🔊 (Parte 4) Serie: Obedecendo a Jesus. Estudo Nº 4: Os Judeus e a Obediência [Com Áudio]

Foto de do muro das lamentacoes com pessoas orando (Parte 4) Serie: Obedecendo a Jesus. Estudo Nº 4: Os Judeus e a Obediência [Com Áudio] Markus DaSilva

Baixar Áudio Baixar Áudio | Baixar PDF Baixar PDF

Por Markus DaSilva, Th.D.

Aqueles que nos acompanham por um tempo já devem ter notado o nosso favoritismo declarado pelos escritos do apóstolo João. Sim, João se destaca dentre todos os outros escritores da Bíblia por sua perfeita mesclagem de simplicidade e profundidade. Apenas alguém genuinamente inspirado conseguiria transmitir por escrito o nível de ensinos avançados que lemos no seu evangelho e demais textos e ao mesmo tempo empacotar tudo de tal forma que os mais simples dos seus leitores possam entender. Foi João que nos escreveu que Jesus, a Palavra que se fez carne, veio para os seus, mas os seus não o receberam (João 1:11). Esse “seus” a quem João se refere foram os filhos naturais de Abraão através da linhagem de Isaque, o filho da promessa, a quem Deus reconheceu como o único do patriarca, ignorando todos os outros filhos que ele teve, incluindo Ismael (Gn 22:2).

“…é como se o indivíduo quisesse morar em uma casa que ainda se encontra na planta. O crer para a salvação deverá ser demonstrado e não apenas expressado.”

“Os seus não o receberam”. A palavra traduzida como “receberam”, no original grego [paralanvano] é uma combinação da preposição [παρα (para) = com/de] com o verbo [λαμβάνω (lanvano) = receber/aceitar] e precedida da negação “não o” [αὐτὸν οὐ (afton u)] basicamente significa que os Judeus recusaram qualquer relacionamento com Aquele que os criou e os separou de todos os outros povos para si próprio. Esta recusa em receber a Jesus como o tão esperado Messias, foi o tema de várias pregações e parábolas de Cristo. Não só a recusa dos Judeus como também a subsequente salvação estendida aos gentios: “Então disse aos seus servos: As bodas, na verdade, estão preparadas, mas os convidados não eram dignos. Ide, pois, pelas encruzilhadas dos caminhos, e a quantos encontrardes, convidai-os para as bodas” (Mt 22:8-9). Esta aplicação messiânica de Jesus a todas as nações ocorreu tal qual profetizada em várias partes das escrituras: “Sim, diz ele: Pouco é que sejas o meu servo, para restaurares as tribos de Jacó, e tornares a trazer os preservados de Israel; também te porei para luz das nações, para seres a minha salvação até a extremidade da terra” (Is 49:6).

Obviamente não devemos de forma alguma deduzir com estas palavras de João que nenhum Judeu recebeu a Jesus. O verso se refere à maioria, pois sempre houve um remanescente separado pelo próprio Deus para que assim o eterno evangelho da salvação fosse propagado até o fim dos tempos. A grande prova disso foi o pequeno grupo que se manteve fiel a Jesus durante os três anos do seu ministério. Sim, se mantiveram fiéis, mesmo não entendendo completamente a sua função como o enviado de Deus. O próprio João reconhece esta verdade no verso seguinte: “Mas, a todos quantos o receberam, aos que creem no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus” (João 1:12). Assim como todos, ou quase todos os judeus naqueles dias, os apóstolos também não compreendiam exatamente como Jesus desempenharia o seu papel de Messias, devido às suas ideias preconcebidas, mas, mesmo assim, o amavam e estavam dispostos a ficar com Ele até o fim. Quando alguns dos seus seguidores se desencantaram e começaram a desistir de Jesus, o Senhor, magoado, perguntou aos 12 se por acaso não queriam abandoná-lo também, mas Pedro, respondendo por eles lhe disse: “Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna. E nós já temos crido e bem sabemos que tu és o Santo de Deus” (João 6:68-69).

O Messias aguardado por Israel não tinha nada em comum com Jesus. O povo Judeu esperava por um líder militar messiânico; um poderoso guerreiro que fosse semelhante a Davi, mas com poderes sobrenaturais dos céus para que assim fosse estabelecido o esperado Reino de Deus. O império romano era de dura cerviz e já por séculos a nação de Israel seguia sendo jogada das mãos de um tirano para outro. Sempre que surgia alguém com certa popularidade em Israel a esperança do povo crescia. Foi por isto que os líderes religiosos enviaram uma delegação para saber de João Batista se ele era o Messias (João 1:19). É interessante notar que esta espera pelo Messias como um líder político-militar continua até os nossos dias. Se me recordo direito, no começo dos anos 90, quando morava perto de uma comunidade de judeus ultra-ortodoxos no Brooklyn, em Nova Iorque, por um tempo houve um grande alvoroço envolvendo o falecimento de um líder que para eles era o esperado Messias. Este subgrupo do judaísmo chassídico, pelo que lí, continua esperando que ele volte dos mortos para exercer a sua posição de Moshiach [Hb. מָשִׁיחַ‎ (māšîaḥ)], a transliteração de Messias segundo este grupo. Mas Jesus, o único e verdadeiro Messias, nasceu, viveu e morreu não como um grande e imponente líder político-militar, mas sim como o mais simples dos homens.

Jesus deixava os líderes judeus perplexos, sem saber muito bem o que fazer. Eles viam nele um tremendo potencial para ser o Messias, de fato o maior candidato para o cargo da história da nação judaica. Após verem com os próprios olhos todos os atos sobrenaturais de Jesus,  certamente que começaram a imaginar um líder que poderia miraculosamente alimentar milhares de soldados com alguns pães e peixes (Mt 14:19), que curasse com saliva os ferimentos das tropas (Mc 8:22) e que se acaso algum morresse, simplesmente daria ordem para que o defunto levantasse e voltasse ao campo de batalha (Lc 7:14). Qual exército inimigo poderia contra um líder deste calibre? Mas Jesus, para a surpresa de todos, não demonstrava qualquer indicação de que se interessava pela posição. Muito pelo contrário, em vez de alistar os homens mais cultos e inteligentes para ser os seus oficiais, ele se envolvia com pescadores, em vez de procurar os nobres e fortes ele parecia ter uma estranha atração por pobres, cegos, coxos, prostitutas, cobradores de impostos e até os desprezíveis samaritanos.

Mediante a rejeição de Jesus pela posição messiânica de líder político-militar que eles mesmos criaram, os religiosos e o povo Judeu, na sua maioria, não via nenhum benefício em obedecer às palavras de Jesus: “E embora tivesse operado tantos sinais diante deles, não criam nele” (João 12:37). Não entendiam que vantagem haveria em dar a todos que pedem, emprestar sem esperar pagamento, andar duas milhas quando forçado a andar uma, e quando processado por uma peça de roupa dar não só a roupa que ele quer, mas também uma segunda peça (Mt 5:39-44). Nada disso fazia sentido. Fazer o bem a quem nos odeia? Orar para quem nos maltrata? Mas muitos o seguiam mesmo assim porque recebiam comida de graça (João 6:26) e viam Ele fazer coisas que consideravam impossíveis serem feitas (João 6:2), uma espécie de show grátis.

Mesmo sem ter o interesse em obedecê-lo, muitos se referiam a Ele com títulos de autoridade: Rabi! Profeta! Mestre! Senhor! Jesus não se impressionava de forma alguma com estes títulos, pois conhecia o coração deles e via que grande parte não passava de bajulações sem qualquer significado real: “E por que me chamais: Senhor, Senhor, e não fazeis o que eu vos digo?” (Lc 6:46). O povo judeu estava acostumado a prestar todo o tipo de honras aos líderes religiosos, e estes por vez procuravam por tais honras e faziam de tudo para atrair a admiração e o respeito do povo (João 12:43). Jesus, porém, era claro que palavras bonitas são irrelevantes para Deus se não forem acompanhadas de obediência: “Hipócritas! bem profetizou Isaías a vosso respeito, dizendo: Este povo me honra com os lábios; o seu coração, porém, está longe de mim. Em vão me adoram” (Mt 15:7-9).

O pecado da hipocrisia dos líderes religiosos judeus era continuamente condenado por Jesus. Eles pregavam uma mistura da verdadeira palavra de Deus com leis inventadas por eles mesmos, denominadas: “as tradições dos anciãos” (Mc 7:3). Estas eram regras que exigiam que os judeus obedecessem, mas que eles mesmos não obedeciam, a menos, é claro, que estivessem em locais públicos, para que assim fossem vistos como homens santos: “Pois atam fardos pesados e difíceis de suportar, e os põem aos ombros dos homens; mas eles mesmos nem com o dedo querem movê-los. Todas as suas obras eles fazem a fim de serem vistos pelos homens; pois alargam os seus filactérios, e aumentam as franjas dos seus mantos” (Mt 23:4-5). Era por este tipo de condenação aberta à forma de viver dos líderes religiosos, que Jesus deixou de ser alguém que considerassem como um aliado em potencial e passou a ser um inimigo mortal. Queriam matá-lo o mais rápido possível e só eram impedidos por que tinham medo da reação da multidão que frequentemente o seguia, pois o consideravam um profeta (Mt 21:46).

Apesar deste ambiente tão hostil ao seu Filho, Deus, no entanto, separou um pequeno grupo entre os judeus que o recebeu e que se deleitava em ouvir e obedecer às suas palavras. Embora poucos realmente se tornaram seus seguidores, a grande maioria via claramente que ali se encontrava alguém especial, alguém que quando falava, algo inexplicável ocorria no coração: “as multidões se maravilhavam dos seus ensinos; porque os ensinava como tendo autoridade, e não como os escribas” (Mt 7:28-29). Ouvir as palavras saírem da boca do próprio Verbo que se fez homem, era algo fora do comum. Ao visitar Lázaro, Maria, uma das suas duas irmãs, ficou sentada aos pés de Jesus se deleitando em tudo aquilo que ele falava (Lc 10:39). Existe tanta verdade sobrenatural nas palavras de Jesus que até mesmo aqueles que se opunham a Ele eram forçados a reconhecer que havia algo de diferente na forma como ele falava: “Alguns deles queriam prendê-lo; mas ninguém lhe pôs as mãos. Os guardas, pois, foram ter com os principais dos sacerdotes e fariseus, e estes lhes perguntaram: Por que não o trouxestes? Responderam os guardas: Nunca homem algum falou assim como este homem” (João 7:44-46).

Queridos, quando Jesus esteve aqui foram bem poucos aqueles que aceitaram as suas palavras, ainda que praticamente todos, incluindo alguns líderes (João 3:2; Mc 15:43), reconheciam a autoridade em tudo o que saia da sua boca. Este estranho comportamento que é reconhecer a autoridade de Jesus, mas não obedecer às suas palavras continua até hoje no meio cristão. As pessoas professam crer que Ele é de fato o Messias enviado por Deus para salvar os pecadores (João 3:16), confessam com a boca que Ele é Senhor (Ro 10:9) e são batizadas (Mc 16:16), mas mesmo assim recusam a obedecer às suas palavras. Jesus ficava claramente aborrecido com esta atitude inexplicável entre os judeus que o seguiam, pois professavam reconhecer que Ele era o enviado de Deus, mas insistiam em ignorar os seus mandamentos: “E por que me chamais: Senhor, Senhor, e não fazeis o que eu vos digo?” (Lc 6:46).

Existe o crer e o crer para a salvação. Apenas crer que Jesus foi alguém que realmente existiu em Israel séculos atrás não salva. Apenas crer que Jesus é o Messias enviado por Deus para salvar a humanidade não salva. Apenas crer que Jesus pode transformar vidas, que pode curar as nossas doenças, que pode cuidar de todas as nossas necessidades, que pode pagar por todos os nossos pecados, e no final nos levar com Ele para o céu não salva. Todas essas expressões de “crer” não salvam porque estão apenas no nosso intelecto e não foram manifestadas no físico. É como se o indivíduo quisesse morar em uma casa que ainda se encontra na planta. O crer para a salvação deverá ser demonstrado e não apenas expressado: “Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as põe em prática, será comparado a um homem prudente, que edificou a casa sobre a rocha …mas todo aquele que ouve estas minhas palavras, e não as põe em prática, será comparado a um homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia” (Mt 7:24, 26). Espero te ver no céu.

Nesta Série de Estudos Bíblicos: