🔊 (Parte 6) Serie: Orando o Pai Nosso Com Poder. Estudo Nº 6: O Pão Nosso de Cada Dia [Com Áudio]

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Por Markus DaSilva, Th.D.

Grande parte da luta diária do cristão tem a ver com a preocupação com o amanhã. Esta luta que todos nós enfrentamos com tanta frequência ocorre apesar das várias vezes que o Senhor nos disse que cuidará dos seus filhos aqui na terra: “Pois assim diz o Senhor Deus, o Santo de Israel: No arrependimento e no descanso, serias socorrido; no sossego e na confiança estarias a vossa força. Mas não quisestes” (Is 30:15). Na sequência da série sobre o Pai Nosso, entraremos agora na seção da oração que lida diretamente com o cristão individualmente. São quatro os pedidos que fazemos no Pai Nosso que tem a ver com as nossas necessidades físicas e espirituais: O pão nosso de cada dia, o perdão dos nossos pecados, o fortalecimento contra as tentações e a proteção contra o inimigo. Neste estudo exploraremos as necessidades físicas do cristão. Quais são as implicações da frase: O pão nosso de cada dia nos dá hoje?

“Reconhecendo ou não, se Deus decidisse fechar o seu armazém de suprimentos todas as suas criaturas simplesmente morreriam, a começar por nós, frágeis seres humanos.”

O cristão frequentemente age como se não fosse Deus que o trouxe até o dia de hoje (Is 40:29; Cl 1:17). Ele se comporta como se todos os anos que já sobreviveu na terra fossem o resultado da sua própria luta e que, assim sendo, o seu amanhã também dependerá daquilo que ele próprio faz ou deixa de fazer no dia de hoje. A garantia de que amanhã ele estará bem depende tão somente daquilo que ele, com suor e sacrifício, conseguir conquistar no presente, pensa ele. Ele vive na incerteza se aquilo que tem reservado lhe será suficiente para o amanhã, faz as contas na cabeça, e em decorrência disso gostaria de ter mais (Mt 6:34). Ele procura uma garantia tangível, algo palpável, de que amanhã não passará por qualquer necessidade. As promessas de Deus de que Ele cuidará dos seus filhos todos os dias lhe soa muito bem na Bíblia, tudo claro no papel, mas na vida real ele não vive como se realmente acreditasse no que leu (Nm 11:23). Vive como se tudo aquilo fosse uma espécie de um contrato sem muito valor na praça, como se a assinatura no documento fosse duvidosa, ou como se ninguém soubesse ao certo se quem o assinou realmente tivesse a intenção ou até mesmo condição de cumprir a sua parte do contrato. A realidade é que, ainda que não diga abertamente, o cristão típico considera as promessas de que Deus cuidará dos seus filhos como algo bom demais para ser verdade.

Quando falamos de pedir a Deus que ele nos dê o pão nosso de cada dia, devemos primeiramente lembrar que Ele já tem nos dado o pão desde o dia que nascemos (Sl 145:16-17). Literalmente, se não fosse a bondade do Senhor para conosco, a nossa mãe não teria leite nos seios, nem dinheiro para comprar um outro leite para que assim desenvolvêssemos e chegássemos onde agora estamos. A realidade é que, não só nós, mas todos os seres criados recebem tudo aquilo que precisam para viver exclusivamente de Deus. O fato incontestável é que não existe nenhuma outra fonte onde poderíamos ir para adquirir o que necessitamos para a nossa sobrevivência, senão o nosso amado Criador. Reconhecendo ou não, se Deus decidisse fechar o seu armazém de suprimentos todas as suas criaturas simplesmente morreriam, a começar por nós, frágeis seres humanos: “Porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos” (At 17:28).

Quando oramos o Pai Nosso e pedimos que Deus nos dê o pão nosso de cada dia, estamos então apenas reconhecendo que é Ele, e não uma outra pessoa, ou um outro deus, ou nos mesmos, que possuí a capacidade de suprir-nos com as necessidades da vida: “A tua justiça é como os montes de Deus, os teus juízos são como o abismo profundo. Tu, Senhor, preservas os homens e os animais” (Sl 36:6). Estamos reconhecendo quem é o verdadeiro provedor da humanidade. Ainda que frequentemente temos a impressão de que recebemos o que precisamos porque trabalhamos, ou porque um parente nos ajuda, ou porque economizamos no passado, ou porque o governo nos assiste, a realidade nua e crua é que todas estas supostas fontes de ajuda e suprimento podem secar a qualquer momento, se assim Deus o desejasse: “Tudo o que o Senhor deseja ele o faz, no céu e na terra, nos mares e em todos os abismos. Faz subir os vapores das extremidades da terra; faz os relâmpagos para a chuva; tira os ventos dos seus tesouros” (Sl 135:6-7). Um grande exemplo desta verdade nos foi demonstrado pelo próprio Deus, no seu relacionamento com o nosso irmão Jó. Em questão de horas, tudo aquilo que Jó possuía, tudo aquilo que valorizava na vida lhe foi tirado. Ainda bem, todavia, que o Senhor conhecia a Jó, e Jó conhecia o Senhor, e, portanto, este servo de Deus reconhecia quem era o Ser que havia lhe dado todas aquelas coisas: “Nu saí do ventre de minha mãe, e nu tornarei para lá. O Senhor deu, e o Senhor tirou; bendito seja o nome do Senhor” (Jó 1:21). Se Jó entendesse que os seus bens eram frutos do seu próprio esforço, então ele estaria em uma situação de extremo desespero, ansiedade e depressão. Ele culparia a si mesmo pela sua incapacidade de administrar os seus bens e aos outros pela incompetência no trabalho. Mas Jó sabia muito bem que acima da inteligência e do trabalho do homem, se encontra Deus que controla tudo e todos: “receberemos de Deus o bem, e não receberemos o mal? Em tudo isso não pecou Jó com os seus lábios” (Jó 2:10).

Mas voltando ao Pai Nosso, no decorrer da história do cristianismo, vários teólogos já pesquisaram e discutiram sobre os possíveis significados alternativos desta parte da oração modelo que Jesus nos deu: [Gr. Τὸν ἄρτον ἡμῶν τὸν ἐπιούσιον δὸς ἡμῖν σήμερον (Ton arton hēmōn ton epiousion dos hēmin sēmeron) Trad. Lit. O pão de nós de cada dia dê para nós hoje]. A razão da incerteza está ligada ao fato de que a palavra traduzida como “de cada dia” no português [Gr. ἐπιούσιον (epiousion)] não aparece em nenhum outro lugar na Bíblia, além das duas versões do Pai Nosso (Mt 6:11 e Lc 11:3), e nem mesmo em textos gregos seculares da mesma época se encontra esta palavra de uma forma que clarifique o seu significado. Mas, considerando o contexto, a tradução “de cada dia” é realmente a que faz mais sentido e é por isto que praticamente todas as traduções da Bíblia estão de acordo.

Jesus nos ensinou que devemos pedir apenas aquilo que precisamos para o dia de hoje porque assim desenvolvemos o correto entendimento de que a nossa dependência do Pai é contínua (Sl 62:5). O amanhã pertence a Deus, e se o Senhor nos desse o que precisamos por vários dias antecipadamente, nós rapidamente esqueceríamos de onde veio o nosso suprimento e deduziríamos que sempre o teremos, sem a necessidade de recorremos ao nosso Pai por sua intervenção. Aliás, esta tendência humana de tomar como certa as bênçãos de Deus é claramente visível ao nosso redor. Todos os dias, bilhões de seres humanos recebem incontáveis dádivas de Deus sem se dar ao trabalho de agradecer e nem sequer reconhecer de onde vieram: o ar que respiramos, o sol que nos aquece, o nosso abrigo, nosso alimento… e a nossa própria vida. O Senhor vê muito bem que realmente não temos condição de receber adiantado o seu suprimento sem que isto nos torne uma pedra de tropeço. Portanto, somos ensinados a pedir apenas pelo pão necessário para hoje: “não me dês nem a pobreza nem a riqueza: dá-me só o pão que me é necessário; para que eu, estando farto, não te negue, e diga: Quem é o Senhor? Ou, ficando pobre, não venha a roubar, e profane o nome de Deus” (Prv 30:8-9).

