiu às tentações e não às provações. Este mesmo verbo foi usado por Pedro em uma clara referência às tentações de Satanás: “Estejam alertas, vigiai (grēgoreō). O vosso adversário, o Diabo, anda ao redor, rugindo como leão, e procurando a quem possa devorar” (1Pe 5:8).

Se por outro lado, entendemos que na oração do Pai Nosso nós estamos pedindo que o Senhor não nos leve a passar por provações, estamos então confessando a Deus que não nos sentimos preparados para sermos testados por Ele e que gostaríamos que fôssemos poupados de tal experiência. Esta possibilidade de tradução encontra o seu maior apoio no uso do verbo [Gr. εἰσφέρω (eispherō)] cuja correta tradução é “levar”, “trazer”, “entrar”, “guiar”, “conduzir” e não “deixar” como várias versões da Bíblia utilizam na frase: “não nos ‘deixes’ cair em tentação”. Ou seja, se é Deus quem nos conduz, então o correto é que Ele está nos levando a uma provação e não a uma tentação (Ver referência a Tiago 1:13 acima). Se de fato Mateus e Lucas tivessem entendido que Jesus disse “não nos ‘deixes’ cair”, eles poderiam ter usado tanto o verbo [Gr. ἐπιτρέπω (epitrepō)] Lc 9:61, como também o verbo [Gr. ἀφίημι (aphiēmi)] Mt 5:40, mas não o fizeram, preferindo o verbo levar [Gr. εἰσφέρω (eispherō)]. Corretamente traduzido como levar, trazer ou conduzir em Lucas 12:11, Atos 17:20 e Hebreus 13:11. Neste caso, se escolhermos “provação” em vez de “tentação”, a tradução mais correta seria: “e não nos conduza à provação”. “Provação”, em vez de “tentação”, foi a preferência dos tradutores da versão Good News (Boas Novas) da American Bible Society, mas eles foram praticamente os únicos. Várias outras versões, no entanto, utilizam de nota de rodapé para uma tradução alternativa.

Deixando de lado a etimologia desta parte do Pai Nosso, a realidade é que ambas as opções estão corretas, pois nenhuma tentação nos ocorre sem que Deus permita que ocorra. Podemos confirmar esta verdade em várias passagens nas Escrituras, como, por exemplo, na experiência de Jó. Em toda o relato bíblico deste nosso irmão, fica claro que Satanás foi o instrumento utilizado por Deus para que Jó passasse por uma forte provação, e assim servisse como um exemplo de fé, confiança e persistência para os milhares de servos de Deus que assim como ele teriam que passar por todos os tipos de sofrimentos nas gerações que seguiriam. No conhecido diálogo entre Deus e Satanás, logo após o Senhor ter expressado a sua satisfação com o seu servo, o inimigo pediu a Deus que lhe fora permitido tentá-lo para assim averiguar se Jó realmente era tão fiel como Deus dizia ser: “Então respondeu Satanás ao Senhor, e disse: Porventura Jó teme a Deus à toa? Não o tens protegido de todo lado… Mas estende agora a tua mão, e toca-lhe em tudo quanto tem, e ele blasfemará de ti na tua face! Ao que disse o Senhor a Satanás: Eis que tudo o que ele tem está no teu poder; somente contra ele não estendas a tua mão. E Satanás saiu da presença do Senhor” (Jó 1:9-12).

Observemos que foi Deus quem fez referência a Jó no diálogo com Satanás, o que nos indica claramente que o Senhor tinha um propósito já determinado para tudo o que viria a ocorrer com o seu servo: “Disse o Senhor a Satanás: Notaste porventura o meu servo Jó, que ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, que teme a Deus e se desvia do mal?” (Jó 1:8). Vemos também esta permissão que Deus dá às forças do mal para tentar aos homens no caso do rei Acabe, quando um espírito de falsidade pediu permissão a Deus para influenciar o rei e seus profetas a crerem em uma mentira: “Então saiu um espírito, apresentou-se diante do Senhor, e disse: Eu o enganarei. E o Senhor lhe perguntou: De que modo? Respondeu ele: Eu sairei, e serei um espírito mentiroso na boca de todos os seus profetas. Ao que disse o Senhor: Tu és capaz de enganar o rei, vá e faça isto” (1Rs 22:21-22). Mas, certamente o nosso maior exemplo na Bíblia de que Deus usa o inimigo para atingir os seus objetivos foi quando Jesus foi levado pelo próprio Senhor ao deserto para ser tentado, ou provado [Gr. πειρασμος (peirasmos)]: “Então foi conduzido Jesus pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo Diabo” (Mt 4:1).

É importante deixar claro que nem todos os testes a que o Senhor nos expõe, Satanás é usado. Muitas vezes o Senhor nos prova, ele mesmo, para que a nossa fé e confiança nele se fortaleçam. Um grande exemplo desta verdade ocorreu com Abraão: “Sucedeu, depois destas coisas, que Deus provou a Abraão, dizendo-lhe: Abraão! E este respondeu: Eis-me aqui. Prosseguiu Deus: Toma agora teu filho; o teu único filho, Isaque, a quem amas; vai à terra de Moriá, e oferece-o ali em holocausto…” (Gn 22:1-2). O autor de Hebreus confirma a intenção de Deus em provar e solidificar a fé de Abraão: “Pela fé Abraão, sendo provado, ofereceu Isaque; sim, ia oferecendo o seu unigênito… julgando que Deus era poderoso para até dos mortos o ressuscitar” (Heb 11:17-19).

A diferença entre uma provação, que parte de Deus, e uma tentação, que parte de Satanás e suas hostes, está no seu propósito. Do ponto de vista do inimigo, o seu objetivo é sempre a nossa destruição, enquanto na perspectiva de Deus o objetivo é sempre o crescimento dos seus filhos. Todo o sofrimento que o Senhor permite que os seus filhos passem nestes poucos anos que vivemos na terra tem como meta o nosso desenvolvimento espiritual; que nos tornemos homens e mulheres fortes na fé, e que nos aproximemos mais e mais da perfeição do seu Filho, Jesus Cristo. Foi se referindo a esta perfeição que Tiago nos escreveu: “Meus irmãos, tende por motivo de grande gozo o passardes por várias provações, sabendo que a aprovação da vossa fé produz a perseverança; e a perseverança tenha a sua obra perfeita, para que sejais perfeitos e completos, não faltando em coisa alguma” (Tg 1:2-4).

Queridos, ser tentado faz parte do nosso viver em um mundo que tem o tentador como príncipe (Mt 4:3; Jo 14:30). Este título de autoridade que Satanás carrega é, no entanto, temporário e muito em breve lhe será removido, não apenas o título, mas todas as regiões, físicas e espirituais (Ef 6:12), que o Senhor lhe permitiu influenciar com as suas tentações. Quando este dia chegar, ficaremos permanentemente livres de todo o tipo de engano: “e o Diabo, que os enganava, foi lançado no lago de fogo e enxofre” (Ap 20:10). Por enquanto, todavia, teremos que sofrer os seus ataques diários, pois esta é a forma que Deus molda os seus filhos. O Senhor permite que passemos por todos os tipos de provações e sofrimentos para nos testar e nos transformar cada vez mais à sua imagem: “Pois todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças como trapo da imundícia… Mas agora, ó Senhor, tu és nosso Pai; nós somos o barro, e tu o nosso oleiro; e todos nós obra das tuas mãos” (Is 64:6-8). Lembremos também que o Senhor conhece muito bem o material no qual fomos formados (Sl 103:14). Ele se lembra que somos pó e do quão fraco somos e jamais permitirá que o inimigo nos ataque além das nossas forças: “Não vos sobreveio nenhuma tentação, senão humana; mas fiel é Deus, o qual não deixará que sejais tentados acima do que podeis resistir, antes com a tentação dará também o meio de saída, para que a possais suportar” (1Co 10:13).

Quando oramos o Pai Nosso, e pedimos: “e não nos deixes cair em tentação” (Mt 6:13; Lc 11:4), estamos implorando que o Senhor nos dê forças quando as horas inevitáveis chegarem. Estamos reconhecendo que as tentações virão; estamos aceitando as tentações, provações e tudo aquilo que nos causam sofrimentos, pois tudo isto faz parte do processo de amadurecimento que vem de um Pai que nos ama e que tem algo maravilhoso esperando por nós: “pois o Senhor corrige ao que ama, e açoita a todo o que recebe por filho; é para disciplina que sofreis….para o nosso proveito, para sermos participantes da sua santidade. Na verdade, nenhuma correção parece no momento ser motivo de alegria, porém de tristeza; depois, no entanto, produz fruto de justiça e paz para aqueles que por ela foram exercitados” (Heb 12:6-11). Espero te ver no céu.

Nesta Série de Estudos Bíblicos: