🔊 (Parte 10) Serie: Orando o Pai Nosso Com Poder. Estudo Nº 10: Livra-nos do Mal [Com Áudio]

(PARTE 10) SERIE: ORANDO O PAI NOSSO COM PODER. ESTUDO Nº 10: LIVRA-NOS DO MAL [COM ÁUDIO]

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Por Markus DaSilva, Th.D.

Estamos nos aproximando do fim desta longa série sobre a oração mais conhecida na história da humanidade, que é o Pai Nosso, a oração modelo que Jesus nos deu cerca de 2000 anos atrás. A série consiste de 12 estudos detalhados sobre cada uma das divisões que compõem esta obra-prima do Senhor. A parte que abordaremos hoje consiste do último pedido que fazemos a Deus quando oramos o Pai Nosso que é a sua proteção contra o mal que continuamente quer nos atingir: “mas livra-nos do mal” (Mt 6:13).

“O Senhor é a única fonte do bem e à medida que uma criatura se distancia de Deus, o mal passa a existir para ela.”

Assim como no estudo anterior que lidou com a tentação, ou provação, esta frase do Pai Nosso que estudaremos também possui uma palavra no original grego (ponēros) que permite duas possíveis traduções: mal ou Maligno. Lidaremos com estas duas possibilidades em detalhes mais abaixo, mas deixe-me já adiantar que em última análise não faz muita diferença se pedimos a Deus que nos livre do mal ou de Satanás, uma vez que em ambos os casos o que queremos é que Deus nos ajude nas nossas lutas diárias contra os sofrimentos que nos assolam. Veremos, no entanto, que uma destas opções possui também um aspecto interno, que tem mais a ver com aquilo que se passa no nosso coração do que com sofrimentos.

Conforme mencionamos no início da série, este trecho do Pai Nosso é uma das diferenças entre a oração do Pai Nosso que Jesus nos ensinou no relato do médico e “historiador” Lucas e no relato do apóstolo (Levi) Mateus. Apenas no evangelho de Mateus encontramos a frase: “mas livra-nos do mal”. Tudo indica que os dois relatam eventos que ocorreram em ocasiões diferentes, pois é bem provável que Jesus ensinava o Pai Nosso pelas várias cidades da região por onde anunciava a chegada do Reino de Deus e que não repetia palavra por palavra a oração modelo todas as vezes que instruía os seus ouvintes. Existe também a possibilidade de que Mateus, já que sempre estava com Jesus, recordou de mais detalhes quando descreveu o Pai Nosso do que a testemunha que repassou a informação a Lucas. Ou seja, que o Pai Nosso relatado em Mateus — bem mais completo — é uma combinação das várias vezes que ele a ouviu de Jesus, enquanto o de Lucas foi de apenas um evento, o evento que a sua testemunha presenciou.

No seu original este trecho do Pai Nosso se lê: [Gr. αλλα ρυσαι ημας απο του πονηρου (alla rhysai hēmas apo tou ponērou) Trd. Lit. Mas livra nós do o mal/maligno]. Conforme se pode observar, o grego deixa margem para traduzir como se pedíssemos por livramento do mal ou então livramento de Satanás (o Maligno). Esta dúvida poderia ser resolvida se no grego dos manuscritos existissem letras maiúsculas e minúsculas, neste caso se fosse o mal seria com minúsculas. Mas, infelizmente na época só usavam maiúsculas, assim como também não usavam acentos, pontuações ou espaços entre as palavras. Mas, conforme já mencionado no início do estudo, na prática não existe muita diferença se pedirmos a Deus que nos livre de um ou do outro. A única diferença será abordada mais abaixo.

Satanás foi a criatura que proporcionou que o mal surgisse neste mundo. Ele não criou o mal, o que não é de se surpreender pois ele nunca criou nada, bom ou ruim, uma vez que apenas Deus tem a capacidade de criar algo, é este o motivo que o chamamos de Criador. A realidade é que ninguém criou o mal, pois o mal por si mesmo não existe, sendo o mal simplesmente a ausência do bem, assim como a morte é a ausência da vida e as trevas é a ausência da Luz. Ou seja, Deus é todo o bem que existe. O Senhor é a única fonte do bem e à medida que uma criatura se distancia de Deus, o mal passa a existir para ela, da mesma forma que à medida que nos distanciamos de uma fonte de luz experimentamos a escuridão. Possivelmente a criatura em que o mal mais se faz presente é Satanás devido ao quanto ele já se distanciou de Deus desde que foi criado. Notem, porém, que nem mesmo ele se distanciou de Deus por completo, pois se distanciar de Deus por completo seria deixar de existir, uma vez que nada existe à parte de Deus. É por isto que o final de Satanás, dos seus anjos aliados, e de todos os seres humanos não redimidos pelo sangue de Jesus, é chamado de morte eterna, ou o local onde o fogo nunca se apaga e o verme nunca morre, pois estas criaturas seguirão para sempre se distanciando da única fonte do bem: Deus. Se distanciarão eternamente, mas nunca por completo: “E sairão, e verão os cadáveres dos homens que transgrediram contra mim; porque o seu verme nunca morrerá, nem o seu fogo se apagará; e eles serão um horror para toda a humanidade” (Is 66:24 ver também: Mt 25:41 and Mc 9:48).

Quando oramos o Pai Nosso e pedimos a Deus que nos livre do mal (ou do Maligno) estamos sendo realistas. Estamos dizendo que sabemos muito bem que vivemos em um mundo em que o mal predomina e cujo príncipe é Satanás (Jo 12:31; 2Co 4:4). Muito embora pedimos que Deus nos livre do mal, não devemos entender com isto que o Senhor nos livrará no sentido em que nunca mais experimentaremos sofrimentos, pois a Palavra é clara que apenas quando recebermos o Reino que nos foi preparado desde a fundação do mundo é que viveremos em tal ambiente: “O Senhor destruirá a morte para sempre, e assim enxugará o Senhor Deus as lágrimas de todos os rostos, e tirará de toda a terra o insulto do seu povo; porque o Senhor o disse” (Is 25:8 ver também: Ap 7:17; Ap 21:4). A palavra [ρυσαι] neste caso ficaria melhor traduzida como resgatar, em vez de livrar. A menos que usemos livrar no sentido em que Deus nos livre das garras do inimigo quando estamos sofrendo os seus ataques. Ou seja, não pedimos que o mal nunca nos atinja, mas sim que quando nos atingir o Senhor esteja conosco nos fortalecendo, nos guiando e providenciando um livramento.

O livramento do mal sempre ocorre, mas ocorre da forma e no tempo de Deus. Recentemente eu e a minha esposa temos conversado sobre o fato de que não temos tido sequer uma semana em que não lutamos contra algum tipo de mal. Seja na área de saúde, trabalho, relacionamento com as pessoas, preocupação com filhos, não importa, é certo que de alguma direção o mal nos atingirá, mas, de todos eles o Senhor nos livra. Obviamente, gostaríamos que não fosse assim. Gostaríamos que fossem raros os dias de sofrimentos, e melhor ainda se eles nunca chegassem. Sabemos muito bem, no entanto, que esta situação onde o mal não mais ocorre ainda não é possível. Sabemos também que o Senhor está totalmente no controle de todo o sofrimento que temos que passar. Esta é uma verdade que se aplica a todas as suas criaturas, mas de uma forma especial aos seus escolhidos. Todo o sofrimento, por menor que seja, possui um bom objetivo na vida daqueles que amam a Deus e que foram separados por Ele. Ou seja, Deus não lida com os nossos sofrimentos à medida que eles surgem, como se estes o pegassem de surpresa, não, de forma alguma. Para nós o mal que enfrentamos geralmente nos pega despreparados e para o inimigo o mal que ele nos sujeita decorrem de oportunidades que surgem, mas para Deus os sofrimentos são provações que nos são permitidas passar para que assim nos tornemos fortes e cresçamos em intimidade com o Pai.

Se enfrentarmos o mal que nos aflige da forma correta, ele não terá o mesmo efeito em nós quando vier para um segundo, terceiro ou quarto ataque. E a forma correta de enfrentarmos o sofrimento é estarmos cientes de que ele faz parte do treinamento que o Pai sujeita todos os seus filhos neste mundo de pecados. Foi isto o que o nosso irmão Pedro quis dizer, quando nos escreveu: “depois de haverdes sofrido por um pouco, ele mesmo vos há de aperfeiçoar, confirmar e fortalecer” (1Pe 5:10). Lembremos que nem mesmo Jesus, o Filho unigênito de Deus, foi poupado deste aperfeiçoamento pelo sofrimento: “Porque convinha que aquele (Deus), para quem são todas as coisas, e por meio de quem tudo existe, em trazendo muitos filhos à glória, aperfeiçoasse pelos sofrimentos o autor da salvação deles” (Heb 2:10); “ainda que era Filho (de Deus), aprendeu a obediência por meio daquilo que sofreu; e, tendo sido aperfeiçoado, veio a ser autor de eterna salvação para todos os que lhe obedecem”(Heb 5:8-9). Em outras palavras, até mesmo Jesus, para que fosse o nosso perfeito substituto, o segundo Adão, precisou ser submetido ao sofrimento e assim adquirisse a perfeição. Este é também o caminho que todos nós teremos que percorrer para, assim como Jesus, atingirmos a perfeição de filhos e filhas do Altíssimo: “Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai celestial” (Mt 5:48). Esta perfeição a que Jesus se refere provém do aprendizado obtido através do nosso sofrimento. Podemos não ver esta perfeição em nós, e de fato quando caímos confirmamos que ela ainda não ocorreu na sua plenitude, mas para o Pai, que sabe que somos apenas criancinhas na fé, estamos nos tornando cada vez mais perfeito. Paulo disse algo semelhante quando escreveu: “Não que já a tenha alcançado, ou que seja perfeito; mas vou prosseguindo, para ver se poderei alcançar aquilo para o que fui também alcançado por Cristo Jesus” (Fp 3:12).

Existe um outro ângulo a ser considerado quando oramos o Pai Nosso e pedimos a Deus que nos livre do mal, que se trata do reconhecimento de que o mal está presente não somente no mundo ao nosso redor, mas também em nós mesmo: “Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me, e conhece os meus pensamentos; vê se há em mim algum caminho mal, e guia-me pelo caminho eterno” (Sl 139:23-24). Ao expressarmos o desejo de que o Pai nos livre do mal localizado no nosso coração, estamos então pedindo que haja uma transformação radical em tudo aquilo que somos, pois o coração do ponto de vista espiritual é a própria essência daquilo que o homem é: “Guarda com toda a diligência o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida” (Prv 4:23); “Eu, o Senhor, esquadrinho a mente, eu provo o coração; e isso para dar a cada um segundo os seus caminhos e segundo o fruto das suas ações” (Jr 17:10). Pedimos que Deus tenha misericórdia de nós e mude o nosso coração. Não gostamos de forma alguma o fato de que possa existir qualquer mal dentro de nós, pois sabemos que o mal é a não existência do bem que é o próprio Deus. O mal dentro de nós se trata das trevas que nós, como filhos e filhas do Altíssimo, deploramos e queremos com todas as nossas forças que saem de nós e que em seu lugar tenhamos apenas a sua perfeita luz que nos foi dada através do seu Filho amado: ‘Eu, que sou a luz, vim ao mundo, para que todo aquele que crê em mim não permaneça nas trevas” (Jo 12:46); “Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens” (Jo 1:4).

Queridos, concluindo este estudo da série, quando no Pai Nosso pedimos que Deus nos livre do mal estamos então expressando ao Pai o desejo de um relacionamento com Ele onde sabemos que receberemos a sua proteção, tanto do mal que nos assola de fora como daquele que tem a sua origem dentro de nós mesmos. Internos ou externos, os males são provações, ou testes e treinamentos, que fazem parte da vida daqueles que Deus separou, selou e enviou ao seu Filho. Não existe maior honra na face da terra do que estar entre os escolhidos do Senhor e ter sido dado a Jesus pelo Pai: “Manifestei o teu nome aos homens que do mundo me deste. Eram teus, e tu os deste a mim; e guardaram a tua palavra” (Jo 17:6). Tanto nos dias bons, como nos dias maus, devemos estar extremamente felizes o tempo todo, pois a grande maioria dos seres humanos não fazem parte deste grupo e mesmo assim também sofrem como nós sofremos (Ro 8:20-23). O sofrimento que nós, os filhos e filhas do Senhor, enfrentamos nesta rápida passagem por este mundo não é nada, comparado com as coisas maravilhosas que teremos por toda a eternidade com o nosso Jesus, que nos adquiriu com o seu próprio sangue (1Co 2:9). Ele, orando ao seu Pai e nosso Pai, disse que não perdeu e não perderá nenhum de nós, nem para qualquer tipo de mal e muito menos para o Maligno: “Dos que me tens dado, nenhum deles perdi” (Jo 18:9). Se animem, e enfrentem as provações desta vida de peito erguido, sabendo que nada nos atinge senão aquilo que Deus permite para o nosso próprio bem: “E sabemos que todas as coisas trabalham juntas para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Ro 8:28). Espero te ver no céu.

Nesta Série de Estudos Bíblicos: