🔊 (Parte 8) Serie: Obedecendo a Jesus. Estudo Nº 8: Paulo e a Obediência. [Com Áudio]

(Parte 8) Serie: Obedecendo a Jesus. Estudo Nº 8: Paulo e a Obediência. [Com Áudio]

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Por Markus DaSilva, Th.D.

Começaremos este estudo da série lembrando o princípio estabelecido no texto anterior de que todos os escritos, seja na Bíblia ou fora dela, deverão ser analisados e julgados pelas palavras do nosso perfeito Mestre: Jesus Cristo. Se analisarmos as várias frases que o apóstolo Paulo nos transmitiu através das suas numerosas cartas nos baseando em opiniões de pregadores e comentaristas; ou se compararmos uma frase de Paulo com uma outra frase de Paulo; ou se compararmos Paulo com outros autores das Escrituras a procura de diferenças, semelhanças e equivalências; se fizermos tudo isso e ignorarmos as palavras do nosso Mestre contidas nos quatro evangelhos, como se aquilo que Jesus nos disse fossem ensinos secundários e irrelevantes para a nossa salvação, então estaremos simplesmente convidando o inimigo para que ele insira todos os tipos de enganos na nossa mente. Não, isto é algo que jamais deverá ser feito. Não cairemos neste erro fatal que tantos caíram no passado e seguem caindo nos nossos dias. Não nos deixaremos ser guiados por nenhuma outra luz, senão aquela que desceu dos céus: “Eu sou a luz do mundo; quem me segue de modo algum andará em trevas, mas terá a luz da vida” (João 8:12).

“Muitos aproveitam a complexidade das palavras de Paulo para de alguma forma conseguirem um falso respaldo na Bíblia para seguirem amando este mundo.”

Mas quanto a Paulo, sabemos muito bem que ele passou a ser um seguidor de Jesus de uma forma completamente diferente dos demais cristãos na Bíblia. Paulo não se converteu ao ouvir as pregações de Jesus e presenciar os seus milagres; nem de Jesus, nem de um dos apóstolos que saíram pregando o evangelho por toda a redondeza seguindo o mandamento que Jesus lhes deu pouco antes de subir aos céus: “Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a observar todas as coisas que eu vos tenho mandado” (Mt 28:19-20). De fato, não sabemos de nenhum evento evangelístico em que Paulo esteve presente, com exceção da pregação de Estêvão que culminou com o seu linchamento: “…e, lançando-o [Estêvão] fora da cidade o apedrejaram. E as testemunhas depuseram as suas vestes aos pés de um jovem chamado Saulo [ou Paulo no grego]” (At 7:58).

Certamente que Deus poderia ter providenciado que Paulo ouvisse e aceitasse o evangelho de Jesus enquanto Ele ou algum apóstolo pregava na região, no entanto, preferiu que fosse feito de uma forma sobrenatural, por “revelação”, após a ascensão de Cristo e ironicamente quando Paulo se dirigia a uma cidade com o específico objetivo de destruir a pequena e frágil igreja que havia recentemente iniciada: “porque não o recebi [o evangelho] de homem algum, nem me foi ensinado; mas o recebi por revelação de Jesus Cristo” (Gl 1:12). Não é muito claro por quanto tempo Paulo aprendeu o evangelho de Jesus “por revelação” [Gr. ἀποκάλυψις (apocalipsis)] antes de começar a pregar a sua nova fé, mas é possível que tenha sido durante os três anos que se retirou para a região da Arábia e Damasco (Gl 1:17-18).

Os ensinos de Jesus eram de fato algo novo para Paulo, que segundo o seu próprio testemunho havia sido educado como fariseu sob os cuidados de um rabino conhecido como Gamaliel. Até o seu encontro em visão com Cristo na estrada para Damasco, Paulo estava completamente imerso no legalismo judaico e se sentia orgulhoso do seu conhecimento aprofundado das leis mosaicas: “circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; quanto à lei fui fariseu; quanto ao zelo, persegui a igreja; quanto à justiça que há na lei, fui irrepreensível” (Fp 3:5-6). Obviamente, neste testemunho, quando Paulo menciona “a justiça que há na lei” o qual era irrepreensível, ele está se referindo à lei que Deus transmitiu à nação de Israel através de Moisés e que Paulo aprendeu nas escolas dos fariseus. Lei esta que tinha como objetivo tornar o pecador justo perante Deus e que envolvia uma série de cerimônias, rituais e símbolos, que apontavam para o Messias que um dia Deus enviaria fisicamente até a nós (Jr 31:31) e desde então, todo o simbolismo perderia o seu valor para justificar alguém, uma vez que teríamos entre nós quem de fato, e não simbolicamente, justifica o pecador perante Deus: Jesus Cristo. Paulo descreve esta verdade desta forma: “Mas, antes que viesse a fé, estávamos guardados debaixo da lei, encerrados para aquela fé que se havia de revelar” (Gl 3:23).

A lei cerimonial que Paulo aprendeu enquanto estava no farisaísmo, no entanto, envolvia mais do que aquilo que foi ensinado através de Moisés. Com o tempo, os líderes religiosos criaram o que chamavam de “as tradições dos anciãos”, que consistia de uma série de leis adicionais que Jesus frequentemente condenava como “leis feitas por homens” (Mc 7:8) e que envolvia coisas como lavagens cerimoniais de mãos, copos, panelas e muitas outras obras externas as quais entendiam que também deveriam praticar para serem aprovados por Deus. Paulo pregava contra todos estes atos externos ligados à lei mosaica e às tradições dos anciãos, enfatizando que estas obras da lei não tinham nenhum valor para a justificação, agora que Jesus, o Messias, nos proporcionou o seu próprio sangue como o único meio de recebermos a aprovação de Deus: “sabendo, contudo, que o homem não é justificado por obras da lei, mas sim, pela fé em Cristo Jesus, temos também crido em Cristo Jesus para sermos justificados pela fé em Cristo, e não por obras da lei; pois por obras da lei nenhuma carne será justificada” (Gl 2:16). Esta é a fé, revelada por Jesus, que agora Paulo defendia com o mesmo zelo que defendia a lei mosaica e as tradições dos anciãos quando ainda estava no farisaísmo.

A fé em Jesus que justifica o pecador difere dos ensinos dos fariseus porque o homem não precisa mais utilizar das cerimônias contidas na lei de Moisés para ser aprovado e aceito por Deus. Para nós, que vivemos séculos após a vinda do Messias, isto parece óbvio, mas para Paulo e seus contemporâneos abandonar tudo aquilo que haviam aprendido por gerações não era de forma alguma algo fácil. Para eles, era difícil crer que Deus não mais exigia coisas como sacrifícios de animais, uso de certas roupas e acessórios, observação de festivais, diferenciar entre um tipo de carne e outro, e de uma forma muito especial a circuncisão. Especial porque a circuncisão era um dos maiores símbolos que separavam os descendentes de Abraão dos demais povos. Não circuncidar os filhos seria como dizer que já não eram o povo escolhido de Deus. Seria como dizer que agora eram iguais a qualquer outro povo da terra. O próprio Paulo sofria com esta ideia: “Que vantagem, pois, tem o judeu? Ou qual a utilidade da circuncisão? Muita, em todo sentido; primeiramente, porque lhe foram confiados os oráculos de Deus…” (Ro 3:1-2).

Este era o contexto quando Paulo escrevia às várias igrejas em que participou da sua fundação. Todas eram igrejas em cidades do império romano, onde se encontravam cidadãos vindos dos vários países o qual César havia invadido e tomado posse. Este era o motivo que não apenas Paulo, mas todos os outros escritores do Novo Testamento escreviam em grego e não em aramaico, pois o grego na época era a língua mais conhecida entre os povos, semelhante ao inglês nos nossos dias.

Paulo não era o único judeu convertido ao cristianismo que visitava estas cidades. Muitos outros também sabiam das igrejas e participavam das suas reuniões, que naquela época quase sempre ocorriam nas casas das pessoas. Muitos destes judeus não concordavam com Paulo em relação a ter que abandonar toda a lei mosaica para ser um cristão. Eles aceitavam que Jesus era o Messias, mas achavam que certas leis cerimoniais vindas de Moisés eram eternas e que deveriam continuar em efeito mesmo após o sacrifício de Jesus, uma destas leis era a necessidade da circuncisão (Lv 12:3). Paulo se opunha veementemente à prática e temia que se os cristãos começassem a voltar a praticar as leis cerimoniais eventualmente abandonariam a fé cristã e voltariam ao judaísmo dos fariseus: “Para a liberdade Cristo nos libertou; permanecei, pois, firmes e não vos dobreis novamente a um jugo de escravidão. Eis que eu, Paulo, vos digo que, se vos deixardes circuncidar, Cristo de nada vos aproveitará” (Gl 5:1-2).

Paulo entendia corretamente que todo o homem é servo, de alguma força [Gr. δοῦλος (dulos) Trd. servo, cativo, escravo]. Daquilo que o homem se prontifica a obedecer, ele será um servo. Dentro do seu entendimento então, se o cristão insistir em obedecer às leis cerimoniais mosaicas, ele recusará a liberdade que Jesus proporcionou ao morrer na cruz. Pois, como já explicado mais acima, Jesus cumpriu, e continuará cumprindo até o fim, todo o simbolismo que era necessário antes da sua vinda: “Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim destruir, mas cumprir” (Mt 5:17).

Paulo observava, porém, que não era apenas as leis cerimoniais que os seus ouvintes se prontificavam a servir. Ele viu que vários cristãos que haviam aceitado a liberdade que Jesus lhes deu das leis de Moisés estavam caindo em um outro extremo e crendo erroneamente que Deus não mais se importava com o pecado. Ou seja, eles estavam saindo da servidão da lei para uma servidão ainda pior, que é a servidão da carne. Eles não entenderam o que a graça que Deus nos demonstrou através de Jesus realmente significava: “O que então? Havemos de pecar porque não estamos debaixo da lei, mas debaixo da graça? De modo nenhum. Não sabeis que daquele a quem vos apresentais como servos para lhe obedecer, sois servos desse mesmo a quem obedeceis, seja do pecado para a morte, ou da obediência para a justiça?” (Ro 6:15-16). Notemos que Paulo menciona neste verso três opções de servidão, duas negativas e uma positiva: a lei, o pecado e a obediência. Servir a lei, implica na rejeição do sacrifício de Jesus (Ro 10:4); servir ao pecado implica na morte eterna (Ro 6:23) e servir à obediência implica na justificação perante Deus (Ro 6:22). Mas a quem devemos servir em obediência para que sejamos justificados e possamos receber a vida eterna? Paulo nos responde: “sabendo que do Senhor recebereis como recompensa a herança; servi a Cristo, o Senhor” (Cl 3:24).

Paulo então defendia que devemos viver em servidão a Cristo, obedecendo a tudo aquilo que nos foi ensinado, pois como poderíamos servir a alguém sem que obedeçamos a ele? “Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para ser apóstolo, separado para o evangelho de Deus” (Ro 1:1). Paulo procurava ensinar aos seus ouvintes as mesmas leis baseadas no amor a Deus e ao próximo que Jesus nos transmitiu. Observemos as palavras de Jesus: “Vós me chamais Mestre e Senhor; e dizeis bem, porque eu o sou. Ora, se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. Porque eu vos dei exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também” (Jo 13:13-15). E observemos as palavras de Paulo: “Levai as cargas uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo” (Gl 6:2).

Queridos, este estudo foi mais longo do que os outros da série porque nenhum escrito em todo o mundo é usado mais fora de contexto do que as cartas do apóstolo Paulo. Realmente, conforme o nosso irmão Pedro nos disse, nos escritos de Paulo “há pontos difíceis de entender, que os ignorantes e volúveis torcem, como o fazem também com as outras Escrituras, para sua própria perdição” (2Pe 3:16). Eles aproveitam a complexidade das palavras de Paulo para de alguma forma conseguirem um falso respaldo na Bíblia para seguirem amando este mundo (Ro 12:2; Gl 1:4; Ef 4:23; 2Tm 4:10). Não morreram para o eu e não amam a Jesus a ponto de abandonarem tudo para o seguirem (Lc 14:26; Jo 12:25) e precisam então de algum tipo de apoio, ainda que fantasioso, para continuarem amando a si mesmos, mas, ao mesmo tempo, insistirem que amam a Cristo: “E por que me chamais: Senhor, Senhor, e não fazeis o que eu vos digo?” (Lc 6:46). Espero te ver no céu.

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