🔊 (Parte 7) Serie: Obedecendo a Jesus. Estudo Nº 7: Tiago e a Obediência. [Com Áudio]

(Parte 7) Serie: Obedecendo a Jesus. Estudo Nº 7: Tiago e a Obediência. [Com Áudio]

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Por Markus DaSilva, Th.D.

Sabemos que existiram quatro homens com o nome de Tiago que de alguma forma se relacionaram com Jesus: o apóstolo Tiago, irmão de João e filho de Zebedeu (Mt 4:21); o apóstolo Tiago, filho de Alfeu (Mt 10:3); o Tiago pai do apóstolo Judas, também conhecido como Tadeu (Lc 6:16; Mt 10:3), e o Tiago parente de Jesus (meio-irmão ou primo) (Mc 6:3; Gl 1:19). De todos esses Tiagos, muito já se discutiu quanto a qual deles escreveu a conhecida carta de Tiago. Destes quatro, segundo os historiadores, os dois candidatos mais fortes sempre foram Tiago, filho de Alfeu e Tiago, o parente de Jesus, sendo que alguns, como João Calvino (França 1509-1564), defendem que os dois são de fato a mesma pessoa. Calvino entendia que o Tiago mencionado por Paulo em Gálatas 1:19 era o mesmo de Mateus 10:3 e que era primo de Jesus por parte de Maria. Independentemente de qual Tiago foi o autor da epístola, o fato é que este é um livro essencial na Bíblia por vários motivos, mas de uma forma especial pela visão equilibrada que Tiago possuía sobre a fé e a obra: “Porque, assim como o corpo sem o espírito está morto, assim também a fé sem obras é morta” (Tg 2:24).

“Ainda que o homem reconheça que realmente há poder salvífico em tudo o que Jesus nos diz, a sua salvação apenas ocorrerá quando ele obedecer àquilo que ouviu.”

Foi principalmente por causa de versículos como este acima que o homem considerado como o pai da reforma protestante, Martinho Lutero (Alemanha 1483-1546), teria removido o livro de Tiago da sua versão da Bíblia [Alemão: Lutherbibel], mas devido à pressão, resolveu mantê-lo, porém, mudou a sua posição para o final das Escrituras, argumentando que a sua validade era apenas histórica e não doutrinária. Lutero chamava a carta de Tiago de “uma epístola de palha”, e sem caráter evangélico [Alemão: keine evangelische Art], dando a entender que havia sido inventada especificamente para contradizer a Paulo e que não foi inspirada por Deus. Muito embora ele fez o mesmo com Hebreus, Judas e Apocalipse, alegando que estes livros não foram inspirados pelo Espírito Santo ou que não possuíam o mesmo grau de inspiração que as outras epístolas. Para ele, as cartas de Paulo seriam os livros mais inspirados da Bíblia. Esta sua posição radical em relação a Paulo era porque ele entendia que o apóstolo ensinava um evangelho em que o homem que crê em Jesus será salvo à parte de qualquer ato, positivo ou negativo, que venha a fazer: Somente a fé, somente a graça [Lat. Sola fide, sola gratia]. Se o Senhor nos permitir, lidaremos especificamente com este assunto nos dois estudos que seguem nesta série, um sobre Paulo e o outro sobre a graça.

Lutero e qualquer outra pessoa que queira retirar Tiago, ou algum outro livro da Bíblia, estará entrando em um terreno perigosíssimo e abrindo caminho para todos os tipos de enganos. O problema de Lutero e de muitos outros estudiosos, no passado e no presente, é a perda do foco quanto à base que sustenta toda a Palavra de Deus, que é Jesus, o “Logos” do Pai. Martinho Lutero não suportava a carta de Tiago porque parte do seu conteúdo, no seu entendimento, contradiz certas passagens nos escritos de Paulo. Obviamente não existe nenhuma contradição e ele demonstrou um entendimento incorreto quanto à essência do evangelho de Deus. A fonte do seu erro, no entanto, não está na sua capacidade intelectual, pois todos sabem que Lutero era um homem inteligente. A sua falha foi comparar um autor com outro, quando o correto é sempre comparar qualquer escrito, seja na Bíblia ou fora dela, com as palavras do nosso perfeito Mestre: Jesus Cristo. Se ele julgasse os escritos de Tiago pelas palavras de Jesus, e fizesse o mesmo com os de Paulo, veria uma completa harmonia entre os dois. É interessante observar que o próprio Paulo critica este tipo de comparação homem com homem: “mas estes, medindo-se consigo mesmos e comparando-se consigo mesmos, estão sem entendimento” (2Co 10:12).

Deixando esta introdução informativa para trás, Tiago conhecia muito bem o evangelho pregado por Jesus, seja porque ele de fato era um dos apóstolos e esteve com Cristo durante todo o seu ministério (Mt 10:3), ou porque acompanhava a Jesus como um dos seus discípulos. Sabemos definitivamente que ele era um líder da igreja em Israel, não só porque ele se autodefine como mestre (Tg 3:1) como também porque a sua carta foi escrita com várias instruções práticas e doutrinárias direcionadas especificamente para “as doze tribos da Dispersão” (Tg 1:1), ou diáspora, termo que se refere aos Judeus que viviam fora da Palestina.

Tiago considerava os ensinos de Jesus Cristo muito além de simples instruções para esta vida, como tantos nos nossos dias os consideram. Assim como o apóstolo João, Tiago entendia corretamente que existe algo sobrenatural nas palavras do Filho unigênito de Deus. Para Tiago a palavra [logos] que saia da boca de Jesus (Logos) continha a verdade que leva à vida eterna: “Tu tens as palavras da vida eterna” (João 6:68) [Gr. ρηματα ζωης αιωνιου (rimata zoís aioníu)]. Tiago conclui que, a menos que a pessoa receba esta palavra ele ainda não nasceu para a vida eterna: “ele nos fez nascer pela palavra da verdade” (Tg 1:18), expressão que ecoa as próprias palavras de Jesus no seu diálogo com o fariseu Nicodemos: “Em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” (João 3:3).

É importante que entendamos que para que um pequeno grupo (Lc 12:32; Mt 7:14) fosse resgatado da morte espiritual eterna que hoje mesmo paira sobre toda a humanidade, de alguma maneira Deus teria que nos dar acesso à vida em abundância que existe apenas nele e que nos foi enviada e efetuada no viver sem pecado e no sangue derramado do seu único Filho por essência: Jesus. A maneira escolhida por Deus, foi as palavras que saíram dos lábios de Jesus: “as palavras que eu vos tenho dito são espírito e são vida” (João 6:63). Se o pecador imagina que obterá a vida eterna ignorando, ou não levando a sério, cada uma das palavras que saíram dos lábios de Jesus, ele está enganando a si mesmo e de forma alguma alcançará a graça salvadora de Deus, pois não existe graça para aquele que rejeita as palavras do seu amado Filho: “Quem não me ama, não guarda as minhas palavras; ora, a palavra que estais ouvindo não é minha, mas do Pai que me enviou” (João 14:24).

Já nos seus dias, quando havia apenas alguns meses ou anos que Jesus havia estado conosco, Tiago observava que muitos dos seguidores de Cristo conheciam os seus mandamentos, mas no seu viver se comportavam como se o conhecimento que tinham fosse o suficiente: “recebei com humildade a palavra em vós implantada, a qual tem poder para salvar as vossas almas. E sede cumpridores da palavra e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos” (Tg 1:21-22). Neste conhecido verso, Tiago primeiro confirma que de fato a palavra de Deus, que haviam recebido através de Jesus, possui um poder sobrenatural que pode salvar a alma. Ou seja, estas não são palavras comuns que se ouve no dia a dia, vindo de várias fontes e trazendo consigo todos os tipos de mensagens.

Irmãos, o dia inteiro, o tempo todo, por vários meios, as pessoas querem que escutemos o que elas nos têm a transmitir. A maior parte destas palavras são irrelevantes para a nossa felicidade. Algumas destas palavras, porém, são boas palavras, são coisas até mesmo bíblicas e que reconhecemos os seus benefícios, mas não é isto que Tiago está se referindo quando nos diz que a palavra de Deus “tem poder para salvar as vossas almas”. Tiago está se referindo a algo não-humano. As palavras que Jesus nos deu não salvam as almas porque são corretas, ou porque possui uma certa lógica, ou porque promovem o bem das pessoas, não, Tiago quer dizer que as palavras de Jesus possuem poder inerente. Nas próprias palavras se encontra poder para salvar: “as palavras que eu vos tenho dito são espírito e são vida” (João 6:63).

Jesus, sendo ele o Verbo [Logos] pelo qual tudo o que existe veio a existir (João 1:1-3), não proferia sequer uma única palavra simplesmente por fazer, pois conhecia muito bem o resultado de tudo aquilo que saía da sua boca. Quando ele disse para a figueira: “Nunca mais nasça fruto de ti!” (Mt 21:19), a partir daquele momento, não existiu a menor possibilidade que a figueira um dia viesse a dar fruto e Jesus sabia disso. Ainda que os mais entendidos dos agricultores pegassem aquela árvore e cuidassem dela com todo o carinho, com as melhores terras, os melhores adubos e tudo o que existe de melhor para se conseguir figos, daquela planta jamais surgiria sequer o começo de um figo. Poderia até se tornar uma linda árvore. Frondosa, sempre com lindas folhas e cheia de flores, poderia dar tudo aquilo que se espera das melhores figueiras do mundo, mas figos? Jamais. Assim é com todas as palavras que saíram da boca de Jesus quando ele esteve aqui conosco e que nos são atualmente lembradas pelo Espírito Santo que nos foi enviado pelo Pai: “Mas o Ajudador, o Espírito Santo a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto eu vos tenho dito” (João 14:26).

Voltemos agora àquilo que Tiago nos disse: “a palavra em vós implantada, a qual tem poder para salvar as vossas almas” (Tg 1:21-22). O fato dele ter usado o verbo “ter poder” [Gr. δύναμαι (díname) Trd: pode, é capaz, tem condição de] nos diz que muito embora o poder para salvar a alma da morte eterna esteja na palavra de Jesus, existe algo mais que necessita ser feito para que este poder se manifeste, caso contrário ele escreveria “a palavra salva” em vez de “tem poder para salvar”. Ou seja, as palavras de Jesus possuem o potencial para salvar, mas a alma que quer ser salva por elas precisa fazer algo para que a salvação ocorra, e este algo que precisa ser feito se encontra na mesma sentença: “e sede cumpridores da palavra e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos” (Tg 1:21-22). Ou seja, o indivíduo que ouve se expõe ao poder inerente da palavra, mas se expor somente não solucionará o seu problema. Ainda que ele reconheça que realmente há poder salvífico em tudo o que Jesus nos diz, a sua salvação apenas ocorrerá quando ele obedecer àquilo que ouviu. Seria como se alguém enfermo recebesse uma receita médica de um remédio com sucesso de cura garantido. A receita não terá nenhum valor para curá-lo da sua enfermidade se ele simplesmente a colocá-la em uma gaveta. Ele pode ler a receita várias vezes, ele pode memorizar muito bem o nome do remédio escrito na receita, ele pode até mesmo telefonar para a farmácia perguntando se eles têm o remédio em estoque e qual é o preço. Todas estas coisas que ele fizer com a receita contendo o nome do remédio que lhe dará a cura que tanto necessita será inútil. A receita possui um conteúdo que cura, mas a cura apenas será efetuada quando ele for na farmácia, comprar o remédio e tomá-lo exatamente como consta na receita: “e sede cumpridores da palavra e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos” (Tg 1:21-22).

Queridos, Tiago era um homem prático e foi inspirado por Deus para que os seus ensinos também fossem práticos. Tiago quis dar ênfase na verdade que a fé só terá qualquer valor para Deus quando ela se manifestar no físico, isso porque Deus nos fez seres físicos e não somente espirituais. Para que ficasse bem claro o que ele queria nos transmitir, Tiago utilizou de dois exemplos nas Escrituras: Abraão e a prostituta Raabe (Tg 2: 21-26). Se Abraão tivesse dito que tinha fé em Deus, mas não levasse adiante, no físico, o pedido de Deus de sacrificar a Isaque, a sua fé seria inútil (Gn 22:10-12). Da mesma forma, se  Raabe, tivesse dito que temia ao Deus dos Israelitas, mas não escondesse fisicamente os espiões, correndo risco de vida (Js 2:3-4), então a sua expressão de crença em Deus seria inútil: “Que proveito há, meus irmãos se alguém disser que tem fé e não tiver obras? Porventura essa fé pode salvá-lo?” (Tg 2:14). Assim é com todos nós. Se nos chamarmos de cristãos, se falarmos que amamos a Jesus, se afirmarmos que aceitamos a Ele como o nosso Salvador pessoal, se fizermos tudo isso, mas recusarmos a obedecer aos seus mandamentos, então a nossa fé é inútil pois não foi manifestada no físico; ficou apenas na teoria; uma fé em potencial, mas que não se concretizou. Este tipo de fé não salvará ninguém.

Imploro, meus amados, que comecem imediatamente a demonstrar ao Senhor que a sua fé não é somente teórica e que vocês realmente o amam através da obediência a tudo aquilo que saiu dos seus lábios: “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele” (João 14:21). Espero te ver no céu.

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