Podemos ver este princípio divino em alguns lugares na Palavra de Deus, mas certamente o mais claro de todos foi o pão enviado pelo Senhor (Maná) durante os anos que o seu povo passou no deserto: “Então disse o Senhor a Moisés: Eis que vos farei chover pão do céu; e sairá o povo e colherá diariamente a porção para cada dia, para que eu o prove se anda em minha lei ou não” (Ex 16:4). A prova de Deus para nós é que dependamos dele para a nossa sobrevivência diária e de nenhuma outra fonte. O maná era uma prova óbvia, pois não existia nenhuma ambiguidade quanto à sua origem. Mas, nos nossos dias, mesmo não vendo o pão cair literalmente do céu, ainda assim o Senhor espera de nós um comportamento condizente de filhos que dependem do Pai para a sua sobrevivência e que reconhece que o que chega até a nossa mesa provém dele.

Deus não possui nenhuma obrigação de nos dar qualquer coisa que o pedimos. O ser humano não faz nada para Deus para que assim o Senhor se veja na posição de ter que nos retribuir. Isso foi o que Paulo quis dizer quando escreveu: “Ou quem lhe deu primeiro a ele, para que lhe seja recompensado? Porque dele, e por ele, e para ele, são todas as coisas” (Ro 11:35-36 Ver também Jó 41:11). Portanto, este “nos dá hoje” do Pai Nosso é realmente uma dádiva de Deus e de forma alguma uma retribuição por algo que fizemos para Deus e que agora estamos recebendo o pagamento. Nada temos a oferecer a Deus que Ele já não o tenha: “Deus não é servido por mãos humanas, como se necessitasse de alguma coisa; pois ele mesmo é quem dá a todos a vida, a respiração e todas as coisas” (At 17:25).

Isto não quer dizer que Deus trate todos os seres humanos da mesma forma, dando a todos eles aquilo que precisam, sem demonstrar um tratamento especial àqueles que o amam e que se deleitam em obedecê-lo (Is 1:19; Is 3:10; Heb 6:10)). Devemos sempre entender, porém, que a nossa obediência ao Senhor não vem de obrigações de subordinados para com superiores, como empregado e patrão, no qual o salário é uma obrigação contratual – embora para efeito de ênfase da superioridade do Criador sobre as suas criaturas, a Bíblia às vezes usa essa e outras analogias semelhantes. A realidade é que esperamos o pão de cada dia de Deus porque ele é o nosso Pai e não passamos de criancinhas incapazes de cuidar de nós mesmos. Aliás, quanto mais amorosos e obedientes formos, mais podemos contar com a sua bondade para conosco, mais confiantes devemos ser que o nosso Pai realmente nos dará o pão de cada dia. Foi isso o que Jesus quis dizer na parábola do filho pródigo, quando o pai procurou acalmar o filho mais velho: “Filho, tu sempre estás comigo, e tudo o que é meu é teu” (Lc 15:31). Ou seja, é bem verdade que houve festa na fazenda com o retorno do filho rebelde à casa, mas ele recebeu apenas um manto, um par de sandálias, um anel e um bezerro, pois nada tinha e a sua necessidade era extrema, mas ao filho fiel nada lhe faltava pois tudo o que pertencia ao pai também lhe pertencia. Se ele nunca teve um bezerro morto para celebrar com os seus amigos, como a parábola relata, é porque ele nunca pediu ao pai: “Pois todo aquele que pede, recebe” (Mt 7:8).

Queridos, creio que aprendemos bastante neste estudo da série sobre o Pai Nosso. Talvez de todos os estudos da série, este sobre o pão nosso de cada dia é o que mais nos toca em termos da importância que é a nossa comunicação diária com o Pai. Isso porquê se o pedido do pão é feito apenas para cada dia, então obviamente ele terá que ser feito diariamente, caso contrário haverá dias em que não teremos aquilo que precisamos, simplesmente porque não pedimos para aqueles dias no momento correto. Ou seja, não podemos pedir que o Senhor supra as nossas necessidades para os próximos meses, ou semanas, ou mesmo dias, mas sim para o hoje. Certamente que esta verdade não cancela a certeza de que o Pai cuidará de nós em todos os dias que ainda virão, mas apenas nos coloca em uma contínua posição de reconhecimento quanto à nossa condição de dependentes do nosso bondoso Pai que se deleita em cuidar dos seus filhinhos: “O Senhor se deleita nos que o temem, nos que esperam na sua benignidade” (Sl 147:11). Espero te ver no céu.

Nesta Série de Estudos Bíblicos